Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Segunda-feira, Junho 30, 2003
Expressa-te A Ti Mesmo
Perturba-me grandemente o fato de ouvir, vez por outra, expressões que carregam significados completamente diversos daqueles que aparentemente pretendem transmitir. Posso citar como exemplo a expressão "tiro de misericórdia".
Normalmente quem diz esse tipo de frase não conhece misericórdia. Parece-me mais uma insanidade ver alguém dizendo: "Ele capturou o sujeito e deu-lhe um tiro de misericórdia!". Se, afinal, ele acabou brutalmente com a vida do outro, seguramente não houve nenhum tipo de sentimento nobre envolvido na situação. Pelo contrário, acredito que a nomenclatura correta para descrever tal ato poderia ser "tiro de maldade", ou ainda "tiro pra acabar com a sua raça", mas jamais "tiro de misericórdia".
Outro conceito que parece profundamente mal-ajustado é aquele expresso pelo termo "falha persa". Essa idéia surgiu junto aos antigos confeccionadores de tapetes persas que, acrescentando propositalmente uma minúscula falha em seu tapete, queriam demonstrar suas limitações e dizer, com isso, que nada de perfeito pode ser executado pelas mãos humanas. Todavia, analisando-se mais profundamente o conceito, vê-se que ele acaba por dizer exatamente o contrário. Se realmente era necessário acrescentar alguma imperfeição aos trabalhos para que eles não ficassem perfeitos, então os fabricantes já se consideravam capazes de alcançar a perfeição por suas próprias mãos, e a sua falha persa seria mais uma demonstração de falsa modéstia do que qualquer outra coisa.
Não obstante, creio que tanto os confeccionadores de tapetes quanto os frios assassinos provavelmente não pensaram dessa forma, de modo que as suas intenções foram as melhores ao adotar essas opiniões. Mas, apesar disso, não posso deixar de lembrar de uma outra antiga expressão que diz: "De boas intenções o inferno está cheio!" (Não sei quem disse isso pela primeira vez, nem se este indivíduo realmente foi lá nas profundezas do inferno para conferir sua teoria, mas ela parece ser uma consideração muito apropriada em determinados momentos).
Por tudo isso, passei a apreciar grandemente o uso de expressões que não carregam profundos julgamentos ou maiores significados nelas mesmas. Sinto-me bem mais confortável utilizando-me de expressões como "macacos me mordam!", "pelas barbas do profeta!" ou "por que cargas d'água..." para relatar minhas aventuras e ilustrar meus pensamentos.
Mas acho que hoje vou ficando por aqui, apesar do assunto estar muito interessante, pois falar muito dessas coisas acaba sempre por mexer em alguma falha presa alheia, e eu não estou com muita vontade de levar um tiro de misericórdia. Pelas barbas do profeta! Por que cargas d'água eu estou utilizando esses termos? Macacos me mordam! Nem eu sei!
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:21 PM
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Domingo, Junho 29, 2003
O Coral
Meus móveis andavam cada vez mais rebeldes. Depois do dia em que tivemos aquela séria conversa e eu ameacei trocar de casa, percebi que ouve uma súbita melhora da situação, mas como tudo sempre tende a retornar ao caos de onde saiu, meus móveis, com o passar dos dias, retornaram ao seu comportamento caótico de sempre, trazendo junto toda a falta de educação que, juro, não sei de onde tiraram.
Já não agüentando mais a zona de guerra em que se havia tornado novamente minha residência, decidi dar um fim naquilo tudo de um modo mais criativo. Sabendo que a força bruta e as ameaças possuem um efeito temporário, decidi atacar nas causas mais básicas da desordem emocional que aflige meus pertences.
Observando o dia-a-dia de meus móveis, pude constatar que o grande mal deles é simplesmente a falta de atividades criativas que acomete suas vidas. Elas passam o dia todo na mesma posição, sem nada para fazer além de sustentar outros objetos e esperar que as horas passem, em um interminável ciclo diário de profundo tédio e falta de perspectivas.
Pensando assim, não é sem razão que parecem enlouquecidos. Sim, meus móveis parecem profundamente entediados, a ponto de alguns deles caírem em profunda depressão e entregarem seus corpos aos dentes dos cupins sem oferecer resistência (se é que cupins possuem dentes). Pode soar incrível, mas o ataque dos cupins está diretamente ligado à situação psicológica dos objetos.
Por questões humanitárias (afinal, mesmo não sendo um ser humano, todo objeto é um ser vivo) e financeiras (vocês já viram a que alturas andam os preços dos móveis atualmente?) botei firme propósito em minha mente e decidi resgatar meus objetos da demência que os anos de tediosa tortura psicológica impingiu-lhes.
Iniciei minha pesquisa a respeito de qual atividade tornaria suas existências mais felizes com meu criado-mudo (que, como já disse, não é meu criado e que tampouco é mudo). Este móvel, típico representante da classe dos gozadores das caras alheias, é, dentre todos os outros de minha residência, o mais irritante quando entediado. Em vez de entregar-se aos cupins, ele transforma toda a sua frustração em sarcasmo e ironia contra tudo e contra todos ao seu redor, tornando o ambiente um poço de mal-estar aos que ali estão. Fazendo isso consegue deixar os outros em uma situação pior do que aquela em que se encontra, o que parece trazer-lhe grande contentamento.
Perguntei-lhe sobre o que gostaria de fazer para alegrar sua existência. Com sua falta de coerência tradicional e seu mau-humor habitual, respondeu-me com alguns impropérios, procurou humilhar-me perante os outros móveis, procurou humilhar os outros móveis perante mim, falou os podres de todos e a todos contou sobre seus próprios podres, terminando por não me responder a questão. Sei que ele não é um mal sujeito, e que, debaixo daquela capa de rebeldia, existe um bom e afetuoso móvel, embora muitas vezes eu tenha vontade de parti-lo em mil pedaços, fazer uma fogueira, e dançar em volta.
Deixei-o e fui perguntar o mesmo ao cabide, que me respondeu:
- Veja bem, caro Edumund, veja bem. Até parece, meu caro, que você, veja bem, não entende nada de móveis, tenho dito. Você, meu caro, não sabe que para nós, veja bem, nada é mais prazeroso do que falar, meu caro? Sentimo-nos vivos, meu caro, quando podemos, veja bem, soltar nossas vozes, meu caro!
Pareceu-me bem sincero o cabide, e pareceu-me também que essa era a opinião geral, mas, apesar disso, eu não podia simplesmente deixá-los continuar a falar daquele jeito, pois estariam seguindo sua infernizante rotina de mútua-agressão. Eu necessitava, isso sim, transformar essa vontade toda em algo construtivo. Mas como?
Passei algum tempo meditando sobre esse complicado problema e acredito ter encontrado uma solução eficaz. Tentei convencê-los de que cantar, ao invés de falar, iria trazer-lhes grande alegria, pois seguramente a música acalma as feras e eles andavam ferozes ultimamente.
A idéia inflamou suas curiosidades e logo iniciaram a formação de um coral. Dividiram os componentes pelas características vocais e pelos timbres. Separam os tenores, os baixos, as sopranos, e as demais vozes. E, mesmo não entendendo nada de música, selecionaram suas canções preferidas e começaram a estudá-las com afinco.
Nunca antes eu os havia visto em tamanha união e alegria. Colaboravam entre si e comportavam-se com extrema educação, como se uma grande onda de felicidade tivesse desabado sobre suas cabeças (metaforicamente falando, pois geralmente eles são sem pé nem cabeça).
E cantaram. Oh! Sim, cantaram. E ficaram cantando e catando. E depois de tudo ainda reuniram o que sobrou de suas forças e cantaram mais um pouco. E estão assim desde aquele dia, parando somente tarde da noite, quando o sono os abate. Assombra-me grandemente o fato de nenhum vizinho ter vindo até minha casa e reclamado dos fenômenos acústicos que meus móveis produzem e que, ingenuamente, chamam de música.
Quanto a mim, sinceramente, só me é possível suportar tamanho terror auditivo com o auxílio de protetores auriculares e abafadores acústicos, dispostos em três camadas sobre meus ouvidos. Apesar de tudo, prefiro ainda escutar seus cantos a ouvir as barbaridades que proferiam antes disso. Ao menos agora eles estão convivendo em harmonia.
A bem da verdade, eles até que não são nada desafinados, somente não possuem muita noção de conjunto para formar um coral, supondo-se, é claro, que o ideal seja que todos cantem a mesma
música no mesmo compasso.
Mas enfim, não se pode mesmo querer tudo.
postado por: EDMUND BONAPARTE 3:15 PM
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A Luz!!!
Finalmente ela adentrou neste insano local!
Profundamente perturbado pelos abomináveis horrores de um horrível template, meu caro amigo
Marco "M16" Gomes, já se equilibrando sobre a tênue linha que separa a sanidade da completa loucura e num ato de extremo desespero, confeccionou esse novo template para esse traumatizado bloguinho.
Sim, traumatizado, eu afirmo, pois há tempos que ele vem choramingando para que eu trocasse seu opressivo visual e lhe fornecesse algo que lhe arrebatasse de sua escura angústia. Infelizmente, ocupado com minhas tarefas reais e imaginárias, não me era viável dedicar o devido tempo para proporcionar essa alegria à pobre criatura virtual.
Certamente vendo o sofrimento do meu blog e sofrendo juntamente com ele, o caro amigo Marco resolveu agir, o que tanto eu quanto esse blog agradecemos profundamente.
Fiquei permeado pelo contentamento ao ver tamanha luminosidade resplandecendo, finalmente, neste lugar. Já me era insuportável aquela consonância de tons malsonantes e escuridões sufocantes. É incrível como alguém ainda ousava arriscar sua integridade emocional e aventurar-se por essas bandas (certamente vocês não são pessoas comuns).
Com tudo isso, somente posso dizer que nada mais será como antes, embora tudo continue absolutamente da mesma forma. Certamente isso deve ter soado muito estranho. Ou não. Ou talvez. Seja como for, agora não há desculpa para que minhas letras tropecem umas nas outras, separem-se de suas amigas ou acabem desaparecidas, perdidas naquela escuridão. Agora, com tanta claridade, o máximo que poderá acontecer é que vocês, caso utilizem monitores de tubo de raios catódicos sem controle de nível de radiação, tenham suas córneas ressequidas e suas retinas irremediavelmente queimadas pela grande quantidade de raios que deles emanam, o que certamente seria lamentável.
Sugiro então que vocês sempre conservem seus filtros colocados em frente aos seus monitores e que tenham sempre a mão um bom colírio lubrificante para manter o perfeito funcionamento de seus órgãos visuais.
Dito isso, acho que disse tudo. Se não disse, digo mais tarde quando publicarei o post do dia propriamente dito. E tenho dito.
postado por: EDMUND BONAPARTE 11:18 AM
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Sábado, Junho 28, 2003
O Tempo
Ah! O tempo.
Para tudo existe um. Há o tempo para sorrir e o tempo para chorar; tempo para nascer e o tempo para morrer; tempo para trabalhar e o tempo para ficar em casa, vestir um ridículo pijama e se atirar no sofá para ver televisão até altas horas da madrugada - um dos meus tempos mais estimados.
Não há alma vivente nesse mundo que não se preocupe com o tempo. Está na hora de acordar? Está na hora de sair? Já é meio-dia? Que horas começa esse negócio? Está na hora de ir embora? Já?
Mede-se o tempo com tudo que se tem direito, embora nem sempre se faça isso direito. Mede-se com o sol, com as estrelas, com areia, com água, com pêndulos, com molas, com vibrações, com partículas subatômicas, enfim, com tudo de relativamente constante que há na natureza e que se possa manejar. À medida que o conhecimento foi ganhando volume, tornou-se possível medir o tempo com uma precisão cada vez maior. Chegamos a tal ponto nessa escalada, que atualmente podemos nos atrasar com perfeita exatidão.
A medição do tempo trouxe outras conseqüências para o desenvolvimento de nossa espécie. As numerosas sucessões de gerações habituadas à rotina imposta pelos relógios acabaram por produzir, numa fantástica prova da evolução (ou involução) das espécies, o
Homo Pontualis.
Fantástica criatura cronometradora dos períodos, irascível defensor dos horários programados, extraordinário mestre da harmonia temporal, o
Homo Pontualis dedica o tempo de sua existência à existência de seu tempo. Nada pode estar fora do horário para essa nova espécie humana. Na verdade, para ele, nada existe fora do horário.
Se você encontrar um exemplar puro dessa espécie, coisa rara nesse tremedal de impontualidades, saberá logo reconhecê-lo. Ele estará lá sempre antes de você chegar, não importando a distância; ele costumará olhar para o seu relógio (o dele, mas se bobear olhará no seu também) com a mesma freqüência com que costuma respirar; quando ele caminhar parecerá dispersivo, pois sua mente estará ocupada calculando os tempos dos percursos na tentativa de encaixar os horários de partida e chegada com perfeição. Em outras palavras, ele será um lunático. E do pior tipo.
Apesar de tudo, não é possível negar que grande tem sido a evolução de nossos feitos e muito se tem aproveitado das vantagens do domínio cotidiano do tempo. Mas, a despeito dos progressos, creio que se tem dado muita importância a ele. Até demais, eu diria. Quase uma perda de tempo. Ou não. Sei lá.
O que realmente sei é que escrevi tanto sobre o tempo e acabei não abordando o mais interessante:
- Afinal de contas, o que é o tempo?
Pois bem, eu escrevo logo que eu tiver algum.
postado por: EDMUND BONAPARTE 2:01 AM
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Sexta-feira, Junho 27, 2003
Se Eu Fosse Um Tomate
Se eu fosse um tomate provavelmente seria vermelho e graúdo, daqueles cheios de pesticida. Talvez até fosse geneticamente alterado para maior resistência às pragas ganhar. Seria grande, mas sem gosto, pois seria colhido antes do tempo para o transporte suportar.
Talvez desse um pouco mais de sorte em minha existência vegetal e nasceria orgânico, com selo de qualidade e tudo. Seria vendido em feiras especiais e comprado por pessoas zelosas com suas vidas naturais.
Mas orgânico ou não, teria nascido pequeno e, aos poucos crescendo, iria tornar-me apto à ingestão pelas populações esfomeadas. Seria servido cru na salada, picotado e cozido no molho, macerado e industrializado no ketchup. Seria devorado sem dó nem piedade e acabaria por conhecer as pessoas por dentro.
Se me ferisse no caminho para a feira, seria separado e acabaria no lixo. Seria devorado pelos animais ou apodreceria em um lixão. Poderia ainda ser pego pelo povo sem recursos, cada vez maior e mais sem recursos, e acabaria novamente os conhecendo por dentro.
Mas se me fosse dada a escolha de meu destino, se ao insignificante tomate que eu seria fosse dada a opção de escolher o fim que me aprouvesse, queria então me tornar um tomate de circo para ser esborrachado na cara do palhaço, e assim meus dias terminariam em uma gargalhada.
P.S.: E eu não teria que conhecer ninguém por dentro.
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:30 AM
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Quinta-feira, Junho 26, 2003
Diretamente de nosso departamento de mitos sonoros e alegorias instrumentais:
"FÁBULAS MUSICADAS"
Edmund E O Monstro Da Caverna
Feliz e despreocupado
andava Edmund pelo mundo (e por onde mais haveria de ser?), quando percebeu, para seu espanto, que perdido estava.
A noite caía e o frio terrível ameaçava descontinuar sua existência.
Procurou abrigo e encontrou uma funda, escura e apavorante caverna, mas sem alternativas e já desfalecendo pela ação do frio, entrou.
À medida que penetrava na lúgubre gruta sentia que algo o observava atentamente. Com medo, resolveu voltar, mas ao tentar sair deparou-se,
bafo-a-bafo, com a mais terrível, medonha, monstruosa, aterrorizante e grotesca criatura que seus olhos ou quaisquer outros olhos já haviam visto: O monstro da caverna.
Edmund
correu como um louco, e só conseguiu enfiar-se mais para dentro na labiríntica toca. Acabou encurralado entre duas estalagmites e completamente
grogue pelo ultrafétido jato de urina que o monstro lançou sobre ele.
O Monstro, mostrando todos os dentes que possuía em sua enorme bocarra, perguntou ao Edmund, com a mais apavorante voz já emitida por um ser vivo, o que ele queria ali na sua caverna.
Edmund, atordoado pelos efeitos alucinógenos do monstruoso mijo,
respondeu ao monstro.
O monstro, ao ouvir aquela resposta, lembrou de velhas histórias de seu passado e resolveu não trucidar o invasor, ao menos naquele momento, e perguntar-lhe por que estava cruzando aquela mata fechada a essa hora da noite.
Edmund, já saindo de seu tonteio químico, abaixou a cabeça e disse porque resolveu caminhar por aquelas terras, em vez de usar o meio de
transporte apropriado para a região.
Sentindo que o monstro não era assim tão mal quanto parecia (afinal, ele o havia poupado até aquele momento), procurou iniciar um diálogo, na tentativa de conseguir convencer a criatura a libertá-lo. Sem saber muito bem por onde começar, perguntou ao ente se ele estava só naquela escura caverna.
Ele respondeu que gostava de paz e silêncio e ameaçou partir para cima de Edmund, que logo pegou seu banjo de estimação e disse:
- Espera aí Sr. monstro, deixe-me alegrar um pouco essa sua toca com minha
música.
O monstro, alucinado pelos estridentes acordes em seus sensíveis ouvidos, tomou o banjo das mãos de Edmund e o mastigou.
Vendo a besteira que havia feito, Edmund atirou-se de joelhos
pedindo perdão por tamanha idiotice e tornou a inquirir o monstro, mas dessa vez tentando tocar o seu lado sentimental, se é que existia tal coisa em tal criatura.
Perguntou-lhe então onde estava sua companheira, pois certamente viver naquele covil sem uma outra alma pra lhe fazer companhia deveria ser muito triste.
O monstro, baixando sua cabeça em visível tristeza e deixando cair seus braços até suas mãos tocarem o solo (os braços dos monstros são bem compridos) contou então para Edmund o que houve entre ele e a sua monstrinha, e como a
perdeu.
Ali estava, era sua chance de conseguir ajudar o monstro -
e a si mesmo, por tabela - e conquistar sua amizade. Tratou logo de perguntar o que havia ocorrido, dizendo que seria muito bom desabafar isso com alguém (vivo, de preferência).
O monstro então sentou no chão e com lágrimas, contou-lhe como sentia remorso das coisas ruins que havia dito e como queria
consertá-las. Contou-lhe de seu amor pela monstrinha e de como a queria de volta, embora cresse que isso jamais ocorreria.
Edmund, conhecendo a alma feminina como ninguém (ninguém dentro daquela caverna, pelo menos), falou o que o monstro
precisava para ter sua garota de volta. Disse-lhe que não precisava ter
medo, pois se ela amasse da mesma forma que ele, saberia reconhecer sua mudança e o aceitaria de volta.
Disse ainda que ele poderia cantar uma
canção apaixonada para ela, visto que isso sempre ajuda.
Só que Edmund ficou preocupado com algo. Pensou ele com seus botões: "Se a voz desse monstro é tão horrível assim, talvez ele não saiba cantar e, tentando assim mesmo, certamente sairá pela culatra o nosso tiro!". Querendo acabar com essa dúvida, pediu ao monstro que cantasse algo, só para treinar um pouco.
E o monstro
cantou. E como cantou.
Edmund disse que ele estava pronto e que tinha absoluta confiança que haveria de ser bem sucedido em sua empreitada.
E saíram daquela caverna
cantando e sorrindo como nunca. O monstro, pelo novo ânimo adquirido e pela nova perspectiva de vida. Já Edmund, somente pela perspectiva de vida, mas era mais do que suficiente por aquele dia.
Contam as lendas que eles reataram seus laços, que tiveram muitos monstrinhos e que viveram
monstruosamente, mas felizes para sempre.
postado por: EDMUND BONAPARTE 10:42 AM
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Quarta-feira, Junho 25, 2003
O Fenômeno
Quem já viu um gato atravessando uma rua à noite - coisa não muito rara em nossas cidades - sabe que tal animal parece não entender que logo ali atrás daquelas ofuscantes luzes que vêm em sua direção encontra-se um enorme veículo motorizado movimentando-se a uma considerável velocidade. Tão densa ignorância geralmente lhe é fatal.
Mesmo custando as vidas de inúmeros felinos mundo a fora, essa lição parece não ter sido devidamente aprendida pela espécie, que mantém esse comportamento, apesar dos trágicos desfechos. Até seria possível pensar, ao ver uma cena tão inusitada, se não é essa a forma como eles procuram suicidar-se.
Porém, seria injusto de minha parte se eu colocasse somente os gatos nessa sinistra estatística. Muitos cães, igualmente insatisfeitos com a vida, ao que tudo indica, também procuram o fim de seus dias em um pára-choque de automóvel.
Se eu fosse um pouco mais minucioso - o que todo lunático acaba sendo, queira ou não - seria obrigado a concordar que tais ocorrências podem ser mais abrangentes do que nossa vã filosofia imagina.
Esse fenômeno parece afetar não somente cães e gatos. Quem nunca viu como os insetos adoram colidir mortalmente contra os pára-brisas dos automóveis em movimento? Quem nunca contemplou o circo dos horrores, ao menos na visão de um inseto, que é o radiador de um automóvel? Dezenas de criaturinhas aladas horrendamente ressequidas e penduradas como se fossem múmias em uma doentia exposição. Esse é um triste fim, mesmo para um inseto.
Que bizarro hipnotismo é esse que atrai a mente irracional ao impacto fulminante? Qual é o estranho poder que se manifesta no entendimento das criaturas da natureza e que as leva a buscar a extinção de suas vidas de forma tão trágica?
Agora, pensando melhor, vejo que tal fenômeno parece não afetar somente o juízo dos animais e dos insetos. Muitas criaturas humanas têm sucumbido aos cantos dessa sereia (metaforicamente falando, pois não há cantos e muito menos sereias nessa história). Não é difícil, num dia comum, observar-se multidões de pedestres cometendo as maiores imprudências imagináveis em nossas vias públicas.
Certamente há uma mente maligna por trás disso tudo! Devo admitir que, atordoado por essa estranha cegueira de entendimento, muitas vezes já atravessei fora das faixas de segurança, cruzei as ruas com o fluxo fechado para os pedestres, atravessei avenidas sem me valer da passarela logo acima, enfim, arrisquei minha existência por apenas míseros segundos ou, no máximo, alguns minutos de lucro. Sinistro poder esse fenômeno possui.
Não é sem razão que cães, gatos, pássaros, insetos e humanos estejam todos juntos, dançando essa fatídica melodia de buzinas dissonantes e freadas estridentes.
Mesmo nas calçadas não há perfeita segurança. Lembrei-me agora que freqüentemente o fenômeno vem abocanhar seu quinhão de vitimas nos passeios públicos, jogando os automóveis contra os inocentes transeuntes e sobre os pontos de ônibus.
Talvez, imaginei eu, se não saíssemos de nossas residências jamais correríamos tamanho risco, mas volta e meia o fenômeno atira um caminhão dentro de uma casa, sendo, portanto, inútil simplesmente tentar esconder-se debaixo de uma cama.
Pensei, então, em levar sempre um gato comigo, para quando desejasse atravessar uma rua. Nessa situação eu atiraria o bichano no meio do trânsito e, distraindo o fenômeno por alguns segundos, cruzaria a rua em segurança. No entanto, além de ser uma crueldade inominável utilizar os pobres animais dessa maneira, seguramente o efeito seria temporário e eu teria que levar, literalmente, um saco de gatos nas costas para cruzar a cidade, o que certamente não seria uma tarefa das mais agradáveis.
Cogitei então a hipótese de carregar sempre comigo algumas moscas dentro de um pequeno recipiente de vidro, o que me permitiria oferecer um holocausto vivo ao fenômeno em troca do livre trânsito.
Como minha casa não costuma ser freqüentada por muitas moscas - fato que me deixa abundantemente feliz -, se eu desejasse oferecê-las como sacrifício ao fenômeno, eu teria que iniciar uma criação nos fundos de meu terreno. Uma vez por semana eu poria um pedaço de carne dentro de uma caixa telada para servir de alimento às larvas dos detestáveis insetos e recolheria os exemplares já desenvolvidos, o que me proporcionaria uma forma bastante eficiente de produção de moscas para minhas defensivas finalidades.
Não creio que essa idéia viria a fazer muito sucesso entre os meus vizinhos, mas com certeza satisfaria as sanguinolentas necessidades do fenômeno, além de não me trazer problemas com a sociedade protetora dos animais. Mas tudo isto é algo a ser pensado com mais calma e, de preferência, bem longe das ruas.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:06 AM
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Terça-feira, Junho 24, 2003
O Barato Quase Sempre Sai Caro
Ontem eu abri um tempo em minha extremamente ocupada existência e passei a dedicar minha atenção a algumas benfeitorias que minha residência exigia, deixando outras tarefas de lado. Como eu disse outro dia, a absoluta e esmagadora maioria das minhas tarefas é imaginária, mas como eu não sei diferenciá-las das reais sou obrigado a realizá-las por completo, sob pena de não realizar nada.
Em certo ponto de meu trabalho, vi que se fazia necessária a utilização de um martelo. Para minha frustração, lembrei-me de que não mais possuía tal ferramenta, já que havia emprestado a um colega que, por esquecimento, eu espero, ainda não havia retornado com ele.
Pensando em uma saída à tão vigoroso desânimo que a carência ferramentosa me proporcionava, parti em busca de uma alternativa rápida e, se possível, barata. Recordei-me que a cerca de cem metros de minha residência existe uma loja que vende mercadorias por um real e noventa e nove centavos. Possivelmente lá eu haveria de achar um substituto que me permitisse completar a obra.
Sem mais delongas, larguei o que fazia e fui comprar o referido artefato no mencionado estabelecimento. Chegando lá encontrei o objeto de meu desejo entre outras ferramentas em uma caixa e imediatamente o comprei, retornando assim triunfante ao meu manual labor.
Peguei um enorme prego e passei a martelá-lo alucinadamente como todo prego deve ser martelado. A certa altura do procedimento percebi que a dificuldade em introduzi-lo na madeira havia aumentado substancialmente, e à medida que penetrava no endurecido cerne tornava-se cada vez mais titânica a tarefa.
Depois de certo tempo, cada golpe que eu disparava soava realmente como um tiro. Olhei para o teimoso prego e, como um marreteiro insano, passei a martelá-lo com assassina cólera. Parecia que ria de minha cara ao permanecer imóvel. Dupliquei a potência em cada golpe a ponto de estremecer toda a estrutura, e, em uma dessas bordoadas, creio ter excedido o limite da resistência estrutural do dispositivo que, salvo uma errônea avaliação de minha parte, estava bem abaixo do mínimo requerido para a martelante finalidade.
Ao acertar um poderosamente intenso golpe contra o prego, meu martelo de um real e noventa e nove centavos partiu-se em dois, sendo que uma parte permaneceu em minha mão e a outra, ricocheteando no impetuoso prego, foi lançada violentamente contra minha testa.
Tamanho impacto laçou-me ao solo em espantosa inconsciência. Ao acordar, várias horas mais tarde, avaliei a extensão do estrago, e constatei que, fora o tempo perdido em meu induzido sono e uma relativa dor de cabeça, nada de mais grave havia acontecido.
Obviamente, ao retornar à minha rotina normal, as pessoas, estranhando aquela assombrosa protuberância em minha testa, terão suas curiosidades incitadas e acabarão, mais cedo ou mais tarde, perguntando-me como a teria adquirido.
Pensando em uma digna resposta à tão vexatória questão, pensei em dizer que me estaria nascendo um chifre no meio da testa, pois certamente me senti traído por aquele martelo. Ou ainda melhor, poderia dizer que o terceiro olho, aquele da consciência superior, está por despontar em minha face. O que não seria de todo uma lorota, já que tão infeliz experiência com materiais de baixa qualidade seguramente me abriu os olhos.
postado por: EDMUND BONAPARTE 4:18 AM
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Segunda-feira, Junho 23, 2003
Edmund Em Busca Da Grande Verdade
Esses tempos eu saí ao encalço da verdade. Não me seria suficiente achar verdadezinhas ou quase certezas. Somente encontraria o almejado descanso ao deparar-me com a grande verdade. E atrás dela eu fui.
Obviamente encontrá-la não é algo que se possa imaginar simples, tampouco creio que ela se refugie em lugares evidentes. Se assim o fosse, todos já a teriam encontrado e conhecê-la seria algo banal. Supus que para encontrá-la eu precisaria procurar em lugares onde menos se acredita que as grandes verdades se escondam.
Estaria a grande verdade oculta em alguma fresta na calçada? Debaixo de alguma pedra em um parque? Em cima de um cume gelado de alguma montanha? Dentro de uma antiga árvore? Tantos lugares por onde começar e cada um parecendo tão bom quanto o outro.
Sabendo que me perderia em suposições - como todo o lunático invariavelmente acaba fazendo - resolvi começar em minha própria casa. Imagine se, depois de dar a volta ao mundo em minha busca, eu chegasse em casa - barbudo e judiado pelos anos de privações - e descobrisse que ela estava dentro de uma caixa de sapato ou debaixo da pia da cozinha. Eu simplesmente não podia deixar que isso acontecesse. Resolvi então começar pelo meu quarto.
Olhei de baixo da cama, mas lá, bem encolhidinho, só estava escondido o medo. Deixei-o em paz e fui olhar no guarda-roupa, mas também a verdade não se achava por lá. Só havia, para minha surpresa, um pouquinho de vaidade. Deixei-a em paz também.
Olhei no meu álbum de fotografias, e só encontrei a saudade. Olhei na estante de livros e encontrei o conhecimento e um pouquinho de sabedoria, mas nem sombra da grande verdade. Continuei procurando e encontrei a alegria, o amor, o ódio, a compaixão, o cinismo, a bondade, a confusão, encontrei até alguns resquícios de mentira, mas nada da verdade mostrar sua face.
Já começava a me preocupar com a situação. E se não for possível encontrá-la, pensei comigo mesmo, como vou saber o que fazer e como agir sem conhecer a verdade dos fatos? Como poderei decidir entre as opções que se atiram em minha frente se não conheço o fim das coisas? Esquerda ou direita? Para cima ou para baixo? Fico ou vou embora? Faço ou desfaço? Muitas dúvidas, muitas interrogações e somente pequeninas confianças adquiridas com os anos para me guiar.
Após virar minha casa do avesso, vi que a grande verdade não estava por lá. Não restava outra alternativa senão, agora sim, sair pelo mundo e procurá-la. E não ouve lugar por onde meus pés não tivessem pisado e meus olhos observado, e em nenhum desses lugares encontrei o que procurava.
Quanto mais eu sentia que a verdade estava inacessível, mais impressionado eu ficava com aqueles que dizem conhecê-la. Ficava abismado com aqueles que, em nome dela, elaboravam irados discursos, apontavam os defeitos e virtudes de tudo e de todos, pegavam em armas e contabilizavam as perdas como sacrifícios em nome da grande verdade. Certamente, pensei eu, esses realmente já encontraram a grande verdade! Como eu já havia procurado em todos os lugares, só me restava procurar nessas pessoas, e decidi fazer isso.
Fui ter com eles e, apesar de meus esforços, somente encontrei o radicalismo por lá. Ao contrário da verdade, o radicalismo não se importa com os fatos, somente com o que deseja, cegamente e a qualquer custo. Saí de lá correndo e voltei para casa.
Devo admitir que, apesar de tudo, não encontrei a grande verdade. Vi que teria de fazer o melhor que eu pudesse com minhas pequeninas convicções e minhas experiências. Se isso seria ou não suficiente para realizar as escolhas corretas era um assunto que já estava fora de meu alcance e, portanto, procurei não me incomodar mais com isso.
Todavia, em minha alucinada procura pela grande verdade, encontrei algo que certamente me acompanharia em meus caminhos. Ao descobrir que tão pouco sei, e consciente de que todos nós conhecemos um pedacinho da verdade - e não mais do que isso -, acabei por me deparar com a humildade. E que bela companhia ela é.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:55 AM
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Domingo, Junho 22, 2003
Diretamente de nosso departamento de mitos reunidos e de alegorias compiladas
"FÁBULAS ALUCINADAS"
O Colecionador
Era uma vez um homem que não sabia fazer outra coisa na vida senão colecionar. Colecionava de tudo, não importando se belo ou feio, novo ou antigo, caro ou barato. Sua motivação era somente ajuntar peças de todas as procedências, cores e tamanhos em uma interminável sucessão de aquisições, tarefa na qual despendia todo o seu tempo, dinheiro e esforços.
Apreciar suas coleções era como olhar para um resumo do mundo. Havia peças de todos os continentes e de todas as civilizações que existem ou que já existiram. Elas enchiam cada cômodo e cada canto de sua gigantesca e maravilhosa mansão. Ocupavam cada centímetro útil do piso, das paredes e do teto. Quase não era possível mover-se por entre elas.
Esse homem, descendente de uma incrivelmente rica e tradicional família, havia gastado em sua insana obsessão praticamente toda a inacreditável herança que recebera. Fábricas, imóveis, ações, tudo era posto em segundo plano quando confrontado com seu desejo por colecionar. A fortuna que ainda lhe restava seria considerada fenomenal para qualquer milionário comum, mas não para ele.
Enchia-se de pavor só por pensar na possibilidade de não ter mais dinheiro para gastar com suas coleções. Vivia com os nervos à flor da pele imaginando que um dia iria desejar algo que não poderia ter. Além disso, como suas coleções tornavam-se cada vez mais imensas e valiosas, começou a temer continuamente pela segurança de seus mais preciosos bens.
A loucura começou a tomar posse de sua egocêntrica mente. Com o tempo, passou a sentir insegurança quando perto de outras pessoas. Já não as via mais como seres humanos, somente como possíveis predadores de suas idolatradas coleções.
Já não conseguia sair à rua, com medo do que pudesse ocorrer com seu tesouro durante sua ausência. Tudo que comprava era por intermédio de terceiros. Ninguém mais via seu rosto há anos, nem mesmo seus criados, pois despediu a todos e passou a viver recluso em sua mansão cercada por ferozes cães.
Uma vez por semana, recebia seus mantimentos e suas novas aquisições através de seu único empregado, o caseiro, que morava em um pequeno chalé nos fundos do terreno e que tomava conta da propriedade. Ele era a única criatura humana com permissão de se aproximar da casa. Confiava nele, pois acreditava que sendo ele surdo-mudo e sofrendo ainda de um pequeno grau de deficiência mental, jamais tentaria algo contra seus preciosos pertences. Mesmo assim, nunca permitia sua entrada na residência, e só se comunicava com ele esporadicamente e através de bilhetes.
E assim viveu por muitos anos empilhando seus novos objetos uns sobre os outros. Já não conseguia encontrar um bom local para acomodá-los, pois não tinha bom preparo físico para escalar escadas e prendê-los devidamente. Contentava-se em acrescentá-los à sua lista de aquisições e amontoá-los em inseguras montanhas.
Certo dia, ao andar pela sua casa, deixou acidentalmente cair um livro de suas mãos. As insignificantes ondas de choque causadas pelo minúsculo impacto do livro com o chão foram suficientes para que todas as instáveis pilhas que se haviam tornado suas coleções chacoalhassem como se feitas de gelatina.
Olhou amedrontado para cima e assombrou-se com a montanha que se precipitava sobre ele. Não havia para onde correr, tudo a sua volta parecia implodir em sua direção. Desesperou-se, mas nada pode fazer além de contemplar a chuva de objetos que o cobria.
Imobilizado pelas toneladas de artefatos que o circundavam, gritava por socorro. E assim o fez até que sua voz acabou. Mas ninguém podia ouvi-lo. Ele havia sistematicamente afastado a todos de sua convivência. O único que poderia ajudá-lo, seu caseiro surdo-mudo, continuava seu trabalho no jardim, regando as flores, cortando a grama e alimentando os cães, tudo isso sem nem mesmo suspeitar do que acontecia a poucas dezenas de metros dentro daquela casa. E não suspeitaria muito cedo, pois era comum seu patrão ficar mais de uma semana sem se comunicar.
O pobre e paralisado homem passou então a recordar as pessoas que viviam naquela mansão, seus empregados e seus parentes. Recordou como era boa a sua vida quando a casa estava sempre cheia de gente e de movimento. Sentindo aquele sepulcral silêncio que o permeava, imaginou como somente um sinal, um simples aviso de uma daquelas pessoas que tão brutalmente enxotou de sua presença poderia salvá-lo de sua indescritível tortura.
Mas não havia ninguém. Estava só. E naquela estática solidão foi implacavelmente afligido pelo destino que buscou com as próprias mãos. O terror parecia-lhe infinito dentro de cada minuto, e os minutos amontoaram-se e formaram horas, e as horas amontoaram-se e formaram dias. E por três dias permaneceu em seu abissal tormento.
Mortalmente desidratado já não sentia mais seu corpo. As cãibras que o tomavam e o deserto em que se havia tornado sua garganta já não o incomodavam mais. Sentia que sua provação chegava ao fim.
E naquele instante, segundos antes de morrer soterrado em seu fabuloso mausoléu, lembrou com remorso de todos os dias de felicidade que tivera com sua família e amigos nesse mundo, olhou gelidamente para seus inúteis objetos e, num último lamento, desprezou-os do fundo de sua alma.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:33 AM
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Sábado, Junho 21, 2003
Caldo De Insônia
Alguns dias atrás eu estive imerso em uma alucinada insônia. E, nesse estado, pude constatar como nossos afazeres tornam-se mais fáceis e andam com mais agilidade quando dispomos de um tempo extra para executá-los durante o dia.
De tal forma impressionado fiquei ao verificar essa verdade temporal que logo me pus a calcular os lucros e os desperdícios que uma boa noite de sono nos traz.
Considerando que passamos em média oito horas por dia dormindo, pode-se dizer que uma pessoa de oitenta anos de idade dormiu por vinte e sete anos, aproximadamente. É certamente um tempo enorme aquele que despendemos repousando. Para um lunático isso é de tirar o sono.
No entanto, ao dormirmos, repomos nossas energias e damos condições para que o nosso organismo regenere seus tecidos. Privar nosso corpo completamente do reparador descanso noturno (ou diurno, no caso dos plantonistas, vigias e de todo o povo que faz da noite seu dia, e do dia sua noite) poderia matar-nos em pouco tempo. Por outro lado, oito horas extras por dia poderiam trazer-nos vantagens substanciais, a ponto de alterarem o rumo de nossas existências, se utilizadas com sabedoria.
Certamente não poderia deixar passar essa oportunidade e, já embalado pela insônia reinante, resolvi continuar minha experiência de ausência de sono por mais dias.
Passei então a fazer tudo como se não precisasse dormir. Emendei o dia com a noite e a noite com o outro dia. E assim o fiz por três dias antes de necessitar de um ajuste em meus planos.
Obviamente não queria utilizar-me de medicamentos para ter meu sono reprimido por mais tempo. Desejava poder suportar o insuportável sem nenhum tipo de artifício químico da moderna medicina.
Como um alquimista enlouquecido, passei a misturar todos os elementos que dispunha em minha residência e que julguei de algum benefício em minha empreitada de afastar o sono de minha mente.
Juntei em uma panela:
- Um litro de água;
- Dez colheres de sopa de café extraforte;
- Duzentos gramas de guaraná em pó;
- Sete pimentas malaguetas grandes;
- Três cabeças de alho;
- Dez folhas de urtiga;
- Uma colher de chá de fluído de freio;
- Duas cebolas;
- Duzentos gramas de chá preto;
- Uma colher de sobremesa de água sanitária;
- Um vidro de salsaparrilha;
- Trezentos mililitros de vinagre;
- Quatro colheres de sopa de pólvora negra;
- Uma colher de sopa de amônia;
- Uma colher de sobremesa de glutamato monossódico (para realçar o sabor).
Acendi o fogo no máximo e pus minha sinistra mistura a ferver por cinco minutos. Achei de bom tamanho acrescentar algumas ervas aromáticas para amenizar o pútrido aroma.
Era possível ver as faíscas saltarem de meu tenebroso caldeirão, mesmo quando a nociva e espessa nuvem já tomava o ambiente.
Coloquei luvas grossas de couro e com uma concha, a uma distância segura, enchi uma caneca com o infernal fluído, o qual batizei de "caldo de insônia". Botei um prendedor no nariz e bebi a repugnante sopa como se tomasse um copo de Nescau.
Contando os três dias que já vinha em vigília e desconsiderando os cinco minutos que fiquei desmaiado após tomar a bebida, permaneci acordado e completamente disposto por oito dias ininterruptos.
Acredito que poderia continuar a beber o flamejante caldo e com isso ficar acordado por muito mais tempo, se o gosto ou os efeitos colaterais não fossem de tamanha tenebrosidade.
Não recomendo a ninguém tomar tal beberagem, principalmente àqueles que sofrem de gastrite ou úlcera, de qualquer espécie, sob pena de receberem uma morte lenta e dolorosa.
Mas se você necessitar desesperadamente ficar acordado por muitos dias a qualquer custo, se você considerar que o risco de por sua existência em perigo é aceitável e se, apesar de tudo isso, insistir em tomar o indescritível suco, só me resta aconselhar que ande sempre com óculos escuros, caso, é claro, não deseje que os outros pensem que você fumou um carregamento de maconha sozinho.
postado por: EDMUND BONAPARTE 2:04 PM
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Sexta-feira, Junho 20, 2003
Diretamente do nosso departamento de mitos vegetais e alegorias florestais
"FÁBULAS ALUCINADAS"
A Espantosa Vida Do Homem-Borracha
No meio da floresta amazônica, em uma antiga seringueira, nasceu, naquele dia inaudito, o Homem-Borracha. Na época do nascimento ainda era o Bebê-Borracha, é claro, somente tornando-se o Homem-Borracha após ter sido o Garoto-Borracha.
Apesar de ter vivido toda sua emborrachada existência entre árvores e animais da floresta equatorial, nutria um substancial desejo por conhecer a civilização e seus mistérios fabulosos.
Quando completou a maioridade, o Homem-Borracha transformou-se em um pneu e pegou a estrada em busca de seus sonhos na cidade grande.
Mas a vida não foi fácil na cruel cidade. O Homem-Borracha não era um sujeito de muito estudo e mal sabia ler e escrever.
- Mas eu sou muito flexível! - dizia, na tentativa de encantar algum possível empregador.
- Não tenho medo de trabalho e meus horários são muito elásticos! - tentava argumentar ainda.
Tudo em vão. Ninguém queria o Homem-Borracha, pois os derivados do petróleo substituíam-no na absoluta maioria das aplicações e com menos custo. Seus serviços simplesmente não eram mais requisitados.
Sem dinheiro e envergonhado com a idéia de retornar à floresta com uma mão na frente e outra atrás, o Homem-Borracha passou a aceitar qualquer trabalho, por mais indigno e mal pago que fosse.
Trabalhou como borracha de geladeira, mas logo viu que era uma fria e perdeu aquele magnetismo inicial; trabalhou como limpador de pára-brisa, mas seu estômago fraco não suportou o constante vai-e-vem e abandou seu carro na primeira tempestade; trabalhou como borracha escolar perfumada, mas apavorou-se com a idéia de ser roído diariamente pelas crianças e fugiu da escola; e por fim, trabalhou como sola de sapato, mas não se acostumou com os resíduos fecais que se acumulam pelas ruas e desistiu aos vômitos.
Sem esperança de encontrar um trabalho ao qual se adequasse, tornou-se um indigente e, atirado às sarjetas, vivia da generosidade dos conhecidos e das esmolas dos desconhecidos, o que invariavelmente era bem pouco. Aos que passavam, dizia:
- Dá-me um dinheirinho para eu atar! - imaginando como seria bom se pudesse trabalhar em um banco como elástico de dinheiro.
Já sem vigor, sem esperança e enlouquecido pelos anos de miséria e sofrimento, subiu no mais alto prédio da cidade, montou no parapeito, olhou para a rua lá embaixo e disse:
- Se é minha seiva que essa cidade quer, então é minha seiva que ela terá!
E num impulso, atirou-se.
E enquanto caía, veio, como em um mágico filme, a imagem da família a tanto esquecida em sua torturada mente. Sua mãe seringueira trazendo aqueles sais minerais e aquela água fresca das raízes nos dias de inverno. A alegria que era brincar nas folhas e fazer fotossíntese. As brincadeiras de esconde-esconde com seus irmãos e irmãs nos galhos e tronco.
Tudo aquilo com uma cor e um brilho que há muito já tinha esquecido, e naquele momento, naquela velocidade, deu-se conta do grande erro que havia cometido. O vento em seus ouvidos assoviava sua mortal melodia, enquanto o Homem-Borracha desesperava-se com a vida que perderia de tão ignóbil maneira. Em seu coração disse:
- Se me fosse dada outra chance, muito faria de diferente em minha vida.
Mas não podia crer nessa possibilidade. Somente aguardava o impacto iminente no solo que se aproximava cada vez mais rapidamente e lamentava seu amargo fim.
Porém, para absoluta maravilha dos que presenciaram a cena, o Homem-Borracha havia esquecido de sua elástica natureza. Ao colidir com o solo, ele ricocheteou e foi atirado para os ares como uma bola de tênis, e quando abriu os olhos, encontrava-se novamente no alto do prédio, como se nada tivesse acontecido.
Aos prantos pela felicidade da nova chance concedida, retornou para seu verdadeiro lar. Pouco tempo depois, reuniu todos os seus irmãos e irmãs e montou o circo "A Incrível Família-Borracha". E daquele dia em diante, nunca mais um membro de sua família precisou tentar a sorte na civilização. E todos viveram muito felizes com suas novas ocupações artísticas.
É bem verdade que alguns deles ainda teimam em trabalhar para a humanidade em forma de luvas e preservativos, mas são a minoria.
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:13 PM
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Quinta-feira, Junho 19, 2003
Proverbial Sabedoria
Da discussão nasce a luz, e devo confessar que, não obstante o aborrecimento, o que aconteceu ontem entre eu e eu (o outro eu), foi realmente bastante proveitoso, já que sou um homem prevenido e um homem prevenido vale por dois.
Apesar da óbvia constatação de que nossa situação ficaria melhor com cada macaco no seu galho, dividimos os mesmos neurônios e, embora creia que querer é poder, separar-nos seria uma tarefa inviável para qualquer técnica médica atual.
Mas acredito que há males que vêm para bem e, como a noite é boa conselheira, hoje já conseguimos significativos avanços em nossos esforços por cooperação mútua. Como é sempre melhor prevenir do que remediar, e como cada um sabe onde lhe aperta o sapato, resolvemos (eu e o outro eu) definir limites de interferência na existência um do outro, pois é melhor que fique cada qual no seu ofício.
Certamente não há fumaça sem fogo, e como um abismo chama outro, foi decidido, em comum acordo, que semearíamos a paz entre nós dois, pois quem semeia ventos colhe tempestades. E Como não tínhamos nada a perder e tudo a ganhar, resolvemos arriscar esse acordo de paz, pois quem não arrisca não petisca.
Estou consciente que Roma não se fez em um dia, e que uma andorinha só não faz verão, mas creio firmemente que uma mão lava a outra e que ambas lavam o rosto. Portanto, se nós dois crermos que o sol nasce para todos e que o hábito é uma segunda natureza, com certeza seremos bem sucedidos, mesmo que tenhamos de abrir mão de algumas manias arraigadas, pois mais vale um bom acordo do que uma boa demanda.
Ninguém será bom senhor se não for bom servidor, por isso teremos que nos habituar a abrir concessões, a dividir nosso tempo de forma justa para ambos, e crer que na adversidade é que se prova a amizade. E se assim não for perfeito, teremos que nos contentar com o que conseguirmos, pois mais vale um pássaro na mão do que dois voando.
Mas se nem tudo que reluz é ouro, também nem todos os aspectos dessa parceria são somente de perdas e concessões. Há vantagens óbvias dessa partilha, principalmente quando nosso entendimento trilhar por confusas trilhas e nossa sabedoria estiver perdida na noite, onde todos os gatos são pardos. Lá, certamente, dois pares de olhos verão melhor do que um e duas cabeças pensarão melhor do que uma. E se o olho do dono é que engorda o cavalo, seremos dois a olhar por nossos cavalos.
E é melhor que eu pare por aqui, pois quem muito fala acaba mordendo a língua.
postado por: EDMUND BONAPARTE 3:49 AM
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Quarta-feira, Junho 18, 2003
Eu E Eu Mesmo, Segundo Ato
Agora que a normalidade parece ter retornado (ao menos a minha normalidade), continuarei a escrever em meu alucinado diário procurando, sempre que possível, zelar pelas nossas regras gramaticais tão amadas.
/# Ed! O que foi aquilo ontem, hein? Nossa, meu! Fiquei assustado contigo! #/
Não posso crer no que vejo! Eu (o outro eu) estou novamente sabotando meu post de cada dia. Minha outra personalidade retorna de seu limbo e descarrega sua fúria psicótica sobre mim e meus escritos.
/# Olha, Edmund, vamos parar com isso! Primeiramente, que história é essa de "minha outra personalidade", hein? Desde quando você se tornou o senhor e eu o subalterno? Que direito você julga ter pra me denominar como "sua" personalidade? Ao que me consta, eu posso bem ser a personalidade real e você só uma alucinação da minha cabeça enlouquecida!
Em segundo lugar, se eu viesse realmente com a intenção de descarregar a minha fúria psicótica sobre você e os seus escritos, pode crer que vocês já estariam tocando harpa lá no pós-vida. #/
Até recentemente costumávamos nos entender muito bem, e parecia não haver maiores empecilhos em coexistirmos em um único cérebro. Por que, eu me pergunto, você teria mudado tão radicalmente seu comportamento após eu ter iniciado esse blog?
/# Eu não acho que eu tenha mudado meu comportamento. Creio que você ficou mais obsessivo do que nunca depois que começou a escrever esse diário e acha que tudo à sua volta é que está diferente. #/
Muito interessante sua teoria, meu caro, mas acredito muito mais na hipótese de que você está contorcendo-se de vontade de escrever, todavia não suporta a idéia de perder essa sua imagem de indivíduo ignorante e alienado, que cultiva com tanta dedicação.
/# O que você está querendo dizer com isso? Está sugerindo que eu quero escrever e que não quero admitir isso? #/
Não, Edmund. Estou dizendo que você quer escrever e não tem coragem para isso, dessa forma vem em meu diário e sabota meus posts, para que eu não escreva também. Só isso.
/# Como assim eu não tenho coragem? Que história é essa que eu não tenho coragem? Claro que eu tenho coragem! Eu tenho mais coragem reunida na unha do meu dedo mindinho do que toda a coragem que você vai ter durante toda a sua vida! #/
Sei. É claro, é claro...
/# Olha, seu lunático de meia pataca! Me dá essa porcaria de teclado que eu vou mostrar pra você o que é escrever! #/
Tome. Sinta-se à vontade, meu caro. A respeito do que pretende escrever? Se posso perguntar...
/# Já perguntou, né? Já perguntou, né? Vou escrever uma daquelas fábulas abobalhadas que você gosta de fazer. #/
Hummm... Interessante. Estou ansioso para ler. Finja que eu não estou aqui e comece quando estiver preparado.
/# Eu estou sempre preparado! Só não fica me olhando assim! Deixa eu me concentrar! /#
Realmente, um pouco de silêncio é bastante útil para quem deseja concentrar-se.
/# Mas que cara chato! Não vê que estou tentando escrever? Sua mãe não ensinou que é feio se meter nas coisas dos outros, não? Que coisa séria! Não se acha mais gente educada nesse mundo! Fica quieto, praga!
Bem... Vamos lá.
"FÁBULAS ALUCINADAS"
O Rato Esperto
Era uma vez um gato chamado Tom e um rato chamado Jerry... #/
Eu não quero intrometer-me, caro Edmund. Contudo, devo dizer que seria aconselhável que você trocasse os nomes de seus personagens, caso deseje evitar problemas de ordem autoral. Só queria dar essa dica, e já estou calando-me novamente.
/# Ah! Sim, claro... Tá certo, Tá certo...
Bem...
Era uma vez um gato chamado Tim e um rato chamado Jarré. Tim e Jarré viviam se debicando e não podiam ver um a cara do outro que já saíam na maior pauleira.
Uma vez, enquanto o Tim estava escondido dentro da sua toca, Jarré estava preparando um plano terrível para liquidar com o Tim, que estava escondido dentro da sua toca... #/
Sem querer intrometer-me novamente em seu conto, caro Edmund, mas afinal quem é o gato e quem é o rato nisso tudo. Digo isso porque você enfiou o Tim em uma redundante toca e pôs o Jarré para liquidá-lo. Mas é só uma observação, pois fiquei um pouco confuso...
/# Tá, Tá, Tá! Você em razão! O Jarré é que está escondido na toca e o Tim é que está tentando liquidar com ele.
Continuando...
Então o Tim ferveu uma panela com água e pendurou em cima da toca do Jarré. Amarrou uma linha bem fininha na porta da toca do Jarré, para que quando ele passasse por ali a água quente caísse na cabeça dele. E foi exatamente isso que aconteceu. Jarré tropeçou na linha e toda a água quente veio por cima dele, e daquele dia em diante bastava que o Tim pegasse um pouquinho de água para que o Jarré saísse correndo feito um doido, já que rato escaldado tem medo até de água fria.
E eles viveram felizes para sempre. Fim
Que tal, hein? Não ficou boa essa aí, Edmund? #/
Ficou bastante... Interessante, caro Edmund. Só fiquei com algumas dúvidas...
/# O que que foi? O que que foi? Desembucha! #/
Eu sempre achei que o provérbio correto fosse "
Gato escaldado tem medo até de água fria" e não "
Rato escaldado...", mas tudo bem, eu acho que o resultado de um escaldamento seria o mesmo tanto para gatos quanto para ratos. Todavia, o que realmente me deixou confuso foi o título de sua fábula. Ela não deveria chamar-se "O
Gato Esperto", Já que o rato não parece ter demonstrado nenhuma esperteza ao ter saído escaldado dessa história?
/# Quer saber de uma coisa, Edmund? Fica com essa sua porcaria de Blog que eu vou é dormir que eu ganho muito mais! Tchau e espero não ver a sua cara por um bom tempo! #/
Que coisa... Logo agora que eu estava gostando.
postado por: EDMUND BONAPARTE 3:46 AM
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Terça-feira, Junho 17, 2003
Rebeudia Gramaticau
Oji acordei rebeldi i rezolvi qui vo iscrever como si fala até injuá. Cancei di te qui fica mi lembrandu di tudu qui é regra di gramática. Só vo pontuá e acentuá quandu mi dé na telha i ondi mi dé na telha, i até eu resolvê voltá a falá i iscrevê direitu eu vo fazê tudo nas cocha.
Oji eu vo subi pra cima i vo dece pra báxo. Oje vo botá açúcar no café cum culherinha pequeninha i di tardi vo num riu mergulhá pra dentru dágua, e pra fora tamém. Porque si eu passu tantu tempu iscrevendu intão eu tenhu qui tê um poco di conforto. I a minha vida vai ficá bem mais melhor i a minha paciência vai ficar bem mais grandi.
Eu decidi qui oje eu não vo respeitá nenhum verbu defequitivo e si eles viérin pra cima di mim, eu abulu eles. E si ainda açim eles viérin, eu esplodu eles, e com ceteza eu demulu cum eles.
Eu não queru sabê di concordância verbau o niminau, quando elas vier, e quando elas mi olhar com aquela cara di queim perdeu sua preposição, vo iguinorá elas comu us políticu iguinóro us eleitor depois da eleição.
Eu não gosto i não pretendu falar impropérius pela boca, mas entretanto si porém a gramática vier i dicér qui eu tô mi auto-errando-me a mim mesmo di propózito, eu vo soltá um olhar congelante e iguinorá ela tamém nem qui isso mi dê azia estomacau no estômago i dor di cabeça nas têmpora, pur qui sei qui mais tardi vo pará di ezultá di tristeza i começá a ezultá di alegria.
Eu so um cara razoáveu i não so neim um poco agressivo, mas si vier uma vírgula tentandu fazê eu cair um tombo o cair quauqué otra coiza eu vo chutar ela i fazer ela cair ezatamente a mais ou menos cem metrus di distância di mim.
Eu não queru sabê di um monte di gente qui já morreu a trocentos anos dizendo u qui eu possu i u qui eu não possu dizê o iscrevê. I podem dizê qui eu so loco da cabeça, porque si todu u tempo qui eu fiquei nu colégio a saúdi nunca mi obrigô a abandoná us istudus, intão talvez a doença consiga.
Não quero mais sabê di regras por oji. Já tivi muita sabatina duranti anos di segunda a sesta (só não tivi nus sábadus) pra ficá mi policiando a vida intera.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:06 AM
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Segunda-feira, Junho 16, 2003
Dois Meses De Vida
Sim, esse recanto da loucura, esse ninho da insanidade, esse buraco-negro do enlouquecimento que arrasta suas vítimas para as profundezas da demência e do descabimento completa hoje dois meses de existência. A bem da verdade ele completou dois meses ontem, mas ele nasceu de véspera.
Para a vida de um blog (sim, os blogs são seres vivos como qualquer outro objeto animado ou inanimado, concreto ou abstrato, de bom ou de mau trato, de topo ou substrato) eu calcularia que seus dois meses seriam equivalentes a dois dos nossos anos, se eu soubesse como calcular.
E, como todo ser vivo, ele sempre vem com uma carga de compromisso para quem se dispõe a criá-lo, principalmente quando ainda é um filhotinho. Por isso, é de bom andamento que o responsável seja bastante responsável. Tenho tentado - ah, se tenho - alimentá-lo, protegê-lo e educá-lo todos os dias e não deixar que suas necessidades sejam relegadas ao segundo plano.
Mas ele está crescendo e tomando consciência de sua individualidade. Já não aceita qualquer coisa e foi só aprender a falar um pouquinho para começar a me questionar em alguns pontos. Esses dias ele me disse:
- Dimundi, meu tempreite tá munto opressivo. Eu não gostu dele. Eu quiria um tempreite mais bunito.
Obviamente a noção de beleza já está presente e manifestando-se. Creio que terei de me esforçar ainda mais e tentar encontrar um tempo para completar o novo template o mais rapidamente possível, pois não desejo proporcionar traumas de infância a este blog. E por falar em tempo, não o tenho nem o suficiente para me coçar (felizmente não tenho sentido muitas coceiras ultimamente). Ando assoberbado a tal grau em minhas tarefas reais e imaginárias (a absoluta maioria delas imaginárias, mas eu não sei diferenciá-las) que o dia me é curto e a aflição me é comprida.
Para piorar ainda mais essa situação, meu scanner teve morte cerebral decretada dia cinco de junho, o que me tem impossibilitado temporariamente de acrescentar meus desenhos a esse recôndito. Mas, apesar da tristeza de perder um companheiro tão iluminado, estou consolado, pois ele teve uma vida longa, boa e produtiva. Ele cumpriu todas as tarefas que lhe entreguei com a mais absoluta competência. Estou de luto em sua memória, e assim que me sentir emocionalmente apto irei substituí-lo.
Por tudo isso, agradeço grandemente a todos os que nos visitam, a todos os que sempre dedicam parte de suas existências para ler essas linhas, a todos os que deixam seus comentários e e-mail's (edbonaparte@bol.com.br, certo Samanta?), ou que simplesmente vagam por essas terras no anonimato. E embora o desejo que sinto por me atirar nesses mares virtuais seja imenso, quase nunca consigo passear por entre os vossos blogs como deveria e gostaria. Dessa forma, agradeço também a compreensão quando pareço ausentar-me ou distanciar-me. Creia que faço isso sob influências de forças maiores.
E agora qu....
Espere um pouco, o meu bloguinho está chamando. Ele quer dizer algo para vocês.
Vamos lá! O pessoal está ouvindo, pode falar!
Ãhh, eu quiria dizê... Obigado pô mi visitá!
Não é uma incrível? Daqui a pouco já vai estar até conjugando os verbos...
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:30 AM
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Domingo, Junho 15, 2003
Coisas Simples De Um Mundo Complexo, Segunda Parte.
Você sempre poderá se surpreender com as coisas comuns que encontra em seu dia-a-dia, caso medite um pouco sobre suas singelas existências. Ontem meu caro amigo
Juniordocaju, em seu comentário, externou sua ânsia por saber mais a respeito das escovas de dente e dos óculos, objetos aos quais nutro profunda admiração também.
Certamente as escovas de dente trouxeram muitas alegrias à nossa civilização. Como todos bem sabem, o dente, além de seus objetivos mastigatórios, costuma entregar-se facilmente ao submundo, abrigando em seus esconderijos os mais temíveis microorganismos, que logo começam a freqüentar o lugar em considerável número.
Com o tempo, esses fétidos vilões passam a se sentir como senhores da boca e dão preferência por habitar no interior dos dentes, causando dores e inflamações aos indivíduos dentados na tentativa de torná-los desdentados.
A escova de dente, intrépida e heróica defensora da justiça bucal, não teme por a mão na massa, e juntamente com seus inseparáveis companheiros, a pasta de dente e o fio dental, entra como um pelotão de choque boca adentro e expulsa os danosos invasores.
Quando por fim, em sua velhice, já desbeiçada e descabelada, mas orgulhosa da missão cumprida, se aposenta, muitas vezes ainda encontra uma atividade nas forças armadas, ajudando os recrutas a limpar o chão e as privadas.
Já a utilidade dos óculos varia de acordo com o ponto de vista. Quanto mais embaçado, maior a ajuda.
Eles certamente mostraram uma nova visão de mundo aos seres humanos. Ampliaram seus horizontes e trouxeram maior clareza ao entendimento dos míopes, hipermétropes e astigmatas.
Mas nem tudo foi um sonho bonito, tampouco sua óptica influência totalmente inofensiva. Se antes o que os olhos não viam, o coração não sentia, hoje se pode dizer que nunca os corações sentiram tanto. E de tal forma têm sentido, que muitos deles, não suportando a carga extra de visão, simplesmente entram em colapso e infartam.
Nunca houve tantos desses casos como depois da massificação do uso dos óculos. Uns dizem que isso é culpa do sedentarismo, outros dizem que é culpa da má alimentação, outros ainda formulam conjunções extraordinariamente complexas para explicar esses casos. Eu acho que a causa real é bem mais simples do que parece, tão simples que a resposta está na cara. Portanto, como medida de segurança, acho que só devem usar óculos aqueles que estão preparados para ver.
Mas eu posso estar errado, afinal sou somente um lunático.
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:08 AM
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Sábado, Junho 14, 2003
Coisas Simples De Um Mundo Complexo
Eu fico boquiaberto em ver como certos objetos, algumas vezes muito simples, possibilitam uma melhor qualidade de vida às populações modernas desse planeta.
Já se perguntaram como deveria ser dura a vida antes da invenção do abridor de latas? Sim, os pobres indivíduos aflitos com as atrapalhadas tentativas de abrir as herméticas latinhas com objetos não apropriados, como facas e chaves de fenda. Com certeza muitos quase tiveram seus dedos arrancados em tais tentativas.
Penso ainda que pior era a realidade de nossos antepassados pré-históricos, que certamente padeciam de terríveis dissabores ao tentar abrir seus mamutes em conserva com pedras lascadas e chifres de antílope.
Mas o que dizer dos relógios? Quando esses engenhosos dispositivos ainda não existiam, restava aos mortais olhar para o sol e para as estrelas na tentativa de ajustar suas rotinas. Porém, quando o céu estava nublado, ninguém se achava no horário, a pontualidade era vista como ficção científica mesmo antes de existir ciência e a vida mais complexa tornava-se uma impossibilidade prática.
As pessoas, todas as manhãs, acordavam com as galinhas (metaforicamente falando), visto que no dia anterior haviam dormido com elas (novamente a metáfora toma parte para a compreensão exata desse trecho).
Sem os relógios, não teríamos grande parte dos confortos que desfrutamos em nossa civilização atual. Nunca seríamos acordados no horário por aquele descabelante berreiro de nosso despertador, perderíamos sistematicamente nossas conduções, somente por obra do acaso as pessoas iriam encontrar-se onde e quando haviam combinado, as empresas iriam à falência, pois muitos funcionários chegariam em horários malucos para trabalhar e o rendimento cairia para uma pequena fração daquele que temos hoje. A única coisa boa nisso tudo é que nunca levaríamos reprimendas de nosso chefe por faltar com a pontualidade, já que ele também não estaria por lá.
Outra invenção primorosa do intelecto humano é o barbeador. Naturalmente, os primeiros indivíduos que habitaram esse planeta não o possuíam, de forma que eram peludos e mal-encarados, como pode bem ser visto em qualquer livro de antropologia. Alguns grupos humanos, ouvindo os conselhos de Darwin, resolveram dar um salto evolutivo e perder seus pêlos, podendo dessa forma dispensar o uso do referido dispositivo. Felizmente para os que não se despojaram totalmente deles, essa maravilha da simplicidade e da eficiência veio para desbancar o uso de facas e navalhas que, vez por outra, arrancava alguns nacos das faces dos seus mais freqüentes usuários.
E agora que o sono tenta arrebatar-me e meus ouvidos já ouvem irreais carneirinhos ansiosos por pular sobre imaginárias cercas, não posso deixar de falar do colchão. Ah, essa maravilha da engenharia ortopédica, esse soberano do bem-estar noturno e mestre da correta conjunção óssea. O que seria de nós, pobres indivíduos em nossa pobre civilização sedentária, sem os colchões para pôr e manter nossos ossos em seus devidos lugares durante a noite, substituindo o trabalho que nossas inativas e mal-desenvolvidas musculaturas já não poderiam suportar.
Oh, fabuloso invento que em sua almofadada bondade nos abençoa com a possibilidade da correta mobilidade matutina e nos poupa do terrível sofrimento determinado por vértebras deslocadas e tendões inflamados.
Oh, sublime artífice do descanso reparador, em seus acolchoados braços, exausto e cambaleante, eu me atiro!
Até amanhã, mundo!
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:00 AM
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Sexta-feira, Junho 13, 2003
A Insuportável Frieza Do Ser
Ontem fui pego desprevenido pelo frio. Saí de casa sem o correto vestuário para enfrentar as variações térmicas que experimentaria no decorrer do dia e senti na pele (e nas camadas subjacentes) o terrível poder encarangante das frentes frias, de modo que não me foi possível, durante todo o período em que padeci, desviar meu pensamento dessa incrível entidade.
O frio é medido em graus, assim como o seu irmão gêmeo, o calor. No Brasil, costuma-se medir o frio em graus Celsius, enquanto que em muitos países ele é medido em graus Fahrenheit. Isso faz com que se tenha uma temperatura de zero grau Celsius no ponto de congelamento da água aqui no Brasil, enquanto que nos Estados Unidos, por exemplo, obtém-se trinta e dois graus Fahrenheit, para a mesma condição da água, o que demonstra que os habitantes do Hemisfério Norte apreciam muito fazer grau.
O frio e o calor parecem estar quase sempre brigados, pois dificilmente se encontram no mesmo lugar e quase nunca concordam entre si em gênero, número e grau. Normalmente estamos na enregelante companhia do frio ou na ardente presença do calor, dependendo de nossa região. Somente alguns afortunados habitam em lugares onde os dois irmãos vivem uma existência mais pacífica, conjunção essa que torna o clima bastante agradável.
O frio normalmente traz consigo geadas e neblinas, que costumam estragar as colheitas e atrapalhar os aviões nos aeroportos, respectivamente. Mas isso quando ele está de bom humor. Quando o frio acorda com o pé trocado, certamente derrubará uma nevasca sobre a primeira nação que encontrar pela frente e atirará sua população em gélido desespero. Felizmente para nós ele não encontra nesse país muita coisa com o que se incomodar, de forma que quase todo o tempo mantém-se relativamente amigável.
Durante o ano, o frio costuma migrar continuamente para outras latitudes, preferindo passar os natais nas terras (e mares) do norte, enquanto seu irmão, mais caliente, escolhe passar suas festas mais ao sul e ainda desfrutar de um carnaval antes de partir.
O frio, quando ataca, nunca o faz levemente, sempre vem em massa, massa-fria. Em nosso planeta ele se refugia nos pólos e tem nos pingüins, ao sul, e nas focas e ursos polares, ao norte, suas mais constantes companhias durante o ano. Ele pode ser encontrado também nas geladeiras e nos frízeres, embora nesses locais possa ser considerado somente como uma amostra grátis (não tão grátis se levarmos em conta o atual preço da tarifa de energia elétrica). Seu irmão já tem outra cabeça, prefere os trópicos e ama o equador, mas encontra na abrasadora quietude dos desertos o seu lugar de meditação.
O frio é uma entidade muito introspectiva e um pouco deprimida. Por onde quer que ande, sempre acaba por tornar tudo sem vida e mais lento quando não estático. Acredito até que o frio tenha um certo complexo de inferioridade em relação ao seu irmão, pois consegue, no máximo (ou no mínimo), chegar a -273,15°C, enquanto o calor parece não encontrar limites em sua escala térmica, conforme os relatos de estrelas, supernovas e de outras criaturas celestes.
Mas foi no Big Bang que o calor teve seu momento de absoluta glória, quando atingiu inacreditavilhões de graus. Em compensação, à medida que o universo foi expandindo seus limites (se é que ele os possui), o frio começou a tomar conta. E chegará o dia, daqui a zilhões de anos, quando o frio, como um Caim cósmico, entregará seus propósitos à álgida fúria e assassinará seu irmão, congelando a tudo e a todos em nosso universo, e nesse dia reinará sozinho na vastidão escura do cosmos.
Mas enquanto esse dia não chega, trato de me conservar na neutralidade e de fazer amizade com os dois, na esperança de nunca sentir suas variações extremas de humor. Pois se o frio é de fato somente uma ilusão de nossa consciência, e seus efeitos sobre os nossos corpos são meramente psicológicos, eu tenho a desculpa de ser um lunático que acredita em ilusões e em efeitos psicológicos. Portanto, deixe-me pegar um agasalho, pois está fazendo um frio psicologicamente forte por aqui.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:02 AM
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Quinta-feira, Junho 12, 2003
Diretamente do departamento de mitos culinários e alegorias industrializadas:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
Terezinha E Os Bolinhos De Queijo
Terezinha adorava bolinhos de queijo. Não somente adorava, como não sabia viver sem eles.
Terezinha passava o dia a contar as horas aguardando a chegada do fornecedor dos bolinhos de queijo "Legítimo" no mercado perto de sua casa. Existiam outras marcas, mas nenhuma fazia um bolinho de queijo como a Legítimo fazia, e Terezinha preferiria cair morta por um raio e ser devorada por cães famintos a comer os bolinhos de outro fabricante.
- Eu quero os bolinhos da Legítimo e de mais ninguém! - gritava quando alguém tentava empurrar-lhe outra marca.
Todos os seus amigos e colegas diziam para Terezinha que ela estava exagerando e que aquilo já havia virado uma doença. Mas era tudo em vão. A cada acusação, Terezinha respondia:
- Eu adoro bolinhos de queijo e se eu morresse hoje em cima de uma pilha de bolinhos de queijo, eu morreria feliz.
E, como um relógio suíço, todo o santo dia Terezinha saía de sua casa ao mesmo horário para comprar seus bolinhos.
Certo dia, Terezinha foi ao mercado como de costume, e como de costume pediu os bolinhos de queijo. Para seu mais profundo terror, ouviu:
- Hoje o fornecedor não virá. Só amanhã.
Sentiu como se um tijolo maciço tivesse acertado-lhe a testa. Aquilo jamais havia acontecido antes.
- Só amanhã? Só amanhã? Como irei sobreviver? - desesperou-se Terezinha.
A musculatura endurecida pelo choque e os calafrios que corriam por sua espinha quase não a permitiam andar. Suava de ansiedade e não mais havia unhas a roer em seus dedos.
Bem que seus amigos disseram que um dia isso poderia acontecer, mas ela nunca lhes deu ouvidos.
Aquelas se tornariam as vinte e quatro horas mais longas de sua vida. A angústia lhe parecia insuportável.
- E se eles não vierem amanhã também? - torturava-se Terezinha.
Os segundos se arrastavam e com eles levavam o pouco que ainda sobrava de sua sanidade. Terezinha já não distinguia as coisas corretamente. Começava a ter alucinações. Via bolinhos de queijo pela casa toda, e quando, desesperada, tentava mordê-los, acabava sempre com um pé de cadeira ou um cinzeiro entre os dentes.
A cada barulho de caminhão que ouvia, corria enlouquecidamente para a janela rezando para ver aquelas quatro sílabas estampadas no veículo: Le-gí-ti-mo. E por inúmeras vezes fez isso.
Quando enfim chegou o outro dia, Terezinha encontrava-se transformada em um bagaço humano. Ninguém a reconheceria por detrás daquelas olheiras e daqueles cabelos desgrenhados. Sua dependência por bolinhos de queijo havia tornado-se tão profunda e sua necessidade imediata por cravar os dentes em alguns deles tão forte que Terezinha já não raciocinava mais, tampouco dizia coisa com coisa. Saíam somente grunhidos de sua boca e, entre um ranger de dentes e outro, podia-se ouvir: "BO...runagagbn...LI...grauunnhannram...NHO". Era uma cena realmente horrível.
Mas então, para alívio de seus amigos e parentes, o caminhão da Legítimo chegava e trazia consigo a preciosa cura para os males de Terezinha, ao menos para aquele dia. Ao ouvir o inconfundível som, Terezinha saltou de sua cama, driblou aqueles que tentaram segurá-la e saiu enlouquecidamente rua a fora. Derrubou as pessoas que passavam na calçada e atirou-se no meio do trânsito. Jogou seu psicótico corpo em cima do caminhão e abriu uma bocarra como se desejasse devorar o veículo.
O motorista, apavorado, girou rapidamente a direção para a esquerda na tentativa de desviar da maníaca criatura. Mas a sorte de Terezinha já estava selada. O caminhão tombou e bateu com sua carroceria em Terezinha, que foi arremessada às alturas como se fosse uma bola de vôlei em um saque jornada nas estrelas.
Enquanto Terezinha voava pelos ares como uma boneca de pano, o caminhão da Legítimo capotava e liberava sua carga pelo asfalto, formando um enorme monte. E, em cima daquele monte de bolinhos de queijo, Terezinha tombou.
Todos os que por ali passavam tentaram ajudá-la, mas não havia nada o que fazer.
E naquela hora, em cima daquela pilha de bolinhos de queijo, Terezinha esboçou um sutil sorriso e morreu, segundo suas próprias palavras, feliz.
postado por: EDMUND BONAPARTE 4:43 AM
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Quarta-feira, Junho 11, 2003
Sopaterapia
Sim, é verdade. Eu sou um lunático. Mas não um lunático qualquer, daquele tipo que rasga dinheiro e come excrementos. Nunca encontrei um bom motivo para empreender tais ações, ao menos até agora. Porém, em minha nunca monótona existência, já fiz muitas coisas que seriam consideradas ilógicas. A última delas foi tomar sopa com garfo.
Não o fiz por estar afligido por alguma demência ou psicose. Meus objetivos em realizar esse ato foram puramente científicos e exploratórios.
De muitas fontes já tinha ouvido que tomar sopa com garfo é uma impossibilidade física, e de muitas bocas já tinha escutado essa expressão como forma de comparação com um feito considerado impossível. A despeito de todos os testemunhos, eu não acreditava em tal limitação. Cria, do fundo de meu ser, que poderíamos tomar nossa sopa do jeito que mais nos agradasse. Eu simplesmente não podia permitir que um mito ou um tabu impedisse a humanidade de se alimentar com suas sopas da forma e com os utensílios que mais lhe aprouvesse. Eu precisava tomar uma atitude e provar para o mundo que, sim, era possível tomar sopa com garfo!
Esfuziante em meus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, cedo preparei uma sopa e imediatamente pus em prática minha teoria. Passei a tomar meu nutritivo caldo com um garfo, e por muito tempo o fiz. Resolvi não cronômetrar a duração da experiência, pois, afinal, o tempo é só uma manifestação psicológica de nossa consciência linear e tal característica certamente não influenciaria na resposta da minha inquietante dúvida: "Pode-se ou não tomar sopa com garfo?"
Pois bem, hoje afirmo que sim, pode-se tomar. No entanto, muitas coisas devem ser ditas sobre essa conclusão e muitos aspectos do ato precisam ser compreendidos antes de executá-lo.
Muito embora a dificuldade em se tomar sopa com garfo seja extrema e o insignificante progresso que se obtém em cada garfada seja desanimador, a obra é perfeitamente realizável, sendo, pois, falso o mito, e infundado o tabu.
Contudo, devido ao enorme esforço do repetitivo movimento e do lento e penoso progresso inerente à técnica garfal, tomar o referido caldo com o referido instrumento acaba por despender uma tão notável quantidade de energia que, se a sopa não for alucinadamente calórica, todas as calorias do alimento serão imediatamente gastas no desempenho da tarefa, tornando o saldo energético igual a zero. Em outras palavras, nunca se engordará tomando sopa com garfo.
A bem da verdade, como o indivíduo termina sua refeição com a mesma quantidade de calorias com as quais começou, ele seguramente emagrecerá no decorrer do dia, devido ao consumo energético em suas outras atividades diárias.
Pode-se então facilmente concluir que, além de um excelente exercício aeróbico, tomar sopa com garfo proporcionaria uma forma fácil, rápida e barata de perder peso.
Deve-se, no entanto, atentar bem para os possíveis efeitos colaterais do procedimento. É absolutamente imprescindível que o indivíduo que resolva adotar essa técnica tenha certeza que possua o domínio emocional e físico necessários para o perfeito desempenho da tarefa antes de iniciá-la.
Domínio emocional, porque se o indivíduo, frustrado com a aparente ineficiência que o garfo apresenta em levar o alimento à boca, perder o controle e encher-se de ira, poderá descarregar todo o seu fracasso nos objetos de sua residência ou nas pessoas mais próximas, o que seria verdadeiramente lamentável.
E, finalmente, domínio físico, porque o indivíduo, se não possuir a mínima coordenação motora requerida para a correta execução das repetitivas e velozes manobras com o garfo, certamente infligirá sérios danos à sua face, podendo mesmo ter um olho arrancado de sua órbita na alucinada tentativa de se alimentar, o que seria igualmente lamentável.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:17 AM
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Terça-feira, Junho 10, 2003
Falando Com Cerimônia
Ontem recebi o convite para uma formatura de uma amiga. Certamente irei, mas em outra época eu pensaria duas vezes antes de concordar.
Durante muito tempo não compreendi a estranha necessidade de realizar cerimônias, ou qualquer outra espécie de reunião solene, que nossa espécie parecia possuir. Sempre apreciei a simplicidade e a agilidade na condução das situações, de forma que me sentia extremamente deslocado e angustiado quando de alguma delas eu era obrigado a fazer parte.
Nas formaturas, ao invés do formando ficar em frente a centenas de pessoas e sob a mira de bisbilhoteiras câmeras por horas somente esperando a sua vez de gaguejar e esquecer as palavras, era, para mim, muito mais atraente a idéia de ir ao gabinete do diretor ou do reitor e, num rápido aperto de mãos, receber o diploma, que, afinal de contas, é o real objeto do desejo do formando.
Toda aquela pompa e aqueles discursos seriam, em minha antiga visão das coisas, somente um dispendioso e angustiante atraso no cronograma. Todavia, a simples menção da idéia de não participar de tais festividades parecia arremessar as almas viventes em profundo desespero e agonia.
Estaria faltando com minha consciência caso dissesse que entendo o doentio prazer de se arregaçar em discursos emocionados, alucinados, envergonhados, inusitados, simpáticos, amaldiçoados, antiquados, inflamados, esmerados (ainda estou sob influência do post de ontem), ou de qualquer outra categoria nas quais os discursos possam ser classificados, sejam eles ótimos ou péssimos. Mesmo assim, passei a compreender um pouco melhor a função da solenidade para nossa sanidade individual e coletiva.
Ao contrário do que normalmente é difundido de geração em geração, as solenidades não são festinhas bonitinhas das quais nunca mais nos esqueceremos e que, com lágrimas nos olhos, contaremos aos nossos netinhos. Pode ser até que isso tenha sua parte no significado, mas o real valor das cerimônias é bem mais profundo, quase alucinado.
Quem, ao olhar um terreno baldio, nunca percebeu que em poucos dias, por mais vazio e limpo que estivesse, ele passou a conter todo o lixo da vizinhança? Quem nunca observou uma casa que, ao ser abandonada, passou a conter toda a imundície e a abrigar a escória da humanidade dentro de seus limites?
Existe um potencial para a desordem em todo ser humano, e esse potencial não se aplica somente a guerras e a violência. Esse terrível instinto costuma manifestar-se mais sorrateiramente, quando o indivíduo não consegue perceber o devido valor em cada coisa, material ou abstrata.
No caso das formaturas, a solenidade traria um sentido maior ao diploma e à instituição que o fornece. Seria como dizer: "Prestigie esse indivíduo e trate-o com respeito e consideração, pois seus esforços estão sendo oficialmente reconhecidos!".
Um pedaço de papel e uma cerimônia não trariam prestígio e reconhecimento a ninguém que não o merecesse, tampouco transformariam essa pessoa em algo que ela já não fosse. No entanto, a cerimônia incute no consciente e no subconsciente da coletividade uma duradoura admiração e um respeito pelas pessoas e pelas instituições humanas, e tal sentimento retorna à coletividade na forma de ordem e bem-estar social. É equivalente a pôr um bonito muro, bem construído e bem pintado, em frente ao tal terreno baldio: ninguém mais atiraria suas porcarias domésticas nele, simplesmente por que o belo muro lhes diz que aquele terreno tem valor, mesmo que não pareça.
Essa foi a revelação que tive sobre esse assunto. Depois disso, passei a entender o porquê dos juízes e desembargadores andarem com roupas estranhíssimas e com ares de sacerdotes, o porquê de todos os protocolos oficiais e seus aparentes excessos, enfim, o porquê de tantas solenidades. Todas essas cerimônias têm por finalidade conscientizar-nos - mesmo que subliminarmente - da importância e da seriedade dos indivíduos e das instituições envolvidas, garantindo assim a manutenção da ordem e do progresso social.
Percebi que, por mais alucinadas e desprovidas de sentido que possam parecer, é muito melhor com elas do que sem elas. A não ser, é claro, que tenhamos uma queda pelo caos.
Portanto, desde que tive essa revelação, nunca mais enfrentei problemas com solenidades de qualquer ordem.
Hoje, quando convocado, eu as freqüento por amor à pátria.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:07 AM
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Segunda-feira, Junho 09, 2003
Para Encurtar A Conversa
Comparando os últimos posts que escrevi com os primeiros, reparei que a cada dia venho escrevendo textos maiores. Até onde, eu me pergunto, poderei ir desse jeito? Chegaria certamente o dia, em um futuro talvez não muito distante, em que meu texto seria tão grande, mas tão grande, a memória em meu computador que ele ocuparia seria tão elevada, mas tão elevada, e o esforço mental para tentar lembrar de tudo o que escrevi seria tão desgastante, mas tão desgastante que, com certeza, ficaríamos travados eu e meu computador. E isso não me traria encanto.
Por esse motivo, hoje tentarei ser breve e objetivo, conciso e lacônico, exato e resumido, preciso e abreviado. Não prolixo.
Tentarei, com todas as minhas forças, não ser extenso, amplo, vasto, abundante ou ilimitado.
Buscarei desesperadamente a definição, a acepção, a interpretação, o valor, o sentido e o significado.
Não me deixarei cair em redundâncias, difusões, superfluidades, excessos, inutilidades e pleonasmos.
Fixarei meu objetivo na clareza, na nitidez, na limpidez, na transparência, na diafaneidade e na inteligibilidade.
Não utilizarei truques, ardis, arapucas, artifícios, artimanhas, armadilhas, ciladas, emboscadas e estratagemas.
Procurarei ser puro, correto, imaculado, genuíno, inocente, incontestável e irrepreensível.
Mas se não conseguir, certamente ficarei fulo, zangado, amolado, irritado, aborrecido, apoquentado, encolerizado, amofinado e exacerbado.
Mas vou parando por aqui antes que vocês fiquem nauseados, repugnados, ansiados, repulsados, aflitos e agoniados.
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:58 PM
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Domingo, Junho 08, 2003
Diretamente de nosso departamento de mitos confusos e de alegorias duvidosas:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
Quando As Fábulas Se Embolaram
Há muito tempo, quando os animais falavam e as cobras tinham pernas, havia um pobre lenhador que trabalhava para a madrasta da Branca de Neve, a rainha má (que, por sinal, muito mal lhe pagava).
Certo dia, João e Maria, seus filhos, foram ao bosque à procura de frutinhas silvestres. Seguiram pela estrada de tijolos dourados até tropeçarem em uma tartaruga que disputava uma corrida com a lebre. Quando enfim pararam para colher as frutinhas, um agitado coelho segurando um enorme relógio de bolso e aos gritos de "Estou atrasado! Estou atrasado!", passou como uma flecha e alertou as crianças sobre o monstruoso gigante que despencava de um enorme pé de feijão.
Correndo por suas vidas, entraram mais fundo no bosque, onde nunca haviam estado. E, após serem assaltados pelos quarenta ladrões e terem seus pertences devolvidos por Robin Hood, as crianças seguiram pela mata por um atalho que o Lobo Mau lhes havia indicado. Ao passarem pelo lago, ajudaram um pobre patinho feio a descobrir sua verdadeira mãe, a dona Cisne, e lhe indicaram um bom psicólogo para tratar do seu trauma de infância.
Satisfeitos com a boa ação, continuaram a caminhada e chegaram a uma cidade onde o rei, alegando vestir uma roupa mágica, desfilava nu pelas ruas. Aterrorizados com a hedionda visão, saíram correndo sem olhar para trás.
Quando perceberam, estavam completamente perdidos, sozinhos e mortos fome. Procuravam por comida quando, à meia-noite, uma carruagem, que por ali estava, transformou-se em uma enorme abóbora, o que saciou parcialmente seus insaciáveis apetites.
Pela manhã, subiram em um tapete mágico que um gato de botas lhes havia vendido e, descontroladamente, chegaram no palácio do Mágico de Oz. Tentaram falar com alguém, mas estavam todos dormindo, enfeitiçados com um sono de cem anos. Sem tempo para esperar, João e Maria esfregaram a lâmpada mágica, que haviam comprado junto com o tapete, e dela saiu um leprechau que os levou para o final do arco-íris.
Mais perdidos do que nunca e aos prantos, foram socorridos por uma menina de chapeuzinho vermelho que levava doces para a vovozinha, e que lhes mostrou o caminho de volta. No retorno para casa, comeram um mingau na casa dos três ursos, alertaram os três porquinhos sobre o perigoso Lobo Mau e seu hálito destruidor e deram uma força para a Rapunzel, que estava bastante enrolada com suas tranças.
Por fim, chegaram em casa somente com uma galinha que haviam achado pelo caminho. Mais tarde descobriram que ela botava ovos de ouro, o que proporcionou total independência financeira para a família e permitiu que o lenhador se antecipasse aos sete anões e atirasse a rainha má penhasco abaixo, coisa que há muito sonhava fazer.
E todos viveram embolados, mas felizes para sempre.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:06 PM
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Sábado, Junho 07, 2003
O Poder Da Encruzilhada
Hoje, ao ver dois carros quase se destruírem em um cruzamento a poucos metros de minha casa, reservei alguns momentos para pensar sobre o assunto.
Não gosto de esquinas, principalmente quando elas se juntam e formam cruzamentos. Considero-os, como escrevi outro dia, poderosos ímãs para o comportamento imprevisível. Vejo-os como senhores das situações inesperadas. Furiosos defensores do comportamento errático e dos resultados catastróficos.
É bem verdade que eles podem não ser tão medonhos quanto eu imagino que sejam, mas não creio nisso.
Quem já ficou alguns minutos a contemplar uma dessas criaturas, sabe que, por mais bem sinalizados que estejam, por mais bem iluminados, por mais má fama que possuam, ainda assim os cruzamentos arrebanham suas vítimas com uma voracidade selvagem.
Seu poder sobre as mentes dos indivíduos motorizados é tão intenso, que até uma enorme placa e seu bem visível "PARE" estampado parece não surtir efeito algum. Mesmo quando o referido alerta é pintado em garrafal letreiro com tinta refletiva no asfalto, os indivíduos, entorpecidos pelo maligno magnetismo dos poderes da encruzilhada, atiram-se, desesperados, em direção ao desconhecido, sem olhar para os lados, como se suas vidas dependessem desse enlouquecido ato.
Chego mesmo a afirmar que, no momento da travessia, o motorista, ao ler as advertências, é impiedosamente levado a entender: "AVANCE!", "ACELERE!", "SIGA EM FRENTE!".
Refletindo sobre as mais básicas causas desse fenômeno, cheguei à conclusão que o poderoso controle mental dos cruzamentos sobre o cérebro humano tem sido incrementado pela tendência ultraliberal da educação moderna. Atualmente o "não" já perdeu muito de sua autoridade, e o "sim" passou a dominar a vida das pessoas em um nível bem mais profundo. Poucos aceitam um não como resposta nos dias de hoje. Tornou-se hábito comum considerar toda negação como um ato autoritário e que portanto deve ser combatido ou ignorado.
Uma pessoa permeada por essa rebelde filosofia, deparando-se com um imenso "PARE" em sua frente, torna-se uma vítima indefesa do abominável poder da encruzilhada, que seguramente lhe incentivará de tal forma a pirraça a ponto de fazer com que a vontade de infringir supere o poder do raciocínio e do bom senso, tornando o que seria uma mera tendência pela indisciplina em uma compulsão irrefreável. O resultado é bastante previsível. Creio que o termo "roleta-russa" seria bem aplicado.
Existe uma outra entidade chamada "semáforo", também conhecida como "sinal", "sinaleira", "farol", entre outros nomes, dependendo da região. Esse ser multicolorido, sempre posto em posição de destaque, parece interferir de forma mais aguda - ainda que limitada - sobre o poder da encruzilhada, dando maior chance de sobrevivência aos rebeldes motoristas. Talvez o faça pelo seu apelo visual, talvez por não apresentar nenhuma ordem escrita, eu não sei. O certo, é que eu sempre paro, ou no mínimo desacelero significativamente, e olho para ambos os lados antes de atravessar. Para ser mais exato, costumo olhar para cima e para baixo também. Nunca se sabe quando uma encruzilhada resolveu inovar.
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:24 PM
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Sexta-feira, Junho 06, 2003
Eu E Eu Mesmo
Estava eu hoje pensando sobre o que escrever nessas linhas, quando percebi que havia uma pequena interferência de mim mesmo sobre meus pensamentos. Na realidade, a interferência não era minha, e sim minha, do meu outro eu. Novamente a questão da minha dupla personalidade vinha à tona e ameaçava atrapalhar-me grandemente em meus desígnios alucinados.
/# Não seja tão melodramático, Edmund! Não estou interferindo em nada, só dando uma olhadinha no que você está fazendo.#/
Viu? Era disso que eu falava! Agora o Edmund (o outro Edmund) resolveu meter-se no meu texto sem pedir licença!
/# Muito bonito ficaria para nós se alguém visse você pedindo licença para si mesmo! Quer que pensem que somos malucos? #/
Fica impossível escrever com tamanha perturbação.
/# Agora virei perturbação, né? Quando eu estava lavando a louça que você deixou na pia não percebi que estava lhe perturbando tanto. #/
Torna-se particularmente difícil argumentar quando a perturbação utiliza golpes baixos para justificar seus atos.
/# Que atos Edmund? Eu só estou aqui lendo seus textos e dando as minhas opiniões. Também tenho direito de me distrair um pouco. Ou você acha que só encontro felicidade limpando a sujeira que você tão eficientemente cria? #/
Por favor, não pense que não reconheço os seus esforços, somente acho que você não deveria interferir no meu texto, pois já se faz tarde e não estou conseguindo concentrar-me para escrever algo em meu diário.
/# Tem que concentrar, é? Não sei não. Talvez pudesse escrever sobre aquela vez que você ridiculamente se estatelou lá na entrada do planetário e ficou vendo estrelas antes da sessão começar. Ou sobre aquela vez que você tropeçou naquela máscara mortuária lá no museu, se lembra? Ou sobre aquele mico que você pagou... #/
Chega! Chega! Está certo, Edmund, você venceu, você venceu. Sobre o que você quer que a gente escreva?
/# Olha, você sabe que esse negócio de escrever não faz muito o meu gênero, por isso eu deixo essa missão para você. Eu aprecio muito uma boa leitura. #/
Puxa, muito obrig...
/# Por isso eu acho que a gente deveria ler algum livro do Machado de Assis, ou do Jorge Amado. Ler alguma coisa boa para variar, o que acha?#/
(cinco segundos de silêncio)
Eu estava realmente pensando era em escrever algo em meu diário. Isso, é claro, se você, o Machado de Assis e o Jorge Amado não se importarem.
/# De forma alguma! Vá em frente, meu amigo! Como eu disse, gosto muito de ler. Eu leio qualquer coisa, até as suas memórias. #/
Muito obrigado, muito obrigado mesmo. Você gostaria de me ofender em algum outro aspecto antes de me deixar continuar?
/# Não, não. Era só isso mesmo. Pode ir em frente. Vai lá, continue. #/
Bem, onde foi que eu parei mesmo...
/# Você está perguntando para mim? #/
Não, Edmund, eu estou falando comigo mesmo. Não tem nada a ver com você!
/# Você está me assustando, Edmund! Desde quando você começou a falar sozinho? #/
Posso, por favor, continuar?
/# Claro! É óbvio! Ninguém o está impedindo. É que você falou comigo e eu respondi. Isso se chama educação. Se alguém fala comigo, eu respondo. Mas se você quer começar a falar sozinho, pelos menos avise antes, daí eu não respondo. Mas vá lá, continue, continue. #/
Já vi que hoje não será possível. Não vou conseguir concentrar-me desse jeito. Vou parar por aqui e amanhã, quando você estiver dormindo, eu escrevo.
/# Eu não quero assustá-lo, mas eu ando com uma insônia violenta ultimamente. Não sei se vou conseguir dormir. #/
Então pelo menos fique quieto e vá contar carneirinhos.
/# Eu já tentei. Fiquei contando até altas horas da madrugada, mas de vez em quando um carneirinho errava a cerca e se estatelava no chão. Então eu era obrigado a começar tudo de novo. Isso estava me dando nos nervos a tal ponto que acabei por perder o pouco do sono que tinha. #/
Tudo bem, Edmund. Fique com os seus carneirinhos desengonçados, porque agora quem vai dormir sou eu.
/# Está certo. Só não se esqueça de esvaziar bem essa bexiga. Você bebeu um monte de água e sabe como é a história, né? Eu não estou com muita vontade de me acordar todo mijado amanhã. #/
Eu mereço isso... Acho que reguei algum jardim com água benta quando era criança...
Até amanhã, se eu me permitir.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:07 AM
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Quinta-feira, Junho 05, 2003
O Que O Futuro Reserva
É impressionante o que a vida moderna nos obriga a agüentar, caso queiramos continuar a fazer parte dela. Não bastassem as inúmeras geringonças com as quais temos que lidar diariamente em nossas casas e em nossos ambientes de trabalho, todas elas vêm, e você pode apostar seus dentes nisso, com seus respectivos controles remotos. Tudo hoje em dia tem controle remoto. Nada mais é projetado para existir sem o seu devido controle remoto.
Parece que nossa civilização finalmente encontrou o objeto pelo qual pode exteriorizar os seus mais básicos instintos de domínio sobre o meio-ambiente. Sim, aquela pequena caixinha cheia de botões que costuma espalhar o pânico e o desespero entre os nossos pais e avós não é nada mais do que o símbolo máximo do poder do homem sobre a natureza. Nos dias de hoje você somente se levanta de sua poltrona para trocar o canal de seu televisor caso deseje fazer isso como algum tipo exótico de esporte. É a derradeira vitória do sedentarismo hi-tec.
Você poderia alegar que o controle remoto é desnecessário, e somente o utiliza aquele que deseja utilizá-lo, e na hora que deseja utilizá-lo. E eu diria que não é bem assim a história. Nos controles remotos atuais existem uma infinidade de comandos e operações, enquanto que nos aparelhos por eles controlados estão presentes somente as funções mais básicas e indispensáveis. Dessa forma, quem não quiser usar somente 8,35% do potencial de seu equipamento, obrigatoriamente terá que fazer uso do respectivo dispositivo de controle remoto.
Entretanto, o que me alucina não é isso, ou pelo menos não somente isso. Como normalmente temos mais de um equipamento eletrônico em nossas residências, certamente teremos mais de um controle remoto para manusear. Nos próximos anos esse panorama irá ampliar-se exponencialmente. Tudo, absolutamente tudo, com alguma eletrônica embutida trará consigo o seu controle remoto. Existirão tantos controles remotos em nossos lares que, apavorados, perguntaremos a nós mesmos onde poderemos enfiá-los. Certamente não gostaremos da resposta, mas teremos que encarar a realidade.
Atualmente costuma-se fazer uso de um controle remoto universal que, segundo os fabricantes, atenderia às necessidades de controle de uma gama desgraçadamente enorme de equipamentos. Quem os possui sabe que o stop é mais embaixo e que a vida não é tão simples assim. Certamente eles não são úteis em todos os equipamentos que já vieram ao mercado, e certamente não serão para muitos daqueles que virão (Ah, meu amigo! E eles virão).
Eu acredito que em um futuro próximo nós teremos somente um controle remoto, e ele ficará bem no meio de nossa testa. Bem, na realidade ele ficará acoplado em alguma parte do nosso cérebro e se comunicará com o exterior através de um pequeno emissor infravermelho que, esse sim, ficará bem no meio de nossa testa (muito parecido com aquele sinal na testa da ex-BBB Sabrina), o que será possível graças às revolucionárias técnicas médicas que o futuro trará (Ah, meu amigo! E ele trará).
Quando esse futuro vier, teremos o íntimo controle não somente sobre os nossos eletrodomésticos, mas também sobre o alarme de nosso automóvel, sobre a porta de nossa garagem, sobre os caixas automáticos das agencias bancárias, poderemos até pagar nossas contas em um simples piscar do olhos (literalmente falando). Enfim, teremos cerebral controle sobre uma imensidão de outras possibilidades tecnológicas ainda não existentes, mas que a imaginação humana inventará (Ah, meu amigo! E ela inventará).
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:08 AM
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Quarta-feira, Junho 04, 2003

A Evolução Das Coisas
Começo da noite. Chego cansado em casa e vou logo tomar um bom banho. Dessa vez cuido muito para que não me caia xampu nos olhos, pois, como sou muito sensível àquele líquido, sempre que isso acontece fico com os olhos do E.T. de Varginha, coisa que não me proporciona encanto.
Acabado o ritual de depuração física (sim, para um lunático o banho é um ritual repleto de normas e preceitos que devem ser seguidos à risca) visto algo confortável e parto para aberta agressão contra os Sucrilhos. Sou simplesmente viciado em Sucrilhos, pelo menos ultimamente. Digo isso, porque, como todo o lunático, meus hábitos vivem muito pouco e minhas manias não perduram. Dentro de alguns dias provavelmente eu os odiarei do fundo de minh'alma (eu poderia dizer "do fundo de minha alma", mas então a expressão provavelmente não carregaria o peso emocional de meu futuro ódio).
Depois, de banho tomado, confortavelmente acomodado em meu ridículo pijama e com o estômago devidamente atendido em suas necessidades, passo para a fase dois de minha existência intra-residencial, que é a de encontrar algo realmente atrativo para fazer. Normalmente vou escrever algo no computador, como estou fazendo agora. Em outras ocasiões, deixo esse literário exercício para mais tarde e vou assistir aos filmes ou documentários na televisão, ler um livro, ou mesmo retorno ao mundo exterior à procura de algum lugar interessante para conhecer. Obviamente que se a minha opção é sair de casa por algumas horas eu sempre procuro trocar o pijama por uma roupa mais apropriada antes de pôr os pés na rua.
Ontem fiquei com a segunda opção. Fui assistir um documentário na televisão. Ele mostrava a evolução das espécies e a própria evolução da humanidade. Mesmo sabendo que era um documentário, perturbou-me grandemente, não posso negar, ouvir tantos cientistas falando de suas famílias e de como elas descendiam dos macacos.
Digo isso, porque não acredito que tenhamos evoluído. Sim, eu sei, nossa espécie e as atuais espécies de primatas descendem de um antepassado comum, um pré-macaco peludo de tempos imemoriais. Entretanto, o que me incomoda não é essa antiga história familiar, e sim o fato de afirmarem que todos somos (e aí incluo todas as espécies desse planeta) evoluções de criaturas mais primitivas e, por conseqüência, mais atrasadas.
Não acredito na evolução das espécies. Pelo menos não somente na evolução. Acredito sim em uma adaptação das espécies, sendo que algumas evoluíram em suas capacidades e outras regrediram. Dizer somente "evolução" para representar a sucessão da vida por esse planeta poderia transmitir a idéia de que somos melhores simplesmente porque somos modernos. Isso é algo que minha mente reluta em aceitar. Parto em defesa dos fósseis discordando dessa abordagem preconceituosa.
Consideramo-nos superiores por nossa capacidade mental e humilhamos os antigos habitantes desse mundo, sem lembrar que inúmeras espécies sobreviveram por milhões de anos até serem extintas, enquanto nossa espécie perambula por aí a menos de duzentos mil anos. A bem da verdade, nem sei dizer se sobreviveremos por mais cem anos. O mais provável é que nossa civilização seja extinta pelas nossas próprias mãos, pois somos inteligentes o suficiente para fazer isso, e burros demais para evitar fazê-lo.
Não é que eu não acredite na evolução de nossa espécie, eu até acho que é bastante razoável crer que são excelentes as chances da humanidade evoluir, isso no caso de não se acreditar em estatísticas.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:20 AM
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Terça-feira, Junho 03, 2003
O Proveito Da Insanidade
A grande vantagem em ser um lunático, como disse o
Tors em seu comentário no post anterior, é a possibilidade de usar e abusar das licenças poéticas sem receber maiores represálias. Você pode ouvir de tudo através da boca de um lunático e ainda sentir alguma vontade de parar para refletir, ainda que não admita isso publicamente.
Fosse um alto membro de nossa sociedade a falar estultícias, ele logo estaria imobilizado por uma camisa de força e trancado dentro de uma salinha acolchoada, provando de umas balinhas coloridas de seis em seis horas. Todavia, mesmo sem pedir licença, a cabeça de um lunático não encontra maiores obstáculos em sua insana obsessão pela comunicação.
Para ser mais exato, ele encontra nos obstáculos grande parte de sua motivação. A explicação é bastante simples: um lunático, por estar tão ciente de sua enorme distância em relação à perfeição, sempre acaba por se tornar um perfeccionista, na enlouquecida tentativa de se aproximar do que considera o ideal. Obviamente, ele sempre fracassa desesperadamente. Todavia, tal fato não parece abatê-lo, talvez por nem tomar consciência dele ou mesmo por não considerar mais importante o fim do que o meio, de forma que tudo o que deseja é aproveitar a imensa aventura que é partir em sua busca de sua ilusão. Se alcançá-la, melhor. Ou não.
Enfim, ser um lunático é diariamente perguntar-se:
- Por que almoçamos ao meio-dia, mesmo quando estamos sem fome? Por que, mesmo depois de considerados altamente eficazes na redução do número de mortos e de feridos em acidentes de trânsito, os airbags não são obrigatórios em todos os veículos? Por que aceitamos o CPMF há tantos anos sem promover nenhum quebra-quebra em protesto, visto que ele foi concebido para ser somente um imposto provisório? Por que o mar vermelho não foi, não é e provavelmente nunca será vermelho?
O grande prazer de um lunático é perguntar e questionar-se sobre tudo, a toda hora. Obter ou não uma resposta parece não fazer muita diferença. Mas como sou um lunático, não posso afirmar categoricamente.
postado por: EDMUND BONAPARTE 2:18 PM
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AVISO AOS NAVEGANTES
Caros visitantes,
Com o passar do tempo, o somatório da seqüência de insignificantes progressos que experimentei em meus conhecimentos de HTML acabou por constituir a necessária capacidade (ainda que mínima) para proporcionar algumas benfeitorias bem vindas, em boa hora e de bom grado a esse blog.
Sempre foi mola motriz de enormes constrangimentos saber que muitos dos tão valorosos visitantes que penetram nessas regiões alucinadas já haviam posto, em seus respectivos blogs, links para essa página sem que eu pudesse retribuir a imensa cordialidade dessas ações.
Assim sendo, empenhei-me arduamente na tarefa de consertar esse terrível deslize oriundo da frustrante ignorância que me acometia.
O novo link à esquerda abriga, no momento, os blogs daqueles que já tomei conhecimento que possuem links para essa página, entre outros que considerei igualmente interessantes. Não me foi possível pesquisar mais profundamente e tomar conhecimento de todos os que já haviam lincado esse blog. Portanto, caso seu blog não tenha sido identificado e não conste na lista, ou caso deseje "trocar figurinhas" deixe um comentário ou mande um e-mail avisando-me, que prontamente irei acrescentá-lo.
Alucinadas saudações,
Edmund Bonaparte.
P.S.: Teoricamente isso é um post. Entretanto, é, para mim, significativamente difícil vê-lo dessa forma. Acredito que mais tarde irei postar algo que satisfaça as minhas alucinadas necessidades psicológicas.
postado por: EDMUND BONAPARTE 3:34 AM
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Segunda-feira, Junho 02, 2003
Diretamente de nosso departamento de mitos morais e alegorias sociais:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
Edmund No País Das Falcatruas
Era uma vez um reino onde, mesmo não sendo o da Dinamarca, havia algo de podre. E o rei vivia tão preocupado com a decadente situação de seu reino, que buscou uma solução em todos os lugares onde sua imaginação alcançou. Mas a cada dia o povo ficava mais e mais corrupto.
Enquanto a corrupção residia somente na corte, pensou o rei, a vida era boa e muito sobrava para que os nobres repartissem os frutos da terra entre eles. Agora que a plebe os imitava e a desonestidade encontrava-se enraizada desde o maior até o menor, o sistema não mais funcionava, a pobreza era enorme, e se locupletar não era mais possível.
Acreditava o rei que algo deveria ser feito imediatamente para que o povo retornasse à sua decência e a nobreza à sua opulência. Somente com bons exemplos de retidão de caráter, imaginou ele, o povo iria lembrar-se da honra e da honestidade novamente. A questão era: onde encontrar alguém que pudesse proporcionar bons exemplos?
Há décadas que ninguém mais ouvira falar de virtudes, e a tentativa de as encontrar seria considerada uma missão impossível por qualquer ser minimamente racional. Onde encontrar um ser humano íntegro naquela terra corrompida? Existiria ainda tal alma vivente? Quem seria lunático o suficiente para se arriscar a sair pelo mundo em busca desse quimérico sonho? O rei, entendendo a situação, convocou o único ser na corte que aceitaria a impraticável incumbência sem questionamentos: Sir Edmund.
E Sir Edmund, o errante cavaleiro das causas alucinadas, errou por todas as terras do reino à procura do salvador moral de sua nação. Ele errou pelo norte, e errou pelo sul, errou a leste e errou a oeste. E por que não dizer, errou também a sudoeste, e a nordeste, e errou a noroeste e a sudeste. A bem da verdade, não ouve direção da rosa dos ventos por onde não houvesse errado Sir Edmund.
Por fim, cansado de tanto errar, Sir Edmund pôs-se por um minuto a meditar:
- Macacos me mordam! Certamente não existe tal criatura! Eu provei isso! Não houve homem, mulher ou criança nessa terra depravada que não tentou aproveitar-se da situação para lucrar. Somente as crianças muito pequenas não tentaram nenhuma cafajestice. Certamente tentarão mais tarde, quando crescerem e observarem seus pais e irmãos.
Abatido e sem perspectivas de completar sua missão, Sir Edmund pôs-se em retorno ao castelo. Não havia alternativa senão dar as más novas ao rei. Pelo caminho, foi observando mais atentamente as pessoas e se espantando com o medo que seus semelhantes pareciam possuir uns dos outros. Todos se julgavam incrivelmente espertos, mas todos viviam incrivelmente mal. Hoje Fulano enganava Beltrano, amanhã Beltrano enganaria Cicrano, e depois de amanhã Cicrano enganaria Fulano, e nesse círculo interminável de falsas espertezas, os indivíduos acabavam por perder o pouco que tinham, e a cada dia tornavam-se mais infelizes.
Durante alguns dias do ano, entretinham-se com uma festa chamada "valcarna", onde todos dançavam, cantavam, pulavam, bebiam e praticavam todos os mais desesperados atos carnais na inútil tentativa de se esquivarem de suas aflições diárias.
Mas Sir Edmund, que não entendia nada disso, estava triste simplesmente por não ter achado o remediador das aflições de seu povo. Sabia que o rei ficaria imensamente decepcionado, mas não havia nada a ser feito senão lamentar.
Ao chegar no castelo, notou Sir Edmund que as bandeiras estendidas nos postes não eram as de seu país, tampouco as pessoas que estavam no castelo eram suas conhecidas. Sir Edmund havia ficado fora por tanto tempo em sua enlouquecida cruzada que não percebera que profundas mudanças haviam sido operadas.
Os nobres, prevendo o caos iminente e tentando salvar os seus obesos traseiros, venderam o que sobrou de sua pátria aos ambiciosos reinos estrangeiros e, munidos com suas fortunas dessa forma adquiridas, partiram para viver suas vidas em outras nações mais evoluídas.
Sir Edmund, o atordoado cavaleiro que não sabia manter sua boca fechada, foi levado ao manicômio do estado sob alegação de sofrer de delírios psico-sociais, e passou seus dias a desenhar e a pintar (o que não considerou de todo o mal).
Ao povo coube continuar na miséria, na violência e no desespero, obedecendo aos seus novos dirigentes (que não mudaram muito em relação aos anteriores). E assim viveram por sei lá eu quanto tempo mais.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:34 PM
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Domingo, Junho 01, 2003
O Dia Em Que A Casa Quase Caiu
Ontem eu estava proporcionando uma reestruturação organizacional em minha residência, quando o meu criado-mudo - que não é meu criado e que tampouco é mudo - perguntou-me:
- Edmund, o que você vai fazer com aquelas tralhas dentro do armário? Está juntando papel pra vender por quilo? E aqueles livros velhos que estão na estante? Você está fazendo algum tipo de criação de traças? Não sei se você notou, mas os tapetes precisam desesperadamente de uma aspirada. A não ser, é claro, que você esteja deixando juntar bastante terra pra fazer uma horta.
Nada mais inconveniente do que um criado-mudo tagarela e sarcástico. Não dei muita atenção e continuei com o que eu estava fazendo.
Alguns instantes depois, ele emendou:
- Olha, Edmund, eu não sei o que você está planejando fazer por aqui, mas se é algo pra melhorar a aparência desse pardieiro eu sou obrigado a dizer que não está funcionando. Eu admiro os seus esforços, mas bem se nota que seu gosto não é lá essas coisas. Graças aos céus você não é decorador, senão...
Nessa hora, o cabide, que até então estava só ouvindo, meteu a colher:
- Veja bem, meu caro! Veja bem, tenho dito. Não me parece certo, veja bem, colocar aquele quadro ali, meu caro. Se você tentasse, veja bem, mais à direita, sobre o camiseiro, eu creio, veja bem, que ficaria melhor, meu caro. Tenho dito.
Por que será que todos os móveis adoram dar opiniões? Estava tentando encarar aquilo como um teste de serenidade quando o camiseiro se atravessou:
- Hei, Edmund! Por que você não passa uma tinta nessa parede, meu chapa? Pelo menos daria uma aparecia de nova pra ela.
Ouvindo isso, esbravejou a injuriada parede:
- E você? De qual leilão de antiguidades lhe arremataram? Vá se olhar no espelho, palhaço!
- Dá-lhe, parede! Mostra pra esses zebus quem é que manda por aqui! - provocou o criado-mudo.
O cabide, visivelmente irritado com o criado-mudo, não sustentou mais sua elegância e disse:
- Veja bem, tampinha, você, meu caro, faz melhor em calar sua bocarra e, veja bem, comportar-se como um criado-mudo de verdade. Tenho dito.
E as ofensas começaram a tomar proporções assustadoras. Quando dei por conta, minha casa havia se transformado em um campo de guerra. Todos os móveis, as paredes, o teto e até o chão haviam entrado na briga, e a baixaria era generalizada.
Entre um xingamento e outro, escapou:
- Isso tudo é culpa do Edmund!
Aquilo era a gota d'água! Não sei quem proferiu tais palavras, mas não era preciso ouvir mais nada. Eu simplesmente não podia deixar aquele motim continuar impunemente. Soltei um estridente assovio e, tentando mostrar-me o mais tranqüilo possível, proferi:
- Creio que vocês estão com a razão. Não somente estão com a razão como estão mergulhados nela até o pescoço (metaforicamente falando). A culpa disso tudo certamente é minha, e tão pesada está minha consciência que resolvi consertar tudo o mais rápido possível. Segunda-feira eu irei alugar um apartamento, um daqueles bem pequenos, e viverei uma vida o mais despojadamente possível. Não possuirei móvel algum, dormirei no chão, sobre um tapume, e comerei sentado sobre almofadas, certo de que serei muito mais feliz.
A essa altura, o silêncio era sepulcral. Mas o discurso ainda não havia acabado:
- Obviamente não poderei levá-los comigo, o que não me deixará outra opção senão a de vendê-los a quem desejar comprar móveis antigos, ou então os doar a alguma instituição de caridade. Estou certo que arranjarão um novo lar para todos, com muitos cães, gatos e crianças arteiras para lhes fazer companhia. Quanto à casa, creio que terei de vendê-la também. Espero que uma pacata família a compre, mas o destino provável é que aquela construtora finalmente consiga levantar um edifício aqui. Bem, é a vida, não é mesmo?
Quando terminei, um milagre havia sido operado. As gentilezas e a cooperação se tornaram a ordem do dia, e todos pareciam renovados por uma profunda e superior compreensão. A paz novamente reinava, e o silêncio e a tranqüilidade eram o que se sentia no ar.
Não aprecio o uso de táticas terroristas, mas essas costumam ser as únicas que funcionam quando objetos inanimados começam a ficar muito animadinhos.
postado por: EDMUND BONAPARTE 4:21 AM
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