Blogs Alucinados


Josephine


Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?



Sábado, Maio 31, 2003

Shakespeare Alucinado

Ignorando meus próprios conselhos, sexta-feira decidi jantar em vez de me contentar com algo leve, como um café ou um suco. E, como se não bastasse jantar, jantei algo incrivelmente "pesado" e indigesto.

Como um condenado da Ilha do Diabo, paguei muito caro pelos meus atos. Se tivessem sido somente pesadelos eu teria ficado contente, mas o destino não me foi gentil, reservando-me o que, na ausência de um termo melhor, denominei de: "O" pesadelo.

"O" pesadelo, ao contrário dos demais pesadelos, não é assustador pelo seu conteúdo. Sua abordagem é bem mais sutil. Ao invés de vir recheado de monstros genocidas, perseguições psicóticas ou qualquer outra espécie de terror físico que nos faça crer que nossas vidas estão em perigo, "O" pesadelo costuma vir coberto com uma capa de inocência e benignidade.

No meu caso, "O" pesadelo tomou a forma de uma peça de teatro. Era uma peça inédita de Shakespeare que havia sido descoberta. Eu participava como um dos atores, o conselheiro da corte, e meu papel era o de convencer a rainha de que seu esposo, o indeciso rei, precisava cumprir uma determinada tarefa em um determinado lugar para que um determinado mal não sobreviesse a determinado povo de determinada região em uma determinada época (não entrarei em maiores detalhes da trama, pois, não sendo Shakespeare e nada entendendo de peças, meu enredo era risível).

A princípio, a peça parecia desenrolar-se normalmente como todas as peça devem desenrolar-se (admito que estava até interessante participar), mas, em um determinado ponto da trama, a peça inexplicavelmente retornava ao seu início, e não havia nada, absolutamente nada, que eu pudesse fazer para impedi-la ou, ao menos, modificá-la.

E, como uma velha vitrola com um disco arranhado, fiquei repetindo as mesmas falas, nas mesmas posições, com as mesmas expressões, para os mesmos personagens, em um ciclo interminável de profundo sofrimento psicológico. Para amplificar a tortura, "O" pesadelo escolheu um trecho de cerca de três minutos particularmente irritantes daquela trama, de modo que o tédio e a angústia provocada pela profunda monotonia da infinita seqüência ameaçava lançar-me em irremediável loucura. Como um escravo programado, não possuía o mínimo de autonomia, sequer para mover um músculo em desacordo com o roteiro.

E por mais de cinco horas fiquei acorrentado àquela "Roda de Conan", aprisionado naquela câmara de torturas que se havia tornado meu subconsciente. Por fim, exausto e semidestruído, despertei. Caminhei cambaleante até o banheiro, lavei o rosto, olhei-me no espelho e jurei para mim mesmo que jamais voltaria a assistir uma peça de rainhas, reis e conselheiros da corte, não importando de quem fosse.

Retornei à minha cama e deitei-me, certo de que meu martírio havia finalmente chegado ao fim. Estava de tal forma cansado e abatido que adormeci quase instantaneamente. Contudo, "O" pesadelo não se havia dado por satisfeito. Enfraquecido pelo dia que se iniciava, reuniu o resto de suas forças e conseguiu ainda me colocar como platéia para um discurso inflamado de três horas da senadora Heloísa Helena.

Mas tolerar a furiosa senadora foi como tirar a mamadeira da boca de um bebê. Depois de atuar naquela peça radical, qualquer outro radicalismo iria parecer-me brincadeira de criança.

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:13 PM


Comments:



Sexta-feira, Maio 30, 2003

Visão Do Mundo

Certo dia, olhei para o horizonte, cerrei as sobrancelhas e, num furioso impulso, disse:
- BASTA!

Não podia mais tolerar aquela situação. Tinha que tomar medidas enérgicas e acabar com aquela palhaçada de uma vez por todas. Estava decidido, e nenhuma força natural iria impedir-me de seguir minha resolução. Fui ao oftalmologista, peguei minha receita e mandei fazer meus óculos.

Já estava cansado de perder o ônibus porque não podia ler sua identificação até o momento em que ele estivesse a oito metros de distância. Já estava farto de olhar para o mundo e ver somente borrões verdes, no lugar das árvores, manchas cinzas, no lugar dos prédios, e massas disformes, no lugar das pessoas.

Certamente, como todo o lunático, estou exagerando um pouco nos fatos. Minha miopia é de somente meio grau e provavelmente o mundo nunca foi tão medonhamente distorcido quanto eu acreditava estar vendo. É claro que, somados o meio grau de miopia com o outro meio grau de astigmatismo, eu era acometido por um efeito equivalente a um grau de miopia em cada olho. E esse um grau de miopia me estava levando a um grau de loucura que achei por bem aniquilar logo no início, antes que tomasse maiores proporções.

Apesar de minha teimosia e de minha profunda resistência em utilizar equipamentos de auxílio visual, acabei por acatá-los. Entretanto, sabia que não poderia valer-me de armações muito espessas, já que utilizo muito da visão periférica para me movimentar pelo mundo, e a idéia de ter meu campo visual significativamente reduzido não me trazia encanto. Já havia experimentado aqueles óculos de segurança que têm aros grossos e laterais cobertas por uma tela plástica e que, para o meu caso, poderiam muito bem ser chamados de óculos de insegurança, pois não houve cabo, trilho, pedra, estrutura, desnível, rachadura ou qualquer outro elemento saliente próximo ao nível do solo que eu não tivesse chutado ou tropeçado.

Por fim, após muita busca, encontrei a armação que satisfazia a todos os aspectos ópticos, práticos e econômicos de minha necessidade visual. Uma armação leve, muito delgada e, o melhor de tudo, barata (levando-se em conta o superior benefício proporcionado).

É bem verdade que algumas vezes chego até mesmo a esquecer que a estou utilizando, a ponto de enfiar os dedos na lente quando da necessidade de esfregar os olhos. Alguma alma furiosa e acusatória poderia apontar-me o dedo e, bufando, inquirir:
- Por que você não fez isso antes?

Talvez essa demora em minha decisão me tenha proporcionado algo muito melhor em longo prazo. Devo confessar que talvez essa tenha sido uma das melhores surpresas que já me aconteceram até o momento. Quão inesquecível foi redescobrir, depois de tantos anos, todos os detalhes da natureza, as folhas, as rachaduras das cascas das árvores, o aspecto granuloso das nuvens, a rica quantidade de matizes que só um pôr-do-sol pode exibir, e todos esses minúsculos pormenores que carregam a essência do que é belo nesse mundo e que eu já havia esquecido.

De certa forma, todos nós, com o passar dos anos, nos acostumamos com essas particularidades a ponto de não mais as perceber, e um mundo cheio de detalhes e rico em beleza é simplesmente ignorado e substituído por um fundo cinza onde desempenhamos nossa rotina.

Aqueles óculos podem ter somente remediado a miopia de meus olhos, mas com certeza curaram a miopia de minha mente.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:08 AM


Comments:



Quinta-feira, Maio 29, 2003

Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo VIII.

A Descoberta Do Fogo

No final de minha média infância*, muitos elementos da natureza, corriqueiros até, passaram a despertar minhas mais profundas curiosidades. O mais significativo deles foi, sem dúvida nenhuma, "o fogo".
Até então, não parecia haver maiores atrativos naquela bruxuleante entidade que os antigos consideravam como uma das substâncias básicas da ordem natural, juntamente com a água, o ar e a terra. Todavia, de uma hora para outra e sem nenhum aviso, uma irresistível obsessão inundou minha mente. Não havia força nesse mundo que me conseguiria impedir de disseminar as hipnóticas chamas por onde quer que os meus pés pisassem.

Passei a incendiar todos os objetos combustíveis que meus olhos pudessem encontrar e minhas mãos pudessem alcançar. Obviamente não carbonizaria nenhum documento importante de meus pais, ou algum móvel ou tapete da casa (minha obsessão era forte, mas não era autodestrutiva). Entretanto, a incineração foi o destino de tudo o que parecia não ter mais serventia. Tornei-me um mestre na arte de reduzir os elementos a cinzas.

Tal incendiário virtuosismo cobrava o seu preço. Não havia mais emoção na queima de simples caixas de papelão, não havia mais satisfação em observar os objetos de plástico, couro ou outros materiais ardendo nos fundos de meu pátio. Minha alma ansiava por um desafio maior, algo que mostrasse ao mundo meu flamejante ofício e desse sentido à minha piromaníaca existência.

Procurei pelo objeto que encarnaria a minha mais nova e destrutiva obra. Vasculhei pelas ruas de minha vizinhança, mas nada encontrei que me estivesse acessível. Já estava pensando em desistir da alucinada busca quando, para minha absoluta surpresa, percebi que havia uma árvore na calçada, entre o nosso terreno e o do vizinho, que possuía todas as qualidades essenciais para o meu intento. Ela era uma grande e velha árvore semi-oca, forrada com a serragem de seu apodrecido cerne. Não poderia ser melhor!

Era início da noite de um quente dia de domingo e a umidade do ar era baixa, o que certamente tornaria o espetáculo mais grandioso. Aproveitei-me do baixíssimo movimento na rua e dei princípio ao pirotécnico evento. Entrei correndo para dentro de casa e, numa fresta da janela, pus-me a observar minha criação. Em pouco tempo o fogo tomou conta do ressequido vegetal e as labaredas tomaram as alturas.

Mal cabia em mim de tanta emoção. O fabuloso archote gritava ao mundo minha conquista. E a noite se fez dia. Como um radiante farol, atraía os olhos dos que passavam e declarava a imortalidade de meus feitos. E quem tinha olhos, viu.

Pude ver o pavor e o assombro nas faces dos transeuntes. Sobretudo quando o fogo, que alcançava vários metros de altura, consumiu o encapamento da fiação da rede de distribuição de energia elétrica, e lançou os eletrificados condutores em um terrível balé de curtos-circuitos e faíscas.

O prodigioso espetáculo atingira sua apoteose. Nem mesmo Nero presenciara tamanho esplendor.

Em pouco tempo, as forças policiais e corpo de bombeiros chegaram ao local para controlar o que pensavam ser um misterioso incidente. Quase imediatamente, voei para baixo de minha cama e lá permaneci por muito tempo, meditando sobre meu ato e a relação custo-benefício de minha obsessão.

Devo admitir que as reações da população local me surpreenderam e, embora nunca tenham descoberto o autor do lendário feito, meus instintos incendiários foram duramente sufocados. Contudo, ainda me restara um pouco. E, juntamente com uma caixa de fósforos, ateava um foguinho aqui, um foguinho ali, coisa pouca, mas suficiente para acalmar minha maníaca vontade.

Certo dia, ao entrar em uma peça anexa a nossa casa (um pequeno galpão que existia na época) percebi que havia uma pilha de jornais e revistas em cima de uma mesa, pilha que quase alcançava o forro, feito de madeira. Procurei em meu bolso e lá estava ela, minha companheira, a caixa de fósforos.

Automaticamente lancei a pequena chama na lateral da pilha, para, logo em seguida, apagá-la. Não era minha intenção iniciar um fogo de maior tamanho naquele local, queria simplesmente chamuscar as pontas dos jornais. E fui brincando, e cada vez que ateava fogo nas folhas demorava mais para apagá-lo, só para exercitar meu controle sobre as chamas.

Obviamente o inevitável aconteceu. Em certo momento, minhas habilidades foram insuficientes para controlar as labaredas e o fogo começou a se espalhar pilha acima, incontrolavelmente. Lembranças daquele marcante dia com a árvore vieram à minha mente. Eu já podia até ouvir as sirenes dos bombeiros e da polícia em frente à minha casa.

Despenquei em profundo desespero. Estava sozinho e não fazia a mínima idéia de como controlar aquela besta selvagem que ameaçava consumir meu lar. Para minha mais redentora sorte, havia uma mangueira estrategicamente posicionada de modo a que eu tropeçasse nela. Sem dúvida não era meramente obra do acaso (nenhum lunático acredita no acaso).

Saí enlouquecidamente à procura de uma torneira com adaptador para mangueira, o que miraculosamente encontrei bem ao lado do galpão (normalmente minha mãe retirava esses adaptadores, o porquê eu não sei).
Consegui apagar o fogo bem a tempo de o impedir de queimar o teto.

Totalmente encharcado e ainda trêmulo, refleti sobre esse desesperado acontecimento. Pude constatar que me havia curado completamente da incendiária obsessão. A partir daquele dia troquei de elemento favorito, passei de admirador do fogo para fã incondicional da água.

De fogo, bastava-me o do fogão.


*Divido minha infância em baixa (0-3 anos), média (4-7 anos), alta (8-11 anos) e altíssima (12 anos em diante), para fins de enquadramento histórico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:10 AM


Comments:



Quarta-feira, Maio 28, 2003

A Cada Tempo O Seu Tempo

Com esses dias frios que têm feito por aqui, olho para os aquecedores, para os chuveiros elétricos, para as torneiras elétricas, enfim, para todos esses confortos e me assombro com esses tempos de tecnologias incrivelmente úteis e, por que não dizer, baratas que o mundo moderno nos proporciona.

E pensar que bilhões de pessoas antes de nós jamais sonhariam em ter água encanada, quanto mais água aquecida, em suas residências. Tornamo-nos de tal forma dependentes desses avanços que não saberíamos o que fazer caso os perdêssemos. O que seria de nós sem a eletricidade? Como sobreviveríamos sem gás de cozinha? Quantos dias suportaríamos a ausência de água em nossas residências antes de entrarmos em desespero? Essa é uma realidade que nós, pacatos cidadãos, não podemos quase nem sequer imaginar (apesar de muitas pessoas ainda sobreviverem desse jeito mundo afora).

Fecho os olhos e me concentro no passado. Com os olhos da mente observo nossos ancestrais de dezenas de milhares de anos atrás. Quase posso ouvi-los dizendo:

- Hur gahf cah jadl grooc assee Rati. (O que nós vamos fazer hoje, chefe?)
- Assee cah jadl trhaa. (Hoje nós vamos caçar)
- Hur cah jadl trhaa Rati. (E o que vamos caçar, chefe?)
- Cah trhaa drunu abaaba tantare. (Vamos caçar um mamute!)

{Aqui abro parênteses para uma pequena explicação lingüística. O termo mamute não existia em trogloditês, portanto era usada expressão "drunu abaaba tantare", que significa, ao pé da letra, "bicho grande pra cacete". Fim dos parênteses}.

- Hur zuih jadl trhaa di Rati. (E como vamos caça-lo, chefe?)
- Tiira rasf ru glebat quarja tamanaz tasoo afeab ru sumta quarja drunu abaaba tantare ru cah ussuâ gataã. (Primeiro vá até a aldeia e chame os guerreiros, depois corra até o vale e atraia um mamute até nós para que o matemos)
- Hur ussuã zu avka tusse tunê fragag (Por que eu tenho sempre que ser a isca?)
- Ussuã za tunê harae zinti quo za gataã du tunê harai danza. (Porque você é o mais fraco, e se você morrer não fará muita falta)

Como vocês podem ver, a vida era muito dura naqueles tempos imemoriais. Principalmente para os menos favorecidos atleticamente.
Mas seguramente chegará o dia em que nossos descendentes olharão nosso tempo e horrorizados dirão:
- Como eles conseguiam sobreviver sem os encogrimadores quânticos? Como era possível suportar a existência sem nenhum tipo de levilet gravitacional ou de, ao menos, pardiurentes bio-assimiladores? O que seria de nossa civilização sem a neuroflimerização global?

Sinto uma alucinada alegria por ter nascido nessa época de alta-tecnologia, mas estaria mentindo se dissesse que não sinto uma enorme tristeza por não saber o que é um encogrimador quântico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 1:55 PM


Comments:



ESCLARECIMENTOS ESPANTOSAMENTE ESCLARECEDORES (E.E.E.)

Só para que vocês não se apavorem, como minha cara amiga Heiter (Van), gostaria de esclarecer que essas figuras à esquerda não são alucinações de vossas cabeças, e sim uma lunática tentativa de melhorar as comunicações interpessoais entre vocês e esse que vos fala ou entre esse que vos fala e vocês (a ordem dos fatores parece não alterar o produto).
Obviamente o resultado é enlouquecido. Entretanto, creio que aqueles que visitam esse blog regularmente já estão acostumados e não sofrerão traumas mais profundos ou permanentes.

Alucinadas saudações,

Edmund.


P.S.: Esse não é o post de hoje. Embora tivesse vontade de o postar nesse momento, meu corpo reluta em obedece-me. Creio que terei que desmaiar por algumas horas. Mais tarde, quando eu for agraciado com um momento de liberdade, sairá a fornada do dia.

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:14 AM


Comments:



Terça-feira, Maio 27, 2003

A Fila

Não pude deixar de perceber como são belas e harmoniosas as filas. É bem verdade que, quando grandes e imóveis, eu as abomino do fundo de minha alma. Entretanto, isso não significa que ignoro seus valores civilizatórios e seus intrínsecos efeitos anticaóticos.

Seu nome de batismo é "fila indiana" e ela pode até ter realmente nascido na Índia, eu não sei, mas foi no Brasil que ganhou seu status e reivindicou para sempre seu espaço, tornando-se "fila indiana da silva", ou simplesmente "fila".

Domingo passado, ao observar a referida entidade enquanto aguardava para entrar no cinema, pude vislumbrar suas profundas propriedades e seus significados superiores. Tal contemplação me fez realmente compreender a verdade de que tudo na natureza é regulado por regras básicas e por formas simples e repetitivas que, quando replicadas à exaustão, descrevem realidades enormes e complexas. Da mesma forma que os fractais, criaturas bizarras que vivem em uma dimensão não inteira e que guardam mesmo em um pequenino pedaço a característica de todo o conjunto, as filas e suas características são a representação da sociedade que as produz.

Digo isso porque, a menos de dois metros atrás de minha posição na fila, um grupo de quatro pessoas que havia chegado em cima da hora pediu, ao encontrar um conhecido, um "furo" para que não precisasse ir para o final da mencionada fila.

Para um lunático, observar tal acontecimento, mesmo que aparentemente não afete a sua condição, é como receber um jato de spray de pimenta nos olhos, sem falar que ouvir a expressão "Me dá um furo, please?" é equivalente a ouvir:
- Posso aproveitar-me de sua melhor colocação em relação aos meus semelhantes e, tirando vantagem disso, colocar-me em uma condição mais favorável, mesmo que com isso esteja ferindo o direito e os esforços do próximo, contribuindo para a manifestação das injustiças sociais, ainda que em pequena escala, e, ao agir assim, desconsiderar todas as mais básicas regras de civilidade que, em últimas palavras, são o que impede que nossa espécie retorne à barbárie, please?

Pode parecer exagerado e desproporcional esse pensamento, mas, devido à freqüência que tais acontecimentos teimam em acontecer, não posso deixar de me inquietar com o fato de que vivemos em uma sociedade em que muitos não conseguem, não sabem ou não querem respeitar nem ao menos uma simples fila, quanto mais o bem estar alheio, os cofres públicos, etc.
Alguém pode estar se perguntando:
- Esse lunático está dizendo que a culpa da desesperada corrupção e das terríveis aflições que as massas empobrecidas e exploradas enfrentam todos os dias em nosso depredado país deve-se aos "furos" nas filas?

Obviamente não, eu lhe responderia. Entretanto, como mencionei antes, elas são um excelente referencial cultural e, assim como um minúsculo pedaço de fractal revela a peça toda, elas englobam e revelam, em sua insignificância, as características da sociedade como um todo, boas e más.

Estava eu naquela fila imerso nessas reflexões quando o sujeito atrás de mim bateu em meu ombro e, apontando o enorme espaço que já havia entre o indivíduo à minha frente e eu, em tom de semi-brincadeira, disse:
- Ou anda ou sai da estrada!

Esse também me pareceu um pensamento bastante profundo.

postado por: EDMUND BONAPARTE 4:18 PM


Comments:



Segunda-feira, Maio 26, 2003

Até Que Enfim

Domingo fui direto ver Matrix Reloaded. Ou melhor, tentei ir direto ver Matrix Reloaded. Quando me preparava para sair, vi a gata da vizinha pular para cima do muro (o animal, não a vizinha). Virei-me, peguei a chave da porta e quando olhei novamente, lá estava o mesmo animal pulando para o mesmo muro. De'ja` vu? Estaria a Matrix fazendo alguma alteração na realidade aparente? Tentando não pensar muito no caso, fui para um não muito concorrido cinema perto de minha casa, na esperança de não ser tragado pelas hordas alucinadas.

Ao chegar lá, e consciente da existência do "Campo de Murphy", passei a analisar todas as pessoas que se encontravam no local e que pudessem possuir um alto potencial de aporrinhamento geneticamente conferido. Certamente o famigerado "Campo" havia tomado conhecimento de minhas intenções cinéfilas ao ler o post do dia 20 e me teria preparado uma desagradável surpresa. Ao olhar para a fila pude distinguir nitidamente o primeiro dos quatro cavaleiros do apocalipse. Um sujeito de bem mais de dois metros de altura, e que seguramente sentaria à minha frente, aguardava próximo ao fim da fila.

Pude sentir a maldade no ar. Lancei meu olhar em frenética busca pelos demais senhores do mal e encontrei o segundo. O sujeito com pernas convulsivas que sentaria às minhas costas e ficaria chutando e dando joelhadas em minha cadeira até eu ter violentas crises de enjôo estava lá também, mais ao meio da fila. Busquei desesperadamente o terceiro cavaleiro das trevas e vi um indivíduo incrivelmente gripado, fungando, tossindo e assoando o nariz a cada dez segundos. Ali estava a prova do maquiavélico plano! Esse era o sujeito que liberaria os apodrecidos vapores sulfúricos à minha direita.

Não encontrei o quarto cavaleiro, aquele que tem como ocupação limpar fossas sépticas e que viria com sua roupa de trabalho putrefazer a atmosfera à minha esquerda. Mas faltava ainda meia hora para o início da sessão e certamente ele viria, talvez até pior do que em meus pesadelos. Não sou O Escolhido, mas saí voando dali.

Fui para outro cinema igualmente pouco concorrido, e lá encontrei guarida. Embora tenha saído vitorioso nesse evento, o desprezível "Campo" ainda conseguiu, no último instante, aliciar um casal do tipo "Rubens Edwald Filho", que adora fazer comentários e críticas de filmes durante os filmes, para que sentassem às minhas costas.Felizmente eram comentários do tipo:
- Veja, querido! Apesar da neurocinética virtualmente superior de Neo, os agentes ainda conseguem esboçar alguma reação de significância!
- É claro, querida. A Matrix fez um upgrade em seus programas sencientes desde o último encontro.

Esse nível de tortura eu posso suportar.

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:50 AM


Comments:



Domingo, Maio 25, 2003


A Um Pixel Da Felicidade

Desde o post sobre o cosmos (dia 17) eu vinha enfrentando um problema com essa página que me teria deixado completamente pirado, caso já não fosse. Não sei se aqueles que já alucinam por aqui há algum tempo perceberam, mas as bordas laterais dessa janela haviam simplesmente sumido após eu ter colocado as gravuras do Sr. Sagan e da entidade Tesseract no referido texto, sem falar que e o conteúdo do blog parecia pesado e lento quando o descíamos através da barra de rolagem (ao menos para o meu Lentium). Esse pode ser um fato insignificante para muitos, mas para um lunático é como ter uma caneta bic cravada no meio da testa.

Aflito com meu unicórnico desconforto, tentei mudar vários parâmetros no meu template, mas nada parecia surtir efeito. A despeito de todos os meus esforços, parecia não haver nada que eu pudesse fazer para resgatar aquelas bordas do limbo onde se encontravam. Obviamente, não posso descartar o fato de ser semianalfabeto em HTML, como vocês podem bem ver nessa página, e estar tentando encontrar uma solução sem nem bem conhecer o problema.

Com o tempo, superei a fase da negação e passei para a da aceitação. Já estava pensando até em buscar algum outro template pré-fabricado que não me causasse maiores sofrimentos psicológicos, apesar de ainda desejar fazer meu próprio template, por mais esquisito que ficasse (como de fato ficou).

Quando tudo parecia acabado e a derrota inevitável, resolvi diminuir um pixel no tamanho de letra dos meus textos. Não fiz isso com nenhum outro intuito senão o de compactar um pouco mais o texto, que me parecia um pouco grande. Então a mágica aconteceu.

Ao mudar aquele único pixel, um mísero pixel, toda a ordem, que me havia sido roubada pelo caos que imperava, foi devolvida. A harmonia novamente reinava e a bic foi retirada de minha testa. Não pude crer em meus olhos. Procurei por meus antialucinógenos, mas eu já os havia tomado.

Esse fato trouxe-me uma compreensão superior da existência. Pude entender claramente que nossas vidas muitas vezes estão a um pixel de se tornarem calmas e ordenadas, embora estejamos mergulhados no caos aparente. Muitas vezes, basta uma mudança aparentemente insignificante no rumo de nossas existências para que todas as peças, que antes pareciam inconsistentes e incompatíveis, encaixem-se perfeitamente.

Muitas vezes, vivemos a um pixel da felicidade.

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:04 PM


Comments:



Sábado, Maio 24, 2003

Devido à insanidade (momentânea ou permanente, eu ainda não sei) de nosso caro BloggerMan esse diário encontra-se no What's Up, fato que muito me honra (e me preocupa). Como todo lunático, aprecio um pouco de discussão. Por esse motivo, juntamente com o post do dia, publicarei, vez por outra, um post antigo (perdoem-me os mais puritanos) que tenha acarretado comentários mais enfurecidos, inflamados, alucinados, indignados, apaixonados, entre outros adjetivos radicais, aproveitando o fluxo extra de loucura que penetra nesse recinto. O post que republico hoje (junto com um novo post de "Fábulas Alucinadas") é bastante existencialista e rendeu duras críticas para esse diário.


Eu vivo reclamando da qualidade da comida no restaurante onde freqüento. Não passa um dia em que eu não me encha de insatisfação pela comida engraxada que aquele senhor nos obriga a comer, já que ele sabe que não existe concorrência por perto.

Tento sempre evitar entrar em atrito com as pessoas, já que da última vez eu saí numa camisa de força. Mas hoje reagi à agressão. Botei todos os podres pra fora. Acredito que tive uma das maiores diarréias da história da humanidade. Sentado no meu trono de infâmia e agonia, puder ver a vida esvaindo-se do meu corpo por aquele fluxo incontrolável e, nesse momento, tive uma revelação:

Defecamos na água dos rios e dos rios bebemos nossa água. Por conseguinte, bebemos as fezes que defecamos. Também dos rios onde defecamos tiramos a água que irriga nossas plantações, que se nutrem, por sua vez, do solo fertilizado pelo esterco. Somos dessa forma, inevitavelmente, feitos de bosta. Homens e mulheres feitos de bosta, morando em um mundo cuja única matéria onipresente é a bosta.

Não me surpreendo que nos sintamos tão sozinhos no universo. Se eu fosse um alienígena também não iria querer fazer contato...

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:51 AM


Comments:




Diretamente do departamento de mitos folclóricos e de lendas caipiras:

"FÁBULAS ALUCINADAS"

A Princesa Ingingente

Óia! Esse é um daqueles conto qui si passaro a muitos ano atráis, a tantos ano qui inté dói os miôlo só di tentá arrecordá!

Naquela época, im uma terra distanti pra mais di metro, inzistia uma princesa qui o nome era Gertrude. A tar princesa Gertrude vivia pra lá di sozinha numa tar torre di um tar castelo qui tinha praquelas banda. I daqueli módo disgramado ela viveu toda sua disgramada vida porque um disgramado di um dragão num dava trégua nem pra princesa nem pra quarqué cousa qui arriscasse di bota o fucinho pra fora do castelo.

Naquela merma época inzistia um tar príncipi qui morava numa tar cidade qui istava sobi um tar feitiço qui fazia cum qui todo mundo si parecesse mais cum um sapo di tanta verruga i peréba qui surgia pelo corpo. Pra mór di quebrá cum o feitiço i arresorvê di veiz cos pobrema di pele da população, o tar príncipi tinha qui trazê uma princesa danada di boa pra cidade.

O príncipi andava meio borocochô purque num incontrava a muié qui ele quiria im lugar ninhum, isso seim falá im princesa, qui era mais dificir di achá qui dinhero graúdo im borso di mulequi. Ele já tinha ido inté vê uma tar di Branca di Neve, mais incebô as canela i fugiu qui nem um raio quano viu qui a muié tava mais morta qui um pirú im ceia di Natar, i ainda por cima tava dentro di um caxão.

Quano intão o príncipi oviu falá da tar princesa presa na tar torre du tar castelo, foi qui nem um relâmpigo pra sarvá ela, pra mór di trazê ela pra cidade i acaba di uma veiz por todas cum aquela porquera di vida qui eles levavo.

I intão lá si foi o príncipi montado no Quejadinha, seu cavalo, pra vê si tinha jeito di sarvá a princesa daquele dragão dos inferno.

Quano chegô por lá, viu que o abestaiado do animar tava durmino. Intão ele teve a briante indéia di tirá os carçado i i di pé im pé pra socorrê a muié sem acordá o bicho.
Quano ele tava dibáxo da janela da torre, ele chamô a princesa beim baxinho. Mais ela, qui tinha us ovido qui era uns radar, consiguiu inscutá o príncipi e lógo ixcramô:
- Oh! Meu ardacioso príncipi. Ocê mi achô!

I o príncipi arrespondeu:
- Sim, maraviosa princesa! Veim, pula aqui queu ti agárro e vamo botá cêbo nas canela!
Mais a princesa qui era cheia di nove ora i aquelas cousa toda, dissi:
- Não, ardaz príncipi! Primero voismice teim di mi dizê aquelas palavra bunita qui toda a princesa tem qui oví antis di si atirá nos braço do príncipi. Sinão eu não pulu!

O príncipi, qui nunca foi lá muito chegado nos livro di romance, dissi:
- Hãããã, xeuvê... Teus zóio são qui nem dois bizoro zoiando pra mim, tua boca é qui nem dois sarsichão preso pelas ponta, teus cabelo pareci ispagueti cum molh...
- Pára, pára, pára! Ocê num sabe é nada di palavra bunita! Berrô a princesa.
- Ocê é muito ingingente, princesa! Ocê é muito ingingente! Pula di uma veiz antis qui o bicho acórdi! Supricô o príncipi.
- Não, dissi ela, já qui ocê num sabe decramá umas palavra bunita, ocê vai te qui cantá uma música romântica pra mim, sinão eu num pulo, mais neim qui a vaca tussa!

O príncipi, seim opição, começô:
- Pela loonga istraadaa da vidaá, vô correno i não posso paráaaa...
- Pára, pára, pára! Ocê num sabe é nada di música romântica tamém! Bufô a princesa.
- Ocê é muito ingingente, princesa! Ocê é muito ingingente! Pula di uma veiz antis qui o bicho acórdi! Supricô di novo o príncipi.
- Óia, dissi ela, inquanto ocê não fizé argo rearmente romântico pra mim eu não vô pulá daquí! Não vô!
- Mais princesa, dissi o príncipi, é difícir pensa im argo romântico cum esse dragão nos carcanhár! Não seja tão ingingente e pula di uma veiz, por favor!
- Não pulu! Não pulu! Não pulu! Não pulu! Não pulu! Não pulu! Não pulu! Não pulu! Berrava a princesa.

Nessa ora, o dragão, que tamém não era nada bocó, veio correno vê o que qui éra aquela baruiera. Quano viu qui a princesa tava na janela si sacudino feito um bicho, vuô na direção dela i, im uma bocada, devorô a tar da princesa.

O príncipi ficô tão disiludido, mais tão disiludido, qui nem si mecheu. Ficô ali, parado, feito um muerão. Mais o dragão, im veiz di devorá o príncipi tamém, caiu no chão cum uma baita dor di barriga.
- Ocê tamém é muito ingingente, né dragão? Ironizô o príncipi.

Cum pena do bicho, ele levô o dragão pra cidade e cuidô dele. Pra sorti do povo todas as peréba sumiro, por que o feitiço acabava quano uma princesa viesse pra cidade, mermo qui na barriga di um dragão.
Pro príncipi foi mais milhór di bão ainda. Ele acabô si casano cum uma tar di borralhera, que adorava andá cum sapatinho di vidro, qui ele tinha cunhecido im um arrasta pé i si apaixonado.

I todos fôro feliz pra sempri. Cum eceção do dragão qui nunca si recuperô totarmente dos pobrema intestinar.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:01 AM


Comments:



Sexta-feira, Maio 23, 2003

Teoria Das Personalidades Alucinadas

Estava eu retornando para casa quando, ao pagar o valor da tarifa de transporte, fui duramente repreendido pela moça responsável por aquela função no referido ônibus. Creio ter sido a admoestação totalmente desproporcional ao meu ato, que foi simplesmente o de oferecer uma nota de dez reais para o pagamento de pouco menos de dois reais. Ainda perplexo pelo comportamento anti-social daquela jovem, que sempre aparentou ser de uma rara gentileza com os usuários, desci do ônibus e fui direto para uma padaria perto de casa comprar alguns pães para o café da noite (não costumo jantar, pois possuo uma alucinante tendência a ter pavorosos pesadelos quando ingiro algo de difícil digestão antes de dormir).

Chegando à padaria, fui atendido por outra jovem. Dessa vez eu estava bastante precavido e preparado para ouvir de tudo, já que essa moça é conhecida nas imediações como detentora da civilidade de um tiranossauro faminto. Para meu mais profundo espanto, aquela mulher tratou-me com tamanha delicadeza e cortesia que julguei estar tendo uma alucinação (o que seria bastante razoável).

Tentando entender o que havia acontecido e trazer alguma ordem ao caos que se havia instaurado em minha compreensão do mundo, formulei uma teoria. Segundo essa teoria, existiriam somente três tipos de pessoas nesse mundo. As pessoas do tipo 1, as pessoas do tipo 2 e as pessoas do tipo 3.

Poderiam afirmar que há infinita forma e diversidade de almas viventes nesse planeta e, portanto, seria impossível qualificá-las em apenas três grupos. Porém, minhas experiências demonstram que toda essa diversidade deve-se somente às combinações dos três grupos básicos em vários graus de influência. Dessa forma, um indivíduo poderia ser 22% tipo 1, 55% tipo 2 e 23% tipo 3, apresentando uma forte tendência às qualidades e defeitos presentes em pessoas do tipo 2. Outros poderiam ser uma combinação de 1/3 do tipo 1, 1/3 do tipo 2 e 1/3 do tipo 3, sendo assim indivíduos bastante equilibrados e centrados.

Mas, algumas vezes, as misturas podem ser um tanto quanto inesperadas. É possível, apesar de totalmente ilógico, um sujeito ser 43% do tipo 1, 28% do tipo 2 e 58% do tipo 3, totalizando 129% no somatório geral. Obviamente isso não é admissível, pois o máximo que se pode ser é 100% de algo. Entretanto tais criaturas existem. Como os três tipos presentes nesse ser estão sempre em conflito por mais espaço, algum dos tipos acaba cedendo terreno para os outros e se encolhendo, situação que, momentos depois, tenta reverter, tornando o indivíduo altamente instável. São aquelas pessoas que apresentam variações bruscas de humor em intervalos muito pequenos de tempo, pessoas que no fim da manhã lhe tratam como um velho amigo, e no começo da tarde querem ver sua cabeça pendurada em uma estaca em praça pública.

Há ainda, no rol das estranhezas, pessoas formadas somente por um tipo. Essas são as radicais. Tudo em sua existência é binário, não importando qual dos três tipos dominou. Tudo é somente sim ou não, sempre ou jamais, amo ou detesto, agora ou nunca, etc.

Embora algumas vezes essa característica possa ser útil ao demonstrar uma firmeza de caráter ou uma segurança de opinião, quase sempre o que vemos são conceitos cheios de preconceitos, visto que não há lugar para a dúvida ou ao menos para uma segunda reflexão.

Enfim, existem uma série de personalidades estranhas que poderiam ser descritas por essa teoria, mas, apesar de querer descrever o que são os Tipos 1, 2 e 3, creio que terei de deixá-los na sombra, porque, sei lá, não seria muito educado de minha parte começar a rotular as pessoas por tipos.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:04 AM


Comments:



Quinta-feira, Maio 22, 2003

Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo VII.

Uma Noite Alucinante

Um dia, em meados de minha média infância*, assistindo a um filme na televisão com meu pai, deparei-me com a criatura mais apavorante que meus infantis olhos haviam presenciado até então: Nosferatu.
Existem pessoas que necessitam desesperadamente do fluir da adrenalina em suas veias para que consigam sentir a vida em seus corpos. Dessa forma, expõem-se conscientemente a toda sorte de aventuras físicas e desafios atléticos na esperança de amenizarem suas aflitivas carências psico-químicas. No meu caso, basta-me um susto.

Ver aquela medonha entidade arrastando-se pelas trevas e alimentando-se do sangue das indefesas vítimas que cruzavam seu caminho liberou mais adrenalina em minha corrente sanguínea do que eu poderia processar em um ano.

Descobri, ao olhar tão horrendo filme, que se dependesse de minha necessidade adrenalínica jamais existiriam quaisquer esportes radicais e muitos outros nem tão radicais. Basta-me a violência de um jogo de xadrez e a brutalidade de uma partida de dominó para que sinta o completo ardor da existência em meu ser.

Acabado o filme, fui direto para minha cama. Entretanto, não houve maneira de fechar os olhos e dormir. Como todo garoto lunático, via em cada sombra e em cada ruído a presença do abominável vampiro esmerando-se por sugar-me o precioso fluido arterial. Durante o passar das horas fiquei em minha alucinada vigília observando todos os cantos de meu quarto à procura de algum movimento suspeito, de alguma fumacinha ou vapor que denunciasse a presença da bizarra entidade.

De tempos em tempos, estalos no forro e no teto faziam meu coração bater tão medonhamente forte a ponto de fazer com que eu me assustasse com ele também. Hoje sei que era somente efeito da dilatação térmica dos materiais que, ao passar da noite, fazia com que os elementos roçassem uns nos outros produzindo aqueles assustadores estouros, mas tente dizer isso a uma criança que acabou de assistir Nosferatu na televisão. Aquela noite foi, sem dúvida, a mais longa noite de minha vida até então.

Quando as forças já abandonavam meu corpo e as pálpebras pareciam feitas de chumbo, o desespero tomou conta de minha mente. Estaria o maligno sugador somente esperando este momento para dar seu bote final? Como faria para escapar de tão trágico fim?

Exausto e sem nenhuma perspectiva de vitória sobre a criatura, já estava quase me rendendo quando, para minha arrebatadora felicidade, o despertador tocou. Eram seis e meia! Estava salvo! Iria para a escola e nenhum vampiro iria atacar-me na iluminada manhã daquele radiante dia. Foi o dia mais extenuante que já havia experimentado. As horas de sono que o extraordinário temor me havia roubado cobravam seu preço transformando-me em um zumbi.

Quando a noite chegou, dirigi-me à minha cama e, como um autômato, atirei-me nela como se atingido por um dardo tranqüilizante. Quanto ao Nosferatu, apesar de ainda estar imerso no medo, queria mais que ele se lixasse. Preferia ter meu sangue sugado a passar outro dia como aquele.

Nada como uma boa canseira para abalar um mito.


*Divido minha infância em baixa (0-3 anos), média (4-7 anos), alta (8-11 anos) e altíssima (12 anos em diante), para fins de enquadramento histórico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:37 AM


Comments:



Quarta-feira, Maio 21, 2003

Diretamente do departamento de mitos e alegorias:

FÁBULAS ALUCINADAS

O Povo Detrás Do Armário

Era uma vez um menino chamado Mário. No quarto de Mário havia um armário (não é aquele Mário tampouco aquele mal-afamado armário). O armário de Mário era precário, pois todo o quarto fora comprado de antiquário.

Certa noite ao limpar seu aquário, notou Mário que vozes saíam por detrás do armário. Sem saber como existia tamanho comentário, pôs-se logo a averiguar o estranho mobiliário.
E Mário, ao ver o pequenino povo detrás do armário, ficou tão apavorado que até esqueceu o abecedário.
- Hei meu jovem, não seja otário! Gritou um do povo detrás do armário.
- Conversamos, pois aqui é solitário. Falou com ar abonatário.

Conversou então Mário com o dignitário do povo detrás do armário. E, não vendo dentre eles qualquer adversário, convidou-os para sua festa de aniversário.
Ganhou Mario um trenzinho e um perfeito modelo ferroviário do bom povo detrás do armário.
- Mas, disse Mário, deve ter custado meses de salário! Não posso aceitar, me sentiria um salafrário!

Sem ser autoritário, disse o nobre dignitário:
- Aceite, caro Mário! Queira ou não você é o novo proprietário! É seu presente de aniversário.

E assim, após se despedirem, de soslaio foi embora o povo para detrás do armário. E deles, nunca mais ouviu falar Mário. Sobrou somente seu modelo ferroviário, que guarda como jóia de relicário, e suas lembranças de diário do pequenino povo detrás do armário.

postado por: EDMUND BONAPARTE 1:45 AM


Comments:



Terça-feira, Maio 20, 2003



Matrix Reloaded

Hoje é só dia vinte. Os dias passam devagar quando se espera ansiosamente por algo. Não que eu deseje ver meus dias atropelarem-se uns aos outros numa sucessão enlouquecida, mas gostaria que hoje já fosse a estréia de Matrix.
Sim, como todo o lunático, sou fascinado por Matrix.

Não diria que somente os lunáticos o são. Devemos incluir nesse rol os nerds, os sonhadores, os alienados, os gibimaníacos, os trekies e os trekers (eu nunca soube bem qual a diferença, mas se você chamar um pelo nome do outro e o outro pelo nome do um, eles o trucidam), os darks, os delirantes, os ocultistas, os paranóicos, os desiludidos, e toda a sorte de indivíduos normais e anormais que encontram em tão superproduzida fantasia um refúgio para suas mentes doentes com a realidade, englobando dessa forma quase toda a civilização humana.

É realmente fascinante entrar na sala de projeção, com sua pipoca e seu refrigerante a postos, sentar-se em sua cadeira como se ela fosse a mais confortável já fabricada e ter toda a sua concentração focalizada em uma história completamente absurda e inverossímil, mas que mesmo assim nos faz perguntar:
- E se fosse verdade?

Mas o que eu queria não era falar sobre Matrix, seus fãs ou nosso ritual de preparação pré-projeção. Eu queria mesmo era falar de algo bem mais básico, em como pode ser penoso para qualquer cinéfilo mais ligado aos detalhes ir ver um filme aguardado pelo público em semana de estréia.

Não sou um sujeito chato ou cheio de manias. No entanto, habituei-me a freqüentar as salas de cinema em horários de baixíssimo movimento. Quanto menor for o público presente, melhor.

Alguém, ao ler isso, poderia indignar-se e pensar que não tolero a companhia humana, o que de forma alguma se traduz na realidade. O fato, triste por sinal, é que, em se tratando de assistir filmes em salas cheias, sou um dos sujeitos mais azarados que já perambularam pela face da terra.

Suponhamos que eu esteja em uma enorme sala de projeção com mais de mil e quinhentos lugares (tais teatros quase nem existem mais hoje em dia). Suponhamos também que essa sala esteja totalmente ocupada pelo público. Se, nessas condições, estiverem presentes na sala somente quatro pessoas com alto potencial de aporrinhamento geneticamente conferido, esse quatro indivíduos irão dividir-se, sem a menor sombra de dúvida, de tal forma que ocuparão as cadeiras imediatamente à minha frente, aos meus lados e às minhas costas, não importando qual cadeira eu escolha. Tal fenômeno chega a beirar a paranormalidade.

Mas não é só isso. Os azucrinantes indivíduos iriam colocar-se estrategicamente nas posições em que seus poderes de aporrinhamento tivessem maior capacidade de ação. Por exemplo, o indivíduo que não conseguisse controlar e acomodar suas pernas em uma posição fixa sentaria atrás de mim e ficaria todo o tempo chutando e empurrando minha cadeira a ponto de me fazer crer que estivéssemos dentro de um ônibus antigo em uma estrada de chão batido.

O indivíduo com sérios problemas de mau-hálito sentaria à minha direita e, como estaria gripado e com torcicolo, ficaria com a cabeça levemente para meu lado, bufando, tossindo e espirrando em minha orelha. O individuo à minha esquerda, teria vindo diretamente do trabalho e, por falta de tempo e para não perder a sessão, não teria tomado banho nem trocado a roupa que usa para limpar fossas sépticas.

E por fim, mas não menos enlouquecedor, haveria o indivíduo que se sentaria à minha frente e que teria dois metros e dezessete centímetros de altura e um problema de furúnculos nas nádegas que o faria ficar remexendo-se na cadeira durante todo o filme.

Afligido pela constante movimentação do sujeito à minha frente, nauseado com o constante sacolejo de minha cadeira proporcionado pelo sujeito atrás, tendo a atmosfera circundante apodrecida pelos vapores emanantes dos sujeitos à minha esquerda e à minha direita, eu necessitaria, depois de duas horas de projeção, ser levado às pressas ao hospital de pronto socorro.

É por tudo isso que aguardo tão ansiosamente a estréia de "Matrix Reloaded" e ao mesmo tempo apavoro-me com o que me aguarda.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:03 AM


Comments:



Segunda-feira, Maio 19, 2003

Fábulas Alucinadas

As Irmãs Do Mangue

Era uma vez três irmãs: Falange, Falanginha e Falangeta. Elas moravam em uma velha palafita em um certo mangue no litoral do Brasil.

Um dia, semi-submersa por uma enchente, sua antiga moradia desmoronou. Sem terem para onde ir, as três irmãs foram parar em um ginásio onde a prefeitura local acomodava os desabrigados.E por trinta dias e por trinta noites as irmãs do mangue permaneceram no improvisado albergue. Cansadas de terem seus últimos pertences roubados e dos abusos que sofriam de alguns aproveitadores que se alojaram por lá, resolveram tentar a sorte por elas mesmas. Partiram para reconstruir sua antiga casa, mas foram impedidas pela prefeitura, pois aquela área fora considerada de risco.

Desesperadas e sem recursos ,uniram-se a outros desvalidos da região e invadiram uma área da prefeitura próxima à represa da cidade. Lá ergueram um barraco com o que encontraram pelas redondezas. Acomodadas, dentro do possível, tentaram entrar para o programa Fome Zero procurando zerar seus sofrimentos nutricionais, mas, infelizmente, estavam fora do prazo de inscrição.

Sem perspectivas, passaram a catar latinhas de refrigerante e a vasculhar os lixões da cidade em busca de alimentos. Obtiveram um certo sucesso e, apesar das constantes necessidades e das debilitantes doenças, estavam conseguindo sobreviver.

Certo dia, quando tudo parecia seguir sua normal rotina, a polícia cercou o lote invadido. O pelotão de choque entrou, e com suas terríveis bombas de gás lacrimogêneo, com suas furiosas saraivadas de balas de borracha e com seus demolidores golpes de cassetete tentaram expulsar os indigentes que ali se incrustaram.

As três irmãs, que eram desassombradas, agarraram os primeiros tocos de madeira que conseguiram encontrar e partiram para luta contra aqueles que queriam tomar-lhes o lar.

Falange, ferida pelas balas de borracha e golpeada inúmeras vezes na cabeça, foi levada para o hospital onde ficou em coma por quatro meses. Falanginha, imobilizada por três homens da força policial, foi levada para o presídio feminino onde ficou esquecida por dois anos. Falangeta, conseguindo desvencilhar-se das autoridades, fugiu e passou a viver nas ruas da capital.

Hoje, Falange leva uma vida vegetativa em um sanatório da prefeitura. Falanginha aprendeu sobre guerrilha e narcotráfico com as outras presidiárias e, saindo da prisão, tornou-se viciada, namorada de traficante e membro de uma gangue, onde ganhou a alcunha de "Falanginha do Capeta". Falangeta, após muito penar pelas ruas, foi aliciada por cafetões e se tornou mais uma prostituta na zona do baixo meretrício.

E todas viveram felizes para sempre, segundo o departamento de pesquisa oficial.

postado por: EDMUND BONAPARTE 3:40 PM


Comments:



Domingo, Maio 18, 2003

Radiação ultravioleta. Um pouco de incidência dessas ondas eletromagnéticas em nossa pele é benéfico e, por que não dizer, necessário. O sol, como grande produtor, é nossa principal fonte desses raios.

Muitas pessoas, desejosas por um colorido mais forte e descontentes com a pouca incidência a que se vêem obrigadas a submeter seu corpo durante o inverno, utilizam-se de equipamentos modernos e de seus modernos métodos artificiais de bronzeamento. Sem desejar julgar o mérito da questão, vejo-me compelido a discutir sobre o tema.

A radiação ultravioleta (ou ultraviolenta, para os íntimos), ao ter sua energia absorvida pelas camadas da pele, provoca pequeninas lesões na estrutura desse delicado tecido. Como reação a essa agressão, nossa pele tende a se proteger produzindo mais de um pigmento denominado "melanina", o que proporciona aquele belo bronzeado que a todos enlouquece.

Como todo o lunático, fujo dessa radiação. O excesso dessas ondas, além de causar envelhecimento precoce, pode comprometer a integridade genética das células atingidas a ponto de causar doenças mais sérias.

Todas as criaturas que habitam a superfície desse planeta possuem, em maior ou menor grau, uma proteção natural contra níveis naturais de incidência. Contudo, nós, humanos, possuímos uma tendência ao exagero que, em muitos casos, levamos às últimas conseqüências. Dessa forma, acabamos por nos expor desnecessariamente a uma carga excessiva de agressão pela qual, um dia, teremos de prestar contas.

Há muitas e muitas luas (como diria o chefe Chuva-Na-Cara) nossa atmosfera era protegida por uma camada cerca de sete vezes mais espessa de ozônio do que essa que a protege atualmente. Tal diminuição deu-se gradualmente, o que possibilitou a readaptação das espécies a esse novo panorama sem maiores sobressaltos. Nas últimas décadas, até nisso a humanidade conseguiu interferir, com a diminuição abrupta, que presenciamos hoje, desse estratosférico elemento, tornando-se um risco muito grande submeter-se a esses níveis de radiação solar, mesmo resguardado pelo creme protetor (que, por melhor que seja, sempre fornece uma proteção limitada).

Por tudo isso, amo o outono e o inverno e seus dias de frio e de agasalhos grossos. E mesmo que ofusque meio mundo com minha brancura e fira outro meio mundo com minha insanidade, sempre tentarei ficar o mínimo tempo possível sob incidência solar direta, o mínimo para não ficar raquítico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:56 PM


Comments:



Sábado, Maio 17, 2003

O cosmos.

Nesse admirável firmamento todos os elementos são grandiosos. Medem-se as insondáveis distâncias em anos-luz, contam-se as inatingíveis galáxias em dezenas de bilhões, e dezenas de bilhões são as estrelas que habitam em cada uma delas. Nos bilhões perdem-se os anos de nosso universo.

De nosso pequenino planeta, errante viajante das bordas da Via-Láctea, pequeninas mentes sondam o intangível em sua ânsia por conhecimento e compreensão. E em nossa insignificância assombramo-nos diante da majestade do que vemos e tropeçamos na bizarra e ilógica situação de nossa existência.

Pensando nessas coisas, lembrei-me que tempos atrás, em uma época quando ainda existiam bons programas na televisão aberta, despontou uma das melhores séries que já assisti: Cosmos.

Um físico, Carl Sagan era seu nome, com seu jeito despojado e entusiasmo contagiante nos guiava pelas veredas da ciência moderna desde sua infância, no antigo mundo grego, até as mais modernas teorias, viajando pelo espaço-tempo, vasculhando a vida das estrelas e testando o limite do eterno.

Não sei se uma mente infantil, ao tomar conhecimento de tamanha grandiosidade, poderia sugestionar-se e, por pura inexperiência, embasbacar-se, ou se eram os temas, de fato, profundamente intrigantes. O que posso afirmar é que nunca mais vi o mundo da mesma forma depois de conhecer o tesseract.

Não somente ele, mas toda a ciência que havia por detrás dessa estranha entidade que é na realidade a projeção tridimensional de um hipercubo ou, em outras palavras, a sombra tridimensional que um cubo de quatro dimensões espaciais faria em nosso universo. Você poderia ficar completamente enlouquecido caso tentasse visualizar como seria essa quarta dimensão. Eu sei por experiência própria!

No entanto, nossa mente tridimensional vivendo nesse mundo tridimensional nunca teve que se deparar com problemas quadridimensionais, de tal forma que nossa evolução não levou em conta essa dimensão, tirando-nos qualquer possibilidade de vislumbrar tal realidade (se é que ela realmente existe). Apesar disso, o fascínio que eu sentia pelos conhecimentos que aquele senhor tão arrebatadoramente proporcionava a qualquer mortal que se dispusesse a acordar mais cedo aos domingos deixou uma marca indelével em meu espírito e incendiou todas as minhas curiosidades.

Hoje me lembrei dele e de suas lições. Uns se lembram em datas de nascimento ou morte, outros se lembram quando algum feito memorável a lembrança traz à tona. Eu me lembrei só por saudade mesmo.

postado por: EDMUND BONAPARTE 7:04 PM


Comments:



Sexta-feira, Maio 16, 2003

É interessante como a música nos fascina. Circulam bilhões de dólares todos os anos no mundo inteiro impulsionados por essa estranha obsessão.
Entre as muitas qualidades da música, dizem que ela acalma os animais. É bem possível que o sujeito que disse isso tenha sido um bom velhinho que, em paz consigo mesmo e com o mundo, adorava ouvir suaves sinfonias repletas de acordes delicados, e mergulhadas em frases de profunda harmonia.

Digo isso porque se, por exemplo, tentássemos acalmar as feras com o mais puro som do heavy metal e de suas guitarras distorcidas seriamos estraçalhados e teríamos nossos órgãos e membros pisoteados pelas bestas em fuga, imersas em auditivo desespero.

É por isso que considero a música como a expressão do que há de mais profundo em nossa psique. Os animais, em sua irracional inocência, vivem livres de crises existencialistas, de dramas psicológicos derivados do pouco autoconhecimento, de sentimentos de superioridade ou inferioridade e de todas essas coisas que fazem com que as pessoas se atirem a ouvir músicas que sejam piores do que as sensações que elas experimentam.

No entanto, muitas vezes a música somente reflete a personalidade de seu ouvinte, não importando o seu estado de humor ou suas dificuldades momentâneas. É o caso daqueles que só ouvem Mozart ou Beethoven, ou ainda aqueles que só têm ouvidos para pagode ou música sertaneja. Não importando o gênero, o essencial é que sempre se consegue compreender um pouquinho melhor nosso semelhante somente conhecendo seu estilo musical preferido.

Quanto a mim, considero-me bastante eclético, embora aprecie bastante o que se convencionou chamar de música clássica. É verdade que muitas dessas músicas são tão hediondamente maçantes que funcionam como potentes soníferos. Entretanto, algumas possuem qualidades artísticas que não se verificam com freqüência nas atuais canções.

Uma delas que mais me agrada é a Pachelbel's Canon, composta lá pelos idos de mil e setecentos pelo senhor Johann Pachelbel, seja ele quem tenha sido.

Sua estrutura simples e repetida a exaustão com pequenas variações reflete bem meu caráter obsessivo-compulsivo que encontra nessa singela melodia sua perfeita guarida.
Bem, cada louco com seu gênero musical.

************************

Ontem recebi alguns comentários e como, espantosamente, estou com tempo livre gostaria de escrever algo sobre cada um deles aqui.


Caro Aldus Resus. A imagem de vômito que colocou no seu post do dia primeiro de maio é a mais terrível imagem sobre essa disfunção digestiva que eu já vi. De qual submundo você a tirou?

Assim que eu me recuperar do trauma de relembrar a minha experiência com o Coelhinho da Páscoa, eu conto sobre meu encontro com o Papai Noel.

Cara Brid@. Achei incrivelmente interessante você ter a Maga Patalógica como chefe. Não será somente essa a causa de sua indisposição profissional? Para mim certamente seria.

E, sim, às vezes todo mundo tem vontade de atirar um concidadão pela janela.

Caro Mow. Não sei explicar o porquê, mas todas as teorias que você troxe à luz em seu blog parecem-me perfeitamente plausíveis. Todas, sem exceção!

Poderiam com isso dizer que somos malucos, mas não diriam nenhuma novidade. E quanto aos extraterrestres, caso você sinta que está perdendo o restinho de sua sanidade e não queira mais manter contato, misture o conteúdo de três latas de inseticida, duas de desodorizador ambiental e uma de fluido de freio, e pulverize em toda a sua residência. Nem extraterrestres irão visitá-lo por um bom tempo. Nem por pensamento.

Cara lillyzinha. Fiquei muito pensativo sobre aquela história da depilação que você tão profundamente arrancou de sua mente. Sensibilizou-me sobremodo esse sofrimento que aparentemente é incentivado por nós homens. É um tema intrigante. Gostei do seu jeito alucinado de ver as coisas.
Quanto aos Achados-e-Perdidos, sempre achei que deveriam chamar-se Perdidos-e-Achados. Mas tudo bem, deve ser só mais uma conspiração.

Cara Jessica. Para tentar redimir-me, um pouquinho pelo menos, de minha ausência bloguistica com tão fiel leitora, quero dizer-lhe que estou fazendo aquelas visitas que gostaria de ter feito antes. Gostei muito do seu "momento escola", embora tenha viajado naqueles cálculos. Quanto à foto que você e a Lillyzinha pediram, vou pensar no caso (pensar profundamente). O e-mail e outras facilidades comunicativas eu quero fornecer quando eu der uma ajeitadinha no meu template, o que espero que seja em breve.


Cara Giii. É bem possível que seja verdade o que você comentou sobre a fila indiana. Talvez seja só uma vontade reprimida de estar em grupo e sozinho ao mesmo tempo. Mas ter a bordinha de nosso tênis pisada só não é pior do que tê-lo completamente arrancado do nosso pé quando nos pisam por trás. Sempre que isso acontece a fila começa a fluir em uma velocidade inacreditável e nós somos obrigados a sair pulando feito cangurus, já notou? Quanto ao seu post do dia seis, não se preocupe, estou certo que irão sempre aceitá-la como você é. Nem que seja somente para evitar represálias.

Caro Coronel Mostarda. Ainda não decifrei o seu código (se é que não seja somente loucura mesmo).

Caro eu. Espero que não seja somente minha projeção subconsciente. Caso não seja, obrigado pelos conselhos.

Caro M16. Espero que o texto de hoje tenha sido esclarecedor. Fico contente por nós dois sermos normais. Nunca tive dúvidas sobre isso.
Quanto à velhice que você, no post de ontem, diz estar chegando, não se preocupe, com o tempo você se acostuma (ou morre tentando).

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:04 PM


Comments:



Quinta-feira, Maio 15, 2003

Hoje este blog completa um mês de vida (sim, os blogs também são seres vivos). Durante esse tempo, ele diligentemente expôs minhas alucinações de tal forma e enlouqueceu aqueles que o visitaram a tal ponto que muitos passaram até a gostar dele e a visitá-lo regularmente, e, apesar de lamentar pelas vossas sanidades perdidas, agradeço a todos por isso.

Devido ao constante acúmulo de material, um estranho fenômeno ocorrerá a partir de hoje. Todos os meus enlouquecidos textos e vossos alucinados comentários com mais de um mês de publicação serão transportados para uma bizarra dimensão denominada "arquivos", de onde talvez nunca mais retornem. Quem sabe algum bravo navegante, sequioso por redescobrir o passado, penetre nessa perdida região e os resgate, ao menos por alguns minutos.

Mas devemos sempre olhar para frente (até mesmo para que não tropiquemos por aí), e consciente de que devemos nos renovar a cada dia gostaria de convidá-los a fazer algo diferente.

Como todo o lunático, sou um indivíduo muito ocupado com minhas tarefas, imaginárias ou não, portanto, quase nunca pude dispor a atenção que gostaria para aqueles que aqui visitam. Como nos próximos dias terei mais tempo disponível, pretendo utilizá-lo na compensação, ao menos parcial, dessa tão terrível falha.

Gostaria de reservar o dia de hoje para seus comentários, para aqueles que desejarem escrever sobre um assunto que gostariam de ler nesse blog, para falarem sobre o que mais gostaram ou menos gostaram, para aqueles que querem deixar alguma dica para melhorar esse recanto da insanidade, enfim, para que falem sobre qualquer insanidade que assola vossas mentes. Todos serão lidos e respondidos em ordem de aparecimento (como todo o lunático, eu adoro uma fila indiana).

Alucinadas saudações,

Edmund.

postado por: EDMUND BONAPARTE 8:52 AM


Comments:



Quarta-feira, Maio 14, 2003


Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo VI.

A Aula De Natação

Já estava no meio de minha média infância* quando minha mãe resolveu inscrever-me em um curso de natação de um clube perto de nossa casa. Bastante contrariado, fui.
Nunca compartilhei o entusiasmo pelos esportes que meus pais aparentavam possuir. Preferia muito mais brincar com meus soldadinhos de plástico, ficar desenhado no chão da sala, olhar os fantásticos desenhos animados (pelo menos eu os considerava fantásticos) que passavam na televisão, assistir aos filmes das décadas de 40 e 50 que iniciavam entre às quatro e cinco horas da manhã de domingo, entre tantas outras atividades maravilhosas que somente os anos de inocência poderiam proporcionar. Mas, definitivamente, natação não era uma delas.

De arrasto, fui levado então para minha primeira aula. Logo de cara aprendi a flutuar, embora com um deslocamento de 180° em relação à posição ideal, conforme a imagem à esquerda. Mas a persistência e a coragem sempre me acompanharam, e depois de noventa e oito aulas já havia feito notáveis progressos, como se pode ver na imagem à direita.

Analisando superficialmente as imagens alguém poderia supor que não houve progresso algum. No entanto, levado somente pelas aparências, esse alguém estaria cometendo um erro titânico em sua conclusão.
Durante minhas primeiras aulas eu não agüentava mais do que quinze segundos submerso na posição que eu orgulhosamente denominei de "Mergulho do Martim Pescador" (que, por motivos ainda não compreendidos, não fez muito sucesso). Já em minha nonagésima oitava aula, eu não só conseguia suportar facilmente toda a água que entrava por minhas narinas e inundava minhas fossas nasais, como conseguia permanecer dois minutos e quarenta e três segundos naquela posição antes de perder os sentidos.

Depois de tamanhas provas de meu valor como atleta e batedor de recordes, minha mãe não teve alternativa senão retirar-me daquele curso que já não me proporcionava desafios à altura. Feliz e satisfeito com os resultados de meus esforços natatórios, retornei às ferozes batalhas entre os soldadinhos de plástico e os bonequinhos Playmobil (que quase sempre acabavam devorados por um dinossauro).


*Divido minha infância em baixa (0-3 anos), média (4-7 anos), alta (8-11 anos) e altíssima (12 anos em diante), para fins de enquadramento histórico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:03 AM


Comments:



Terça-feira, Maio 13, 2003




Hoje estava folheando algumas revistas e acabei deparando-me com uma antiga ilustração de um comercial de salsicha. Parecia realmente deliciosa aquela salsicha, colorida e enfeitada por linhas onduladas de mostarda e ketchup. Tudo em um ambiente altamente higienizado e apresentado por modelos de saúde e aparência impecáveis.

Entretanto, ao recordar minhas experiências neste planeta, não posso ignorar o fato de que nem tudo é o que parece ser. A bem da verdade, quase nada o é.

Digo isso porque a salsicha, dependendo de sua procedência, pode conter absolutamente de tudo em sua composição, sem que isso altere seu gosto ou sua aparência. Ela poderia conter até plutônio e urânio enriquecido, caso isso a tornasse mais barata (coisa que, para nossa felicidade e de nossos genes, não ocorre). Todavia, existe uma gama quase infinita de materiais (abomináveis em sua maioria) que podem ser adicionados à sua fórmula e que a tornam mais econômica e lucrativa para seus fabricantes, isso sem falar nos nitritos, nitratos e em outras substâncias altamente questionáveis utilizadas em sua conservação.

A lista de elementos aproveitáveis iria de matérias sem valor nutritivo, como celulose, até animais domésticos, como cães e gatos.
Pensando nisso, uma estatística que ouvi algum tempo atrás retornou ao meu consciente. Soube que, só no Brasil, cerca de cinco mil pessoas desaparecem todos os anos. Seriam mais de duzentas mil criaturas humanas a sumir da face da terra sem deixar vestígios. Parte desses desaparecidos é composta de pessoas que fugiram de seus lares e resolveram desvanecer-se por livre e espontânea vontade. Muitas teorias existem para explicar os casos restantes, que iriam desde conspirações governamentais a abduções alienígenas.

Minha teoria é bem mais simples. Eu acho que essas pessoas simplesmente viram salsicha.
É lógico. Qual outra fonte de proteínas seria tão abundante, barata e levantaria menos suspeita, caso desaparecesse, do que seres humanos?

Se resolvessem utilizar somente os animais que vagam pelas nossas cidades e matas, veriam que a oferta é pequena e de difícil captura, mas se, ao invés disso, resolvessem roubar gado ou outros animais domésticos, esses fabricantes inescrupulosos em pouco tempo teriam todos as forças da lei e da justiça em seus calcanhares.

Conscientes de que a vida humana e seu bem estar não possui muito valor perante os olhos da justiça e dos órgãos responsáveis pela sua promoção (a não ser no papel ou em relação aos indivíduos em destaque na sociedade), e sabendo que a quantidade de matéria prima disponível é imensa, fica claro que humanos seriam uma fonte de excelentes lucros.

Portanto, ao comer aquele cachorro-quente que tanto lhe enche de felicidade, lembre-se que você pode estar devorando seu semelhante.

Caso você tenha um estômago de aço e não lhe seja possível viver sem esse tipo de lanche, tente imaginar que o indivíduo embutido ali naquela salsicha seja alguém como Saddam Hussein, ou outro genocida que lhe agrade mais ao paladar.

postado por: EDMUND BONAPARTE 7:45 AM


Comments:



Segunda-feira, Maio 12, 2003


Hoje assisti ao X-Men 2. Excelente filme. Muita ação, efeitos especiais muito bons, e o melhor de tudo, um roteiro consistente. Parece-me que o diretor estava ainda mais inspirado do que quando fez o primeiro filme.

No entanto, uma questão acompanhou-me por quase toda a projeção. Que tão espetacular classe de mutações poderia ser aquela a ponto de proporcionar esses magnificentes poderes aos pupilos do Doutor Xavier?
Deve-se concordar que disparar raios dos olhos não é tarefa para qualquer um, e que se tele-transportar não é um comportamento que poderíamos esperar de um indivíduo terreno, por mais mutado que ele fosse. Isso sem mencionar atravessar paredes, ter seu corpo revestido com um exoesqueleto metálico, sugar a energia vital alheia, e assim por diante.

Uma mutação, na realidade, é algo bastante estranho e normalmente sem muito charme ou glamour. Acredito que se eu, você, e qualquer outro habitante humano desse planeta sofrêssemos mutações tão radicais assim, o máximo que conseguiríamos obter seria um dedo extra em cada mão (o que viria a calhar, caso fôssemos pianistas), ou talvez glândulas sebáceas superdesenvolvidas que produzissem quarenta vezes mais sebo do que uma glândula normal, ou uma mucosa nasal que produzisse quantidades enormes de muco, ou ainda uma axila tão medonhamente propensa a produzir odores que poderia paralisar qualquer criatura com fossas nasais em um raio de duzentos metros. Essas mutações iriam parecer-me bem mais plausíveis. Admito que o maior problema seria como enquadrar essas pessoas em algum tipo de liga de super-heróis.

Mas digamos que você seja um indivíduo inconformado, que não aceite as coisas como elas são somente porque aparentam ser mais lógicas dessa maneira. Suponhamos que, sim, existam mutações capazes de reproduzir os poderes dos super-heróis dos gibis. Nesse caso, talvez tenhamos que mudar nossa percepção da realidade. Talvez tenhamos que supor que vivemos em um mundo como o de Matrix, onde pessoas com poderes altamente bizarros são uma possibilidade, já que as mutações permitiriam que você alterasse a própria forma da realidade aparente, que seria nada mais que um programa de computador, enquanto o seu corpo estaria lá, normal, deitado dentro de um tanque cheio de meleca repugnante.

Bem, por hoje chega de mutações e poderes bizarros. Vou parando por aqui porque tenho algumas mensagens telepáticas para enviar.

postado por: EDMUND BONAPARTE 4:53 AM


Comments:



Domingo, Maio 11, 2003

Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo V.

A Ameaça Exterior

Durante parte de minha baixa e média infância*, eu nutri um alto grau de temor por pessoas desconhecidas. Tal receio colocava-me na posição de indivíduo anti-social ou, como se diz popularmente, bicho-do-mato.
Lembro-me que quando me aconselhavam sobre não me aproximar de estranhos e todas aquelas outras regras de segurança infantil, logo pensava:
- Por que raios eles acham que eu pretendo aproximar-me deles?

Para mim era o mesmo que dizer para que eu não me atirasse debaixo de um carro, ou que não pulasse do telhado em cima de uma pilha de cacos de vidro.Embora esse posicionamento pessoal colocasse meus pais, vez por outra, em situações embaraçosas, eu possuía minhas razões. Eu já havia adquirido um certo grau de consciência, o que possibilitava reconhecer-me como indivíduo, com pensamentos e desejos independentes. No entanto, ao observar as pessoas, não conseguia reconhecer nelas tais características, não sabia absolutamente nada sobre elas, não sabia o que se passava em suas mentes, como eram suas filosofias de vida, se eram boas ou más. Quanto à minha família, ela já havia dado provas de suas pacíficas intenções, e não havia porque duvidar de sua benevolência depois de tanto tempo.Mas o mundo exterior, esse sim, apavorava-me. Uma multidão de rostos, todos iguais para mim, que não deixavam transparecer seus pensamentos, a ponto de me fazer duvidar que existiam.

Certa vez caminhava com minha mãe quando, por um motivo que não me recordo, separei-me alguns metros dela. Ao ver que ela não se encontrava perto de mim, o horror tomou conta de meu ser. Horror que se amplificou quando uma senhora, tentando ajudar, segurou-me e perguntou se eu estava perdido.
- Agora é que eu estou! Pensei com meus botões.

Bastara um segundo de desatenção minha e de minha mãe para que as hordas me capturassem. Meu destino estava selado. A que terríveis atrocidades iriam submeter-me aqueles seres?
Enquanto eu ainda estava ocupado apavorando-me, minha mãe aproximou-se, segurou-me e disse:
- Segura a minha mão e não solta!

Estava salvo! Havia recebido uma segunda chance, e não a desperdiçaria novamente.

Continuei então com minha rotina xenofóbica exacerbada até entrar na pré-escola, aos cinco anos, quando então, devido ao convívio diário, comecei a entender as pessoas e a vê-las como iguais. E embora ainda não soubesse por onde vagavam seus pensamentos, descobri que os meus provavelmente também trilharam ou trilhariam os mesmos caminhos, e que a única diferença entre nós seria aquela que desejássemos impor. Essa nova perspectiva ampliou minha visão do mundo como nunca poderia ter imaginado. Lamentei ter levado tanto tempo para acordar.


Pensando nisso, veio-me à mente uma reflexão sobre esse tema. Já notaram que todos temos receio do que não é igual a nós? Que somos levados a crer que tudo o que é externo é a mesma coisa, e não conseguimos ver suas verdadeiras características? Que outras culturas e outras formas de pensamento são ameaçadoras porque são diferentes das nossas?
Qual outra razão haveria para tanta intolerância? Por qual outra razão as nações atacariam umas as outras ou, no mínimo, manteriam estoques de armas de destruição global senão por medo do que não lhes é familiar?

Se não fosse assim, se não víssemos tudo o que é externo como uma misteriosa massa uniforme de ameaça, por que, mesmo morando em um mundo com mais de 200 idiomas e dialetos distintos, com pessoas dos mais diversos tipos físicos, das mais diversas cores e credos, sempre que vemos filmes de ficção científica, os extraterrestres invariavelmente falam uma só língua, vestem-se todos da mesma forma, são todos fisicamente iguais e, via de regra, são terrivelmente ameaçadores? A ficção está aí para espelhar a realidade.


*Divido minha infância em baixa (0-3 anos), média (4-7 anos), alta (8-11 anos) e altíssima (12 anos em diante), para fins de enquadramento histórico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 6:15 AM


Comments:



Sábado, Maio 10, 2003

Como todo lunático, tenho obsessão por banheiros. Quando estou em casa procuro deixar o meu banheiro tão acolhedor e relaxante quanto possível. Isso é profundamente importante para manter minha insanidade em níveis toleráveis. Acredito que todos nós partilhamos em maior ou menor grau desse tipo de preocupação. Ou não.

No entanto, quando não se está em casa, nem sempre é possível dispor de um banheiro que satisfaça nossas mais básicas necessidades de maneira satisfatória. Não que eu seja superexigente ou algo assim, mas é que algumas vezes a qualidade do serviço oferecido é tão duvidosa que você pensa duas ou mais vezes antes de utilizá-lo.

Algumas vezes o problema é a higiene. Certos banheiros deveriam ser fechados pela saúde pública, ou pelo menos conter uma plaqueta com os dizeres: impróprio para uso humano (felizmente não tenho deparado-me com esse tipo de banheiro nos últimos tempos).

Outras vezes o problema do banheiro é de origem filosófica, e é com esse tipo que tenho revoltado-me freqüentemente. Algumas mentes brilhantes não contentes com o nível de sofrimento atual resolveram ampliá-lo. E concentraram seus esforços na porta do cubículo da privada.

Como se não bastasse a altura dessa porta, que é a menor possível antes de deixar seu infeliz usuário completamente à vista, resolveram fazer um primeiro upgrade. Elas tornaram-se então bizarras, já que não fecham, pois muitas não possuem tranca, e aquelas que possuem ou estão emperradas ou não possuem seu respectivo furo no marco. Para piorar, elas são meticulosamente projetadas com uma pequena inclinação para dentro do cubículo, de forma que se você não desejar ter sua intimidade exposta ao público você precisa ficar com o pé ou a mão empurrando para fora a desprezível cobertura. Tudo isso tornou o ato da evacuação extra-residêncial uma atividade que exige bom preparo físico e flexibilidade.

Entretanto, o mal é mais criativo do que parece. Quando todos diziam que não havia mais o que piorar, as mesmas mentes brilhantes saltaram em defesa de seus ideais de contínuo aperfeiçoamento do sofrimento humano e fizeram o segundo upgrade, que tomou a todos de surpresa.

Não tendo mais o que diminuir verticalmente da porta, resolveram tirar horizontalmente. Agora, as novas portas, além de não fecharem, de serem inclinadas e de serem curtas, possuem, em ambos os lados, fendas de um centímetro e meio cada uma, o que torna completamente inútil qualquer tentativa de obter um mínimo de privacidade nesses cubículos, atirando os indivíduos na agonia e enchendo-os de frustração. De tão pequena, poderia muito bem ser usada como a porta da casinha da Barbie. Tudo isso envolto em mármore e torneiras douradas, para que, ao olhar o luxo aparente, ninguém possa acusá-los de insensibilidade.

Toda essa vilania que descrevi foi somente em relação às portas. Nem me atrevi a falar na qualidade do papel higiênico (quando existe) que, de tão fino, você sempre... acaba que... invariavelmente você... bem, você entendeu.

postado por: EDMUND BONAPARTE 3:01 AM


Comments:



Sexta-feira, Maio 09, 2003

Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo IV.

O Enigma Do Ônibus

Certo dia, no final de minha baixa infância*, eu e meu pai voltávamos para casa conduzidos por um veículo do transporte público municipal quando em minha mente uma dúvida perturbadora despontou:
- De que forma pode o motorista saber para onde vai mergulhado nessa imensidão de ruas e avenidas?

Na época, as ruas e avenidas de minha cidade pareciam fazer parte de um labirinto infernal, sempre à espreita de um aventureiro descuidado para tragar e consumir em suas entranhas. Poucas quadras distante de minha casa eu já me encontraria totalmente perdido. Assombrava-me a tal ponto a capacidade do indivíduo condutor do veículo de distinguir uma rua de outra que não podia acreditar na inexistência de um artifício que o auxiliasse.

Perguntei a meu pai como se explicava tal maravilha, e ele respondeu:
- Eles têm um itinerário!

Meu pai sempre foi conciso em suas respostas. Infelizmente a palavra itinerário não fazia parte do meu vocabulário, nem mesmo a palavra vocabulário fazia parte do meu vocabulário. Fiz uma cara de profunda perplexidade ao ouvir sua resposta e recebi então uma complementação:
- Eles seguem uma linha!

Era isso! Uma linha! Tudo havia sido esclarecido. Era evidente que o motorista jamais se perderia. Bastaria somente seguir a linha!
Mas então outras questões invadiram minha mente:
- Do que eram feitas essas linhas? Quem as esticara rua a fora? Cada ônibus seguia sua própria linha? Como eles faziam para cruzar as ruas sem se enrolarem um na linha do outro?
Essas dúvidas saltitavam alegremente zombando de minha falta de saber.

Era noite e a escuridão tornava o enigma ainda mais enigmático. Seguir uma linha nessa escuridão toda. Como era possível? Grudei-me à janela do coletivo e passei a observar atentamente o lado externo à procura de algum indício que apontasse a solução desse mistério. Nada encontrei. Levantei-me de meu assento e dirigi-me à frente do ônibus tentando obter uma visão da rua semelhante à do motorista, na esperança de entender o complexo estratagema que o guiava. Ao chegar, imediatamente decifrei a charada: as linhas estavam desenhadas no chão!

O asfalto estava coberto das tais linhas. Contínuas, tracejadas, duplas contínuas, tracejadas de um lado e contínuas do outro, umas eram brancas outras amarelas. Havia uma população de sinais pintados no chão, todos, obviamente, fazendo parte de um intrincado código que somente os motoristas de ônibus conheciam e que os impedia de se perderem naquela vastidão.

A tranqüilidade tomou meu ser. Havia ordem na natureza e todos os seus elementos operavam em harmonia. Então, quando a paz reinava em meu espírito, o motorista desviou e passou a circular por ruas sem as linhas pintadas em um frenesi incontrolável de guinadas à direita e guinadas à esquerda. Ficou nessa loucura por vários minutos até que chegamos em casa.

Minha tão perfeita teoria havia ido por água abaixo. Desesperado e sem uma explicação que acalmasse minhas lancinantes dúvidas, vi-me obrigado a aderir ao único esclarecimento possível: mágica!
Sim, os motoristas eram criaturas dotadas de fabulosos poderes mágicos. Poderes que lhes deferiam um incrível senso de localização espacial e que permitia sua locomoção por qualquer lugar, por mais distante e intrincado que fosse.

O deslumbramento que aqueles feitos maravilhosos me proporcionaram ficou tão marcado em minha imaginação infantil que coloquei os motoristas de ônibus entre meus super-heróis preferidos, ao lado do Ultraseven e do Robô-Gigante.


*Divido minha infância em baixa (0-3 anos), média (4-7 anos) e alta (8-11 anos), para fins de enquadramento histórico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 3:27 AM


Comments:



Quinta-feira, Maio 08, 2003


Hoje, ao passar no supermercado, comprei algumas latas de sardinha, pois possuo imensa afinidade gástrica com elas (com as sardinhas, não com as latas). Ao chegar em casa e abrir uma delas, pude constatar que havia um espaço abundantemente grande lá dentro, sendo que esse espaço estava mal e parcamente preenchido por sardinhas.

Lembro-me bem que outrora tais recipientes eram de uma densidade populacional tão alta que fariam Tókio parecer um campo de golfe em dia de chuva. No entanto, agora era quase possível ver os prateados peixinhos nadando livremente no óleo comestível. A expressão "lata de sardinha" havia mudado diametralmente de sentido. Não se poderia mais dizer que isso ou aquilo era apertado como uma lata de sardinha, ao contrário, todos iriam querer que suas casas, automóveis e outros bens fossem como latas de sardinha, bem espaçosos.

Não acreditei em meus olhos. Aquilo só poderia ser uma alucinação. Mas não era possível, eu havia tomado minha medicação. Abri outra lata, e outra, e outra, e outra. Todas iguais. Algo profundamente estranho estava acontecendo. Formulei várias teorias para tentar explicar o fenômeno do espaçamento intersardinhal e cheguei à única conclusão racional possível: era tudo conseqüência da expansão do universo!

Todavia, no relato do dia dezesseis de abril, comentei sobre a incontestável prova do encolhimento do universo. A trama se complicava. Aparentemente, as teorias se contradiziam. Estaria o universo encolhendo a uma taxa assustadora, ou estaria nosso cosmos expandindo suas fronteiras incessantemente? Meditei algum tempo sobre o assunto e entre uma sardinha e outra (eu tinha aberto 5 latas) formulei meu novo modelo cósmico.O universo estaria, sim, expandindo-se. E ao mesmo tempo estaria contraindo-se.

Era óbvio. Somente um universo com zonas de expansão e contração agindo simultaneamente no espaço-tempo explicaria as estranhas aberrações espaciais que eu presenciava. Visivelmente, a contração e a expansão do universo estavam restritas a algumas áreas, como cinemas e fábricas de sardinha em lata, e ainda assim em pequena escala.

Todavia, se minha teoria estiver correta, estriamos correndo um sério risco pessoal caso a tendência se concretizasse e iniciasse o aparecimento de áreas maiores e com taxas de encolhimento ou expansão de maior significância.

Imagine-se dormindo tranqüilamente em sua cama tendo sua cabeça dentro de uma zona de expansão e o resto de seu corpo em uma zona de encolhimento. Ao acordar pela manhã, você tentaria levantar e subitamente sua gigantesca cabeça cairia no chão enquanto seu psicodélico corpinho seria balançado pelos ares feito um João-Bobo às avessas. Ou pior, mergulhado no desespero e tentando equilibrar-se em suas insignificantes perninhas, você sairia correndo de seu quarto e ficaria com a cabeça entravada nos marcos da porta, somente conseguindo libertar-se após um pedreiro vir e quebrar a parede.

Tal futuro pareceria tenebroso mesmo àqueles com nervos de aço, e deixaria enjoado até àqueles de estômago forte.
Falando em estômago, acho que esse monte de sardinhas que devorei não me fez muito bem. Com licença...

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:04 AM


Comments:



Quarta-feira, Maio 07, 2003


Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo III.

O Ninho De Mafagafos


"Num ninho de mafagafos, cinco mafagafinhos há. Quem os desmafagafizer, bom desmafagafizador será!".

Durante a minha baixa infância* ouvi esse trava-língua inúmeras vezes das mais diversas fontes. Dessa forma, desde cedo nutri um irresistível desejo de um bom desmafagafizador ser.

No entanto, antes de sê-lo eu precisaria dominar a arte da desmafagafização, tarefa que seria impossível se, antes de tudo, eu não soubesse o que raios eram os mafagafos.

Embora nunca tivesse ouvido uma boa resposta para essa questão, eu não estava disposto a aceitar a escapista desculpa de que eles não existiam. Eu já havia topado com outras criaturas ditas "inexistentes", como o Coelhinho da Páscoa (post do dia 19) e o Papai Noel, e sabia que eram reais (podiam não ser exatamente o que diziam ser, mas eram reais).

Partindo desse pressuposto, vasculhei toda a literatura disponível em minha casa atrás de pistas da exótica criatura. Tudo em vão, pois além de ser analfabeto e depender de gravuras como referência, não havia muitas figuras de animais exóticos com as quais trabalhar. Aquelas que encontrei não passaram pelo crivo das análises minuciosas que pedi aos meus pais.

Não havia alternativa senão sair sozinho em busca do misterioso ente mundo afora (mundo que englobava tudo em um raio de cem metros da minha casa). Como eu não sabia se os mafagafos eram répteis, anfíbios, moluscos, aves, ou outra classe de criatura, e como não fazia a mínima idéia do que eram répteis, anfíbios ou moluscos, presumi inocentemente que eram aves.

Não houve árvore nas redondezas que não tivesse sido alvo de minha curiosidade científica. Vasculhei cada centímetro quadrado do território, mas nunca os encontrei, apesar de minha frenética busca.

Ficou-me claro então, depois de meu fracasso, porque desmafagafizar esses animais era tarefa tão ilustre que daria o título de bom desmafagafizador ao seu realizador. A resposta é que ninguém podia fazê-lo! Não havia criatura humana que soubesse onde encontrá-los para então desmafagafizá-los. Compreendi que a busca pelos mafagafos estava para a zoologia, assim como a busca pelo Santo Graal estava para a arqueologia.

Mas eu ainda acredito que os mafagafos estão por aí, escondidos dos olhos do homem moderno. Pode ser que sintam medo de nossa espécie e se afastem (atitude que eu definiria como sinal de inteligência) ou simplesmente morem em algum lugar inacessível. Talvez até morem onde moram os unicórnios, quem sabe.



*Divido minha infância em baixa (0-3 anos), média (4-7 anos) e alta (8-11 anos), para fins de enquadramento histórico.

postado por: EDMUND BONAPARTE 1:35 AM


Comments:



Terça-feira, Maio 06, 2003

Hoje, por um encontro anormal de situações opressoras, quase não consegui escrever esse diário, fato que me deixou absolutamente aterrorizado. Tentarei explicar a razão de meus receios...

Antes de começar a escrever esse blog, eu vivia com mil pensamentos coexistindo no mesmo espaço, todos lutando entre si por um lugar ao sol, e eu em meio a um fogo cruzado. Algumas vezes parecia que minha cabeça iria estourar com tantas coisas exigindo ser pensadas ao mesmo instante.

Certo dia uma amiga disse:
- Mundi (é assim que ela me chama e eu, cavalheirescamente, permito), você tem que disciplinar seus pensamentos! Você precisa colocar essas coisas que estão na sua cabeça para o papel!
Pois bem, coloquei. Comecei a escrever meu blog e os meus pensamentos começaram a tomar forma - não sei dizer qual, mas tomaram. O problema é que o cérebro funciona como um músculo, quanto mais o exercitamos, mais exercício exige.

Resultado: antes parecia que a minha cabeça iria estourar se eu não pensasse. Hoje, eu tenho certeza que ela irá estourar se eu não escrever, não importando o que for. Eu não tenho escolha!
Meu temor é um dia, por um motivo qualquer, eu não poder sentar ao computador para escrever esse diário e então, estirada por uma pressão literária insuportável, minha cabeça vá pelos ares!

Sim, temo ser encontrado acefalamente atirado em algum canto por aí. E se hoje sou teimoso como uma mula, temo ser rebaixado para a folclórica posição de mula sem cabeça.

Tornei-me um prisioneiro da reflexão, um escravo da ponderação, um Judah Ben-Hur do pensamento analítico, acorrentado a uma galé de cogitações, remando em um mar de idéias abstratas.

Só uma mente insana encontraria algum deleite nessa situação. Inexplicavelmente, sinto-me bem.



Amanhã, o terceiro capítulo de minha epopéia alucinada (se a bolsa e o dólar se comportarem direitinho).

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:10 AM


Comments:



Segunda-feira, Maio 05, 2003



Como todo lunático, cultivo, desde garoto, uma relação muito íntima com a Lua. Seu brilho, suas fases, seu encanto noturno, tudo isso fazia com que eu passasse horas observando sua bela figura.
Com o tempo fomos ficando muito ligados e conversávamos sobre muitos assuntos quase diariamente (sim a Lua fala, e fala bastante). Depois de alguns meses, senti que nascera algo diferente entre nós. Não podíamos mais viver longe um do outro.

Sim, havíamos nos apaixonado e nossa paixão tomara proporções cósmicas.

Infelizmente, sabíamos que era impossível existir entre nós algo maior do que uma paixão platônica (já imaginou o preço da passagem que eu teria que pagar para ir visitá-la?). Essa limitação sideral nos arrasou.
Certo dia, vendo que eu caminhava cabisbaixo pelas ruas lamentando minha triste sorte, ela me chamou e recitou um poeminha que havia feito para mim. Ela disse que era coisa simples, mas verdadeira. Transcrevo-o tal qual me recordo:

Amor de Lua

Do alto contemplo seu vagar
Quando minha palidez a noite quebra.
Não duvides que te amarei,
Irei mostrar-te sempre a mesma face.
E mesmo se meu nome esqueceres,
E uma letra então trocares,
Ainda assim meu amor revelarei:

Quando perdido,
Serei LuZ;
Quando andares,
Serei Rua;
Quando olhares,
Serei Nua;
Quando amares,
Serei Tua.


Hoje olho para aqueles dias de minha adolescência, e com alegria recordo os preciosos momentos que tivemos. E, embora não exista mais a paixão, ainda sinto uma nostálgica alegria cada vez que vejo o seu luar. Sei que ela ainda guarda boas lembranças também.

Fiquei sabendo que atualmente ela anda de cacho com a Estação Espacial Internacional, mas eu não sei, pode ser só fofoca.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:05 AM


Comments:



Domingo, Maio 04, 2003


Estava eu preparando um trabalho no computador quando notei que se iniciava uma tempestade como há muito eu não observava.
A chuva era de tal forma violenta e o alagamento decorrente da imensidão de água precipitante tão significativo, que eu poderia afirmar ter visto um grupo de golfinhos fazendo acrobacias em uma avenida aqui perto, caso eu tivesse tomado os meus antialucinógenos. O show pirotécnico proporcionado pela tempestade elétrica somente poderia ser comparado ao de um show do Kiss em pleno reveillon no Rio.

Consciente da existência do "Campo de Murphy" (descrito no post do dia 17) e sabendo que em dias assim o pior pode acontecer, dirigi-me à caixa de fusíveis e desliguei o disjuntor geral de minha residência.
Essa atitude mostrou-se de uma sabedoria paranormal. Poucos instantes depois, uma descarga elétrica atmosférica de alta intensidade irrompeu por entre os cabos de energia dos postes de transmissão destruindo o transformador de nossa rua e reduzindo a cinzas os circuitos eletrônicos de um número expressivo de equipamentos em casas na vizinhança do catastrófico evento.

Considerando que os estragos foram maiores quanto maior era a proximidade das casas ao transformador e considerando que o referido transformador localizava-se em frente à minha residência, posso supor, com relativa certeza, que, caso eu ainda estivesse utilizando o computador no momento do acontecimento, provavelmente estaríamos, eu e meu computatório dispositivo, completamente torrados e em alguma região do espaço, orbitando a Terra.

Conclusão: o pessimista pode até não se divertir tanto, mas é sempre ele quem sobra para contar a história.


Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo II.

O Amanhecer De Uma Consciência

Nasci ignorante. E minha ignorância era tão profunda que eu a ignorava completamente. Tamanha ausência de conhecimento certamente afetou minha percepção do universo a ponto de extinguir as lembranças dos primeiros meses de minha existência extra-uterina.

Aí residia um problema. Como descrever a minha tenra infância se de nada, ou quase nada, recordava até meus dois anos de idade? A única alternativa que me restava era a aplicação de uma técnica conhecida como hipnose de regressão (ou coisa que o valha). Visto que uma sessão iria custar-me os olhos da cara, decidi eu mesmo me hipnotizar.

Concentrei-me profundamente, e em um silêncio absoluto apliquei em mim os procedimentos que eu havia lido no "Guia Prático do Hipnotizador Amador". Em poucos minutos passei a acessar os registros mnemônicos referentes aos meses subseqüentes ao meu nascimento e a revivê-los.

A bem da verdade, não havia muita coisa por lá. Aparentemente minha rotina era gastar a maior parte do meu tempo dormindo e lutando contra algo estranho que me incomodava de tempos em tempos. Essa estranha aflição fazia com que eu chorasse copiosamente, e por alguma surpreendente razão, ao iniciar meu choro, uma fantástica criatura gigante se aproximava e miraculosamente sanava meu males. Hoje sei que o a desconforto era só fome e que a entidade gigante era a minha mãe alimentando-me. Mesmo assim pareceu-me bastante incrível.

Tal associação entre meu choro e a vinda da bondosa criatura despertou, pela primeira vez, meus instintos investigativos. Comecei então a chorar quando não estava com fome, só para certificar-me de que existia relação entre os eventos.

Ao constatar que eram causa e conseqüência, uma imensa emoção tomou conta de meu pequeno ser. Passei a chorar com uma freqüência cada vez maior, na esperança de repetir os mesmos resultados. E continuei chorando assim por muito tempo. Até minha mãe, depois de alguns meses, começou a me acompanhar na choramingante melodia. Bons tempos aqueles.

Por fim, enjoei da brincadeira e decidi parar de chorar. Recordo-me que meus pais ficaram desesperadamente felizes com a minha decisão também.
E assim transcorreram, em linhas gerais, meus primeiros meses de vida.

A minha regressão havia sido um sucesso total... ou quase.
Constatei um pequeno problema na minha auto-hipnose. Como não havia ninguém para retirar-me de meu hipnótico torpor, fiquei preso numa sucessão de eventos passados até que um fator externo (o telefone) conseguiu distrair-me de meu mundo interior.

Quando, dezessete horas depois, despertei de meu sono hipnótico, percebi que me encontrava deitado no tapete da sala, completamente borrado. E o pior de tudo, e para meu profundo desespero, chupando o dedão do pé.

postado por: EDMUND BONAPARTE 1:06 AM


Comments:



Sábado, Maio 03, 2003

Edmund: A História De Um Lunático, Capítulo I.

O Nascimento

Certo dia eu nasci. Tão memorável evento não me consta na memória, embora relatos de testemunhas da época confirmem a versão. Vejo-me obrigado a crer na veracidade das histórias, caso contrário haveria uma enorme probabilidade de que minha pessoa não fosse existente, fato esse que me seria de extremo desprazer.

Ainda segundo os relatos, eu vim a este mundo no mês de fevereiro do ano de 1974. Era quase meia-noite do dia seis e todos acreditavam que o nascimento ocorreria na tarde do dia sete. Contrariando as expectativas - habilidade na qual me tornaria um mestre - provei da atmosfera desse planeta pela primeira vez às 23h30min do dia seis. Ao que parece, não me agradei muito do oxigênio, pois chorei por algumas horas consecutivas. Nasci com 4.390g e medindo 53cm, o que me colocou na posição de maior bebê da maternidade naquela noite inolvidável.

Tudo indica que devo ter sido um bebê de pulmões extremamente fortes, sendo esses superados em sua força somente pela minha força de vontade em chorar. Devo ter sido ainda um bebê promovedor de uma grande realização pessoal para meus pais, visto que eles não se cansam de afirmar que se eu tivesse sido o primeiro filho, teria sido o último, pois um de mim já era o bastante para cabeça de qualquer um.
Meu primeiro ano foi muito estranho, mas isso fica para o próximo capítulo...

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:39 AM


Comments:



Sexta-feira, Maio 02, 2003


Eu ainda não havia assistido ao filme "O náufrago", aquele no qual o personagem interpretado por Tom Hanks fica alguns anos compulsoriamente num resort tropical. Aluguei então a referida fita. Embora no início eu tenha acreditado tratar-se de um comercial da Federal Express, ela acabou revelando-se um bom entretenimento.
Como todo náufrago que se preza, ele sobreviveu a um acidente insobrevivível e amanheceu estirado como um pedaço de bacalhau às margens de uma praia em uma ilha inabitada. Aos poucos foi habituando-se ao local e aprendendo a sobreviver naquela terra de privações.

Imagino-me em semelhante situação, acordando em meio à areia na deserta ilha e pensando o que fazer a partir de então. Creio que, primeiramente, eu levantaria. Eu detesto deitar na areia, e estou certo que a sensação de centenas de milhares de minúsculas partículas pedregosas coladas à minha pele por horas não me proporcionaria encanto.

Em segundo lugar, procuraria a presença de um indivíduo humano ou, ao menos, sinais de uma civilização, tais como: tiroteios, acidentes de trânsito, perseguições policiais, atentados suicidas, ou outras atividades que definem nossa espécie. Obviamente não encontraria, caso contrário eu não estaria em uma ilha deserta.

A essa altura, minhas funções gastrintestinais já estariam dando sérias demonstrações de sua impaciência alimentar. Sairia então à procura de alguma substância comestível que não fosse por demais repugnante, como cocos, frutinhas silvestres ou outro vegetal não venenoso. Entretanto, levando-se em conta meu limitadíssimo conhecimento botânico, eu somente descobriria seu possível poder tóxico através do método de tentativa e erro.

Caso não encontrasse o tão almejado vegetal, e pressionado pela sofreguidão nutricional, seria obrigado a partir em busca das tais substâncias repugnantes, as quais, estou certo, abundariam.
Quanto à falta de companhia - situação que deixou o personagem do filme no limiar da sanidade - creio que não existiriam maiores problemas no meu caso, visto que, com algumas semanas sem medicação, todos os objetos daquela ilha - animados ou inanimados - estariam prontamente disponíveis para prolongados bate-papos sem hora para terminar.

E então, após alguns anos de intenso penar, haveria de ser resgatado de minha prisão insular. E em casa, acolhido por parentes e amigos venturosos com meu retorno, pegaria meu jornal e exclamaria após lê-lo por inteiro:
- Não há lugar como nosso banheiro!

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:05 AM


Comments:



Quinta-feira, Maio 01, 2003

Descobri que realmente sou um sujeito com uma profunda fé na humanidade. Quem mais, a não ser um indivíduo com intensa confiança em seu semelhante, entregaria o destino de seu corpo - e de sua vida, por conseqüência - a um dispositivo eletromecânico preso por finos cabos e que se eleva a alturas efetivamente fatais para qualquer humano: o elevador?

Embora possa parecer, o elevador não é uma porta mágica que, ao ser fechada e logo em seguida aberta, transporta tudo e todos que estão do lado de fora, para outro local, colocando outro lugar e outras pessoas em nossa frente, como poderia pensar um observador mais incauto. Ele é sim, mais um engenhoso equipamento de transporte vertical que vem cada dia tornando-se mais corriqueiro, contribuindo para a felicidade e o bem-estar das massas em nosso estilo de vida moderno: o sedentarismo.

Embora o nome descreva somente metade de sua tarefa, ele define bem o objetivo básico do equipamento, que é o de elevar as pessoas a alturas que fariam nossos antepassados pré-históricos urinarem nas suas peles de mamute. E tudo isso numa velocidade tão significativa que transpomos em alguns segundos, distâncias que nos dariam intermináveis minutos de aflição física e um possível infarto, caso tentássemos percorrê-las por escadas.

Quanto ao restante da monótona tarefa do aparelho, que é a de nos colocar novamente na segurança do solo firme, não é necessário maiores esclarecimentos, pois fica subentendido em seu nome, visto que tudo o que sobe tem que descer e que pra baixo todo santo ajuda.

postado por: EDMUND BONAPARTE 1:23 AM


Comments:




arquivo


Diário de um lunático - Copyright 2003-2004 © Todos os direitos reservados