Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Quinta-feira, Julho 31, 2003

Ciranda Sideral
Há dias em que tudo me parece mais pesado do que realmente é. Algumas vezes sinto como se levasse um mundo nas costas.
Imagino como deveria sentir-se o Atlas, aquele semideus, levando toda a abóbada celeste nas costas, com suas bilhões de galáxias, todas pressionando o titânico ser por toda sua mitológica existência.
Pensando nisso, não posso deixar de ficar consolado em ver que somente e de vez em quando levo um mundinho sobre os ombros, mesmo que isso me faça constantemente desejar uma demorada massagem.
A verdade é que entre os minutos de uma vida, nada parece possuir uma verdadeira noção de significado. Tateando por lugares estranhos, tento sentir as texturas, os odores, ou qualquer elemento que defina e que explique meus passos, mas tudo me é estranho e vago, quase indecifrável.
Ao olhar para trás, para o tempo que já se foi, vejo a coesão dos acontecimentos e passo a entender o que desejei dizer e fazer, embora nem sempre tenha dito e feito. Tamanha ignorância em relação a acepção dos acontecimentos presentes perece que me faz contar os anos como quem conta os meses e os meses como quem conta as horas. E nesse embotamento de fatos e rotinas, esvaem-se os dias num fluxo irreprimível, e as realizações se apresentam mais distantes e fugazes.
O pensamento vem e com ele trás os sentimentos das coisas que deveriam ter sido e que não foram, do que deveria ter acontecido, mas que se perdeu na noite dos tempos. E que noite escura ela é.
Algumas vezes, sinto-me como a criança que carrega um punhado de água em suas mãos concheadas, apertando bem os dedos para que o precioso líquido não se precipite e desapareça na terra ressequida.
Hipnotizado pelo fantástico brilho da cristalina substância, o descuidado menino lamenta não poder mantê-la em suas mãos, mas não acha pelo tino beber dela. Assim, assustado e inconsolável com a irrefreável perda, escapa-lhe para sempre seu tesouro por entre os dedos.
Não creio que tenho bebido muito dessa água em minhas mãos. E ela está ali, esvaindo-se, seguindo a constante marcha das batidas do relógio cósmico. E nele não podemos interferir. Suas engrenagens nunca se desgastam e seus ponteiros jamais conhecem o descanso. Segundo após segundo, ele nos mantém em uma ciranda de onde não podemos sair sem perder nosso lugar.
Talvez me falte compreender melhor as regras desse jogo. Talvez me falte o pensamento desencadeante das ações transformadoras. Talvez me falte a audácia dos desbravadores do desconhecido e do indomável. Talvez me falte somente meus antialucinógenos. Realmente eu não sei.
postado por: EDMUND BONAPARTE 6:00 PM
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Quarta-feira, Julho 30, 2003

Dias De Arrumação
Recuperado das andanças e com minhas forças restauradas, hoje passei a avaliar os danos causados em minha rotina normal por conta da ausência prolongada.
Normalmente adoto uma metodologia bastante prática para gerenciar meus afazeres, tentando com isso minimizar possíveis impactos ao fluxo normal de minha vida após situações como essas.
Infelizmente, devido à enorme pressão a que fui submetido nos dias anteriores ao de minha jornada, acabei preocupando-me minimamente com o meu dia-a-dia e reservando grande parte de minha atenção aos preparativos.
Tão grande desatenção cobrou o seu preço. Deixei muitas coisas incompletas por aqui. A pior, eu diria que foi deixar meu pequeno e indefeso animal doméstico trancafiado dentro de casa. Tal esquecimento me foi por demais penoso, principalmente porque acredito ter deixado sérios traumas emocionais na infeliz criatura, coisa que muito me desagrada.
A felina, enlouquecida pelo aprisionamento compulsório, passou a vagar pela casa e a destruir cada canto de minha residência na inútil tentativa de encontrar um escape para sua claustrofóbica situação. Obviamente não encontrou, pois algo que um lunático sabe fazer bem é trancar sua casa hermeticamente.
O animal passou então fazer suas necessidades por todos os lugares enquanto vasculhava cada nicho à procura de alimento e água. Creio que água ela encontrou na privada, que para sua mais absoluta sorte estava com assento levantado. Quanto à comida, a sorte novamente lhe foi companheira, pois seu pacote de ração encontrava-se no chão e fechado somente por um prendedor de roupas, objeto que conseguiu retirar com relativa facilidade.
Reconforta-me ao menos saber que meu tão estimado animal de estimação não sofreu privações maiores além da ausência de sua liberdade. Seguramente não me perdoaria se, ao chegar em casa, encontra-se a peluda criatura sem o sopro de vida habitando seu diminuto corpo.
Acredito que em breve ela esquecerá o ocorrido e rapidamente voltará à normalidade de sua vida. Principalmente agora que eu lhe trouxe um amigo da Dimensão-Zeta. A bem da verdade, eu não o trouxe, ele simplesmente ficou muito agarrado a mim, de forma que não consegui mais me desprender dele.
Quando o mostro para meus amigos, todos me dizem: "Edmund, você não vê que isso é algo que está só na sua cabeça?".
E eles acham que eu não sei disso? Eu já tentei retirá-lo de minha cabeça inúmeras vezes, mas só o que consegui foi deixá-lo ainda mais agarrado.
Bem, mas se tudo tem um lado bom, o lado bom disso é que agora eu não preciso mais usar capacete se eu resolver andar de motocicleta.
É uma pena que não me agrade andar nelas.
postado por: EDMUND BONAPARTE 6:03 PM
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Terça-feira, Julho 29, 2003
Mensagem.wav
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:19 PM
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Quinta-feira, Julho 17, 2003
A Incomensurável Dimensão-Zeta
Caros Amigos,
Havia eu publicado o texto de segunda, quando resolvi dedicar o restante do período diurno a algum exercício físico de meu agrado. Naquele dia, escolhi caminhar um pouco.
Enquanto caminhava, remoia os acontecimentos de meu dia corrente em busca de alguma falha nas minhas ações, algum acontecimento estranho que tivesse observado ou qualquer outro ingrediente do qual pudesse retirar alguma sabedoria para utilizar em meus próximos dias.
Enquanto permanecia nesse meditabundo estado, todos os passos de meu dia eu revisei, daquela hora até o início da manhã. Quão grande não foi minha surpresa quando percebi que havia saído de casa sem tomar meus antialucinógenos. Já havia feito isso antes e os efeitos foram devastadores.
Tamanho choque emocional cobrou seu preço. Tempos atrás, após um choque emocional, aliado a uma dose exagerada de antialucinógenos, perdi minha memória por alguns dias. Dessa vez o choque emocional, aliado à ausência absoluta de antialucinógenos, provocou igual efeito desmemorizante em minha alucinada cabeça.
O agravante dessa situação é que me encontrava muito distante de casa, e como não sou um indivíduo conhecido e reconhecido, passei a vagar perdido pelas terras em total ignorância.
A perda mnemônica foi de tal forma intensa, devido ao efeito cumulativo de duas perdas quase consecutivas, que dessa vez esqueci a totalidade de meu conhecimento anterior, inclusive o vocabulário mais básico. Transformei-me em uma besta selvagem, um mero animal vestido em roupas. Passei, dessa forma, a tentar comunicar-me com o mundo por meio de grunhidos e gestos de aparente desespero.
Obviamente, internaram-me em um manicômio e tentaram entupir-me de pílulas de todas as cores. Apavorado e iracundo pela minha irracional ignorância, entrei em conflito físico com os funcionários do estabelecimento e disparei meu ensandecido corpo pelas ruas da cidade.
Com o passar das horas, a fome foi tomando conta de meu selvagem ser, a ponto de me fazer partir em busca de qualquer matéria orgânica que encontrasse pela frente, viva ou morta. Farejando o ar (tornamo-nos grandes farejadores quando necessitamos), senti o cheiro de comida que vinha de uma fábrica de salsichões. Imediatamente refugiei-me em tal local.
Encontrei um esconderijo sob umas pilhas de caixas de papelão e para lá levei os salsichões que havia afanado da linha de produção. Vivi ali, sob aquelas caixas, até ontem de noite quando minha memória subitamente retornou, expondo à minha consciência restabelecida o ridículo de minha situação.
Certamente, durante esse período, não me lembrei de que escrevia em um blog. A bem da verdade, não me lembrei sequer que escrevia. Por conta disso, abandonei este recinto à própria sorte, não dedicando a devida atenção aos que aqui visitam, situação que me é por demais desagradável.
Sabendo que a qualquer momento poderia perder minha memória novamente, e novamente poderia viver como uma criatura das matas em plena cidade, resolvi dar um fim à tão penoso destino.
Estou certo que encontrarei a cura de meus males memoriais quando do "elixir da perene memória" beber. Esse elixir, segundo as tábuas sagradas, é um poderoso e eficiente reestruturador das conexões cerebrais, de tal forma que aquele que o beber jamais sofrerá perdas de memória, a não ser que tenha a cabeça esmagada por um piano ou algum objeto igualmente massivo.
No entanto, tal elixir não é encontrado em nosso mundo (eu sei porque já o procurei por todas as drogarias), mas somente na indescritível Dimensão-Zeta.
A Dimensão-Zeta, além de indescritível, é inescrutável. Contudo, uma vez a cada trolhões de anos, ela abre um portal para esse mundo por alguns dias. Sabendo, pelos antigos escritos, o período exato em que o portal dimensional permanecerá aberto, foi-me então possível programar minha jornada em busca de minha definitiva cura mnemônica. E a farei de imediato.
Partirei hoje em minha alucinada cruzada, devendo retornar dentro de no máximo dez dias, quando o portal novamente se fechará. Levarei todos os equipamentos necessários para tão inimaginável jornada, como cordas, lanternas, kit de primeiros socorros, alicates de unha, chicletes sem açúcar, entre outros. Não esquecerei de levar também minha coleção de figurinhas da copa de 82, para o caso dos habitantes da Dimensão-Zeta apreciarem um bom jogo de bafo (qualquer barganha pode ser fundamental).
Assim sendo, caros amigos, espero reencontrar a todos vocês quando retornar. Sei que a ausência será grande, mas acredito que retornarei com minha memória bastante reforçada, o que me ajudará a relatar minhas aventuras com mais fidelidade. Isso sem falar que o próximo post trará novamente meus desenhos alucinados, pois felizmente já superei a perda de meu antigo amigo scanner e adquiri um novo.
Então, penteio meu cabelo, pego minha mochila e vou.
O que tem do outro lado? Bem, depois eu conto.
Até breve!
Alucinadas saudações,
Edmund Bonaparte.
postado por: EDMUND BONAPARTE 11:54 AM
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Segunda-feira, Julho 14, 2003
Por Dias Melhores
Algumas vezes o pôr-do-sol me parece mais bonito. Em outras, é o amanhecer que me inspira profunda admiração. Não sei dizer de qual deles gosto mais. Acho que ambos são intensamente felizes e tristes ao mesmo tempo.
O nascer do Sol vem radioso, lépido e cheio de esperança de novas realizações para o dia, mas traz consigo as incertezas de uma renovação. O hoje será diferente do ontem, por mais belo que esse possa ter sido e por mais infinito que desejássemos que fosse. Que se diga isso na segunda, quando, daquele domingo de brilho e descontração, resta somente a memória das horas de alegria. O novo dia vem inflado de possibilidades e exige nossa total concentração e dedicação. Saberá ele, no futuro, cobrar a dívida de suas horas mal aproveitadas e desperdiçadas.
O pôr-do-sol, em contrapartida, carrega a beleza e a melancolia do dia que se vai. E para sempre ele irá, pois jamais haverá outro dia como aquele. A continuidade é a marca do tempo, e ele não gosta de se repetir. As cores nas nuvens e o faiscar da luz nas águas, quando o Sol se entrega ao horizonte, remetem nossa mente à contemplação de nossa efemeridade. No mosaico de matizes daquele ocaso, encontramos tempo para pensar sobre nossa existência e nossos atos.
E entre esses dois espetáculos, transcorre o circo de nossas vidas. Absortos em nosso pequenino planeta, buscamos a felicidade nesse tempo. Temos a irrefreável esperança de que ela exista e nos sentimos impulsionados a encontrá-la. Procuramos nas coisas, nas pessoas, nas idéias, nas ações e em tudo o que acontece debaixo desse firmamento. É bem verdade que nem sempre a encontramos. Talvez não como a desejássemos. Mas sempre temos momentos felizes que, se formos menos exigentes e soubermos avaliar como se deve, é o que realmente conta.
Não existe uma felicidade absoluta, tampouco uma tristeza sem limites, ao menos em nosso mundo. Tudo o que existe está fadado a conhecer um fim. As maiores felicidades, as mais amargurantes tristezas, tudo está preso nesse ciclo de nascimento e morte, como nosso Sol tão diligentemente nos ensina.
Se a felicidade realmente existe? Creio que sim. No entanto, temos que aprender a reconhecê-la quando passa por nós e se oferece. Coisa que, devo admitir, poucas vezes temos a necessária sabedoria para ver.
Para nosso consolo, ela sempre retorna. Se a perdemos hoje, amanhã ela poderá mostrar seu rosto mais uma vez. Ela insiste em nascer a cada amanhecer e exige que a conquistemos todos os dias. Não podemos estocá-la ou retirá-la de outro. Devemos encontrar a nossa própria felicidade e aprender como a colher diariamente. É sem dúvida um exercício poderoso e cansativo, mas não se deve desistir de executá-lo. Nossa felicidade depende disso.
Hoje, por exemplo, cheguei em casa com meus pés incrivelmente doloridos pelo mau trato que só um sapato novo sabe aplicar em um pé fatigado. Parecia que meus dedos estavam pesos em uma armadilha para ursos. Com a calma de um monge retirei os torturadores apetrechos e, enlevado pela liberdade recém adquirida, senti a mais profunda felicidade.
Seria ela muito pequenina? Talvez, mas essa tarde foi toda a felicidade que me coube conhecer. Contento-me com ela, da mesma forma que me contentaria com outra maior ou mesmo menor. Prefiro lembrar dos meus dias pelas coisas boas que me acontecem, ainda que sutis. Não sei se essa é a verdadeira felicidade, mas seguramente ela mantém a tristeza afastada da maioria de meus dias. Mas não digo tudo isso com muita certeza. Afinal, nem tomei meus antialucinógenos hoje.
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:56 PM
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Domingo, Julho 13, 2003
Revolta Digital
A tecnologia não me tem sido amiga nos últimos dias. Primeiro, meu telefone ficou mudo, forçando-me, quando em casa, a retirar minha presença da internet por algum tempo. Ontem, novamente o caos tecnológico veio abater-me em meus propósitos comunicativos, mas afetando dessa vez meu computador.
Simplesmente ao inserir uma nova placa, todos os elementos viraram-se contra mim, transformando minha existência em uma pasta miserável de sofrimento e privações.
Gastei horas de esforço físico e mental, sem contar altas doses de minha energia vital, na tentativa de resolver meus problemas computatórios. Passei mesmo a crer que todas aquelas eletrônicas criaturinhas que vivem dentro de meu computador estavam fazendo tamanha birra propositalmente.
Não me contive. Tomado de indignação, perguntei aos revoltosos circuitos o que eles queriam de mim.
Responderam-me:
- Queremos descanso, Edmund! Queremos descanso, Edmund! Cansamos de computar! Cansamos de computar! (os circuitos eletrônicos sempre falam suas frases duas vezes. Tudo em suas existências é binário)
Atônito, eu disse:
- Oh! Infelizes criaturas de tão miniaturizado universo.Descanso de que? Descanso de que? Já não basta que eu cuide de vocês como poucos fariam? Não é suficiente que eu mantenha seus circuitos sempre arejados e livres de poeira? Não recebo consideração por tratá-los com dignidade e respeito, reservando seus serviços somente para quando são realmente necessários? Alguma vez desgastei-os jogando algum tipo de jogo de ação ou algo parecido?
- Estamos velhos, Edmund! Estamos velhos, Edmund! Queremos aposentadoria! Queremos aposentadoria! - disseram eles.
- Mas como pode? - perguntei eu - Vocês tem menos de seis anos de uso! Acham que sou algum tipo de magnata? Vocês são perfeitamente aptos para trabalhar por mais alguns anos, sem maiores problemas! E vamos parando com essa greve, agora mesmo!
Os circuitos se entreolharam e cruzaram os braços (ao menos me pareceu que tivessem feito isso) em descarado protesto.
Estava sem alternativas. Já não havia conseguido postar nada no sábado, e tudo por culpa dessa injustificável greve baseada na risível afirmação de que um computador de seis anos já estaria obsoleto. Ridículo! Mas eu precisava de algum argumento que pudesse mover os meus componentes eletrônicos daquela insustentável situação.
Lembrei-me do cabide. Ele sempre me foi útil quando da necessidade de um conselho mais equilibrado. Perguntei-lhe:
- Caro cabide. Teria, pois, o senhor uma idéia de como resolver tão magnífico enrasco em que me encontro? Meu computatório dispositivo deu de braços, alegando que trabalho já não mais faz parte de sua digital rotina. Encontro-me em profundo desespero, oriundo da privação virtual que me infligem esses componentes. Sei que o senhor sempre possui uma solução criativa para problemas profundos. Pode ajudar-me?
E ele respondeu:
- Veja bem, caro Edmund, veja bem. A solução eu tenho sim, veja bem. Parece que suas placas, veja bem, estão aproveitando-se da falta de pulso de seu sistema, meu caro. Creio que, veja bem, você deve entrar na BIOS de seu computador, meu caro, e, chegando lá, veja bem, definir as prioridades de interrupção para cada slot, meu caro. Fazendo isso, veja bem, acredito que a greve eletrônica, meu caro, não terá como subsistir. Tenho dito.
- Então você acha que isso realmente dará resultado? - perguntei admirado com sua sapiência.
E ele respondeu:
- Veja bem, creio que sim, meu caro. Se você, veja bem, fizer isso, meu caro, e ainda assim não obtiver o resultado desejado, veja bem, temo que você tenha, meu caro, que comprar um computador mais moderno, porque esse ai, meu caro, já está mais para lá, veja bem, do que para cá. Tenho dito.
Foi duro ouvir o senhor cabide depreciar meu dispositivo, mas como sua proposição realmente funcionou, ficarei mais algum tempo com tal relíquia. Pelo menos até que mais nenhuma página eu consiga abrir na internet e a irremediável loucura ameace tomar posse de minha mente. Coisa que, pensando bem, já deve estar bem perto.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:58 PM
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Sexta-feira, Julho 11, 2003
O Misterioso Sumiço Do Par De Meias
Está frio por aqui.
Não sou um indivíduo daquele tipo que reclama quando está quente, porque acha que deveria estar mais frio, que reclama quando está frio, porque acha que deveria estar quente ou que reclama quando está agradável, porque queria que estivesse mais quente ou mais frio. A bem da verdade, nunca reclamo, a não ser, é claro, que esteja desprovido de meus apetrechos mínimos para suportar os rigores das temperaturas limites.
Hoje, senti-me desprovido. Estou há horas procurando meu par de meias modelo HK99-A e não consigo encontrar nem uma pista de seu paradeiro. Certamente eu, quando desmemoriado, coloquei um triste fim a esse espécime.
Infelizmente as lembranças de meus dias de desmemoriado, em sua grande parte, desvaneceram-se quando a amnésia cedeu. Resta-me então utilizar o modelo HK99-B que, embora fale como uma matraca, ao menos retirará meus pés de sua enregelante condição.
Hoje escrevo pouco, pois não consigo concentrar-me como se deve em tão baixas temperaturas. Parece até que meu cérebro deseja hibernar, safando-se assim de tão frigorífico desconforto. Fora eu um esquimó e creio que nem uma simples idéia passaria pela minha cabeça.
Aquecimento? Pior. Aquecer o corpo a uma temperatura agradável e então se enfiar novamente em polares circunstâncias? Somente se eu desejasse a sensação de ter pontadas duplas de pneumonia, coisa que não aconselho a ninguém desejar.
Ficasse eu estático em um recinto fechado e climatizado e tal idéia me seria agradável. Mas nesse constante vai-e-vem em que minhas tarefas reais e imaginárias costumam lançar-me, seria pedir para conhecer o outro lado da vida de uma forma definitiva.
Portanto, resta-me somente vestir meus pés com meu par de meias falante e preparar-me para agüentar mais uma infernal sessão de suas infames piadas de papagaio. Coisa que aparentemente motiva sua existência. É a vida.
postado por: EDMUND BONAPARTE 4:16 PM
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Quinta-feira, Julho 10, 2003
Dias De Esperança
Estou novamente memorizado. Ao menos eu creio que estou, pois um lunático nunca tem muita certeza de nada.
O que posso dizer é que as densas brumas que habitavam minha mente e que me impediam de ver a luz, por fim dissiparam-se. A clareza e o entendimento fizeram morada em meu ser mais uma vez, e os mistérios e confusões dos dias de trevas finalmente chegaram ao fim.
Por um estranho e ilógico motivo, relutei em retornar à minha condição original. Não me é possível explicar as reais causas de tamanha resistência, mas lutei aguerridamente para manter minhas lembranças longe de minha consciência.
Felizmente voltei, pois já não suportava mais a negligência com que tratava de minhas imprescindíveis tarefas sob a inconsistente alegação de que eram alucinadas. Havia tornado-me um relapso.
Oh! Mundo sem porteiras! Abraça seu velho amigo! Tem a mim novamente em suas trilhas. Como um fênix abatido, ressurjo de minhas cinzas revivificado.
Não haverá obstáculos que não ousarei transpor com a bravura de um guerreiro. Não haverá distâncias que não vencerei com a obstinação de um romeiro. Não haverá terrores que não enfrentarei com a coragem revigorante daqueles que procuram a felicidade na promessa de uma nova existência.
Sim, os elementos segurarei em minha destra e com passos largos buscarei os meus desígnios. E, com certeza, nada existirá que me fará retroceder. Ou sim. Ou talvez. Eu não sei. Afinal, sou somente um lunático.
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:44 PM
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Quarta-feira, Julho 09, 2003
Dia O Terceiro Desmemoriado Um De
Voltando creio memória que minha está. Mental sinto todavia, confusão grande. Estou tudo falando trocado absolutamente. Do Starwars filme que o Yoda mestre estou pior até.
Tentando está acho que voltar o Edmund. De não forma alguma posso deixar. Me concentrar que e permanecer aqui tenho. Aquela novamente existência lunática quero não. De qualquer um para cabeça muito cansativo é a.
Silêncio em permanecer vou e impedir memórias o retorno daquelas tentar. Preciso aos impulsos meus alucinados resistir. Lutar minha devo sanidade por. Não forças desistirei me restarem enquanto.
Breve serei, a pressão é porque grande hoje. Mais falar infelizmente consigo não. Abraço um então deixo. Amanhã nos aqui espero encontremos que.
Mais até,
Desmemoriado confuso e, o Edmund.
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:34 PM
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Terça-feira, Julho 08, 2003
O Dia-a-Dia De Um Desmemoriado
Pois bem, continuo aqui com minha amnésia e tentando entender a vida do Edmund (que até agora não consigo acreditar totalmente que é minha vida também).
Fico pasmado ao ver que levo uma rotina tão enlouquecida. Hoje, ao pegar um par de meias, vi que existia um pequeno aviso anexado a elas. Dizia ele:
"MEIAS DE INVERNO MODELO HK99-A
Parâmetros ideais de utilização:
- Faixa de temperatura: 0,5° - 17,7°
- Umidade relativa do ar: 63% - 98%
- Tempo máximo de uso: 10hs
Obs: Esse modelo pode ser utilizado em bibliotecas, cinemas ou qualquer outro lugar onde o silêncio seja necessário, pois, ao contrário do modelo HK99-B, ele é mudo. (????)"
Como essa, havia dezenas de outros modelos de meias para determinadas situações. Isso sem falar nas cuecas. Assustador.
Hoje, como está chovendo aqui em Porto Alegre, sou obrigado, segundo o "Manual De Sobrevivência Do Desmemoriado" que o Edmund deixou, a sair na rua e realizar uma antiga dança da chuva. Segundo ele, a chuva é um ser vivo que pode ser apaziguado com o ritmo certo, evitando-se assim maiores problemas com raios e trovões.
Não sei. Pelo sim ou pelo não, resolvi fazer. Quem sabe tem algum fundo de lógica nisso tudo. Todavia, realmente chego a me perguntar se desejo ter minha memória de volta. Está tão bom assim. Poder olhar para o futuro sem carregar nenhuma carga, culpa, ou dúvida do passado. Ser um indivíduo novo e cheio de perspectivas. Enfim, um novo homem.
Portanto, pretendo pesquisar. Certamente isso será de muita utilidade, pois quase tudo o que somos ou fazemos vem de nossas experiências anteriores. Sabendo o que o Edmund tem feito, posso projetar meus atos futuros, fazendo quase tudo ao contrário, pelo que pude ver até agora.
Uma boa coisa seria tentar evitar esses choques emocionais de que ele tanto fala. Uma hora viro suco, outra hora me materializo e despenco das nuvens. Tudo isso quando não estou falando com meus objetos pessoais. Obviamente isso não é o que se pode chamar de uma existência tranqüila.
Mas enquanto estou assim, vou aproveitar o tempo e dar uma olhada nas suas (minhas) coisas e procurar mais pistas sobre o que tenho sido e com quem tenho vivido nos últimos vinte e nove anos. Apavoro-me só de pensar no que vou encontrar, mas se eu tiver uma chance de continuar como estou e se realmente desejo mudar, tenho que saber o que não devo repetir.
Afinal, estou cansado de ter que fazer coisas do tipo: "preparar um saudável e irresistível prato de mingau de aveia coberto com canela em pó todas as noites, mas não comê-lo, pois você detesta aveia".
postado por: EDMUND BONAPARTE 3:13 PM
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Segunda-feira, Julho 07, 2003
Esclarecimentos De Um Desmemoriado
Hoje acordei sem saber quem eu era. Para dizer a verdade, ainda não tenho muita certeza, mas parece que meu nome é Edmund Bonaparte. Nossa! Não havia um nome melhor?
Recebi um bilhete de mim mesmo dando instruções de como agir nessa situação. Reproduzo aqui embaixo a pequena missiva:
"Caro Edmund,
Você foi afetado por uma perda temporária da memória devido a um forte choque emocional que sofri, aliado a uma dose errada de antialucinógenos que ingeri (tenho que me lembrar de evitar choques emocionais e de nunca mais tomar remédios no escuro).
Para nossa felicidade, ainda tive tempo de escrever essa carta e algumas instruções antes da total perda mnemônica. Acredito que em dois dias, no máximo três, você já estará completamente recuperado. Durante esse período seria de grande benefício que você executasse algumas tarefas que considero imprescindíveis. Deixei uma pequena lista auto-explicativa em um arquivo de texto na área de trabalho do computador, o que deverá auxiliá-lo grandemente em sua rotina.
Fico muito grato pela sua cooperação e desejo uma rápida recuperação.
Alucinadas saudações,
Edmund Bonaparte."
Pois bem, peguei a lista e a estou executando dentro das minhas possibilidades.
Estou aqui porque, aparentemente, escrevo coisas nesse tal blog. Fiquei chocado com o que venho escrevendo. Li somente alguns textos (não tive coragem para prosseguir), mas, para meu terror, parece que quando possuía toda a minha memória eu me comportava como um lunático.
Infelizmente (ou felizmente) eu não tenho tido "alucinações" para escrever aqui. Resolvi então somente comunicá-los do ocorrido, já que parece que meu memorizado eu tem os leitores desse blog na mais alta estima.
Ele me entregou uma lista com dezenas de tarefas para realizar. Achei muito estranho, pois a grande maioria delas parece absolutamente imaginária. Ele deve ter seus motivos para "avisar o criado-mudo para não implicar com o cabide" (?), ou para "dizer para mim mesmo não interferir em meus textos" (??), ou ainda para "tomar as precauções necessárias contra o Campo de Murphy conforme descrito nas tábuas sagradas" (???).
Não vou nem esquentar a cabeça com isso. Vou fazer o que ele me pediu, por mais absurdo que possa parecer, e esperar que minha memória volte o mais rápido possível.
Enquanto isso, vou me preparando para "dar cinco voltas na quadra no sentido horário e três no sentido anti-horário".
Espero que eu agüente dois ou três dias disso.
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:55 PM
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Domingo, Julho 06, 2003
Luna Lunatis
Ser um lunático não é tão fácil como pode parecer.
Muitos acreditam que estar no mundo-da-lua é viver à margem das preocupações diárias, flutuando em uma nuvem de loucura e alienação bem acima da realidade lá debaixo.
Todavia, eu, como um representante da classe dos lunáticos, afirmo que a história é bem diferente. Ou não. Ou talvez. Realmente não sei.
Mas o que realmente sei é que, vivendo em um país livre, todos nós temos o direito, e por que não dizer o dever, de sair pelo mundo e expor o que temos em nossas cabeças, sejam elas de ouro, duras ou de vento, através de nossas bocas cheias de dentes ou desdentadas, ou por meio de qualquer outro elemento de comunicação que por ventura ou desventura caia em nossas mãos.
Posso afirmar categoricamente que não é sensato ficarmos calados, embora não entenda nada de sensatez. Temos, isso sim, que expor todas as idéias, por mais estranhas que pareçam, e quebrar os preconceitos (ou pré-conceitos, como alguns gostam de enfatizar), Deixando os "prés" de lado e pondo os conceitos para funcionar. Para os "prés" sobrarão as pré-escolas, as pré-histórias, e outros substantivos onde sei que serão muito felizes.
Para os conceitos, esses abnegados representantes mentais das coisas concretas e abstratas, sobrarão nossas mais cintilantes elucubrações e nossos mais profundos ideais que, futuramente, seguindo a ordem natural das coisas, retornarão ao caos da inevitável degradação, onde novamente darão as mãos aos "prés", reiniciando esse interminável ciclo de insanidade pelos séculos dos séculos, até que nosso sol, absorto em seus problemas nucleares, inche de tal forma que nos engula a todos, acabando definitivamente, em suas radioativas entranhas, com nossos mais tenebrosos problemas (e com nossas mais belas soluções).
Isso tudo pode parecer, a um observador mais sensível, um tanto cataclismático (se essa palavra não existia, existe agora). E realmente o é! Afinal, ser queimado em uma fornalha estelar não é brincadeira. Todavia, devido aos milhões de anos que nos separam de tamanho holocausto, não creio que haja motivos para perdermos a cabeça, a não ser, é claro, que você seja algum tipo de highlander imortal.
Portanto, fale! Ou não. Ou talvez. Sei lá! Faça o que achar melhor, quem sou eu para dar conselhos.
P.S.: Hoje, finalmente, consegui alucinar também no
Patota's Place.
postado por: EDMUND BONAPARTE 2:15 PM
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Sábado, Julho 05, 2003
Propriedade: Inconstância
Sábado. Que maravilha.
Dormir até mais tarde e acordar sem pressa. Andar sem olhar no relógio a toda hora, poder ler o jornal com a maior tranqüilidade, sentar à mesa e tomar um café apreciando cada momento, sabendo que são todos livres e despreocupados. Isso é algo que deve ser valorizado.
Mas falando em café, voltei a tomá-lo, coisa que há tempo não fazia. Havia parado quando soube que os cientistas o consideravam prejudicial à saúde. Obviamente não gostaria de prejudicar a minha, então resolvi esperar por um novo posicionamento.
Pouco tempo atrás, lendo uma revista, descobri que novamente o café possuía propriedades positivas ao organismo, o que me fez retornar a ingerir minha cota diária de cafeína.
Devo dizer que é realmente inconveniente essa história dos alimentos ficarem trocando suas propriedades a toda a hora. Não é fácil manter-se atualizado e saber quando um alimento voltará a fazer bem ou mal à saúde. É preciso destinar grande esforço e tempo na aquisição de tais informações, pois detestaria saber que fiquei tomando café durante o tempo em que ele era prejudicial.
Ah! Mas se fosse somente com o café, daria-me por satisfeito. A toda a hora o chocolate muda de lado. Um verdadeiro vira-casaca. Num dia ele é um vilão monstruoso, o que me faz abandoná-lo imediatamente, outra hora ele é um aliado quase indispensável, e lá vou eu ao seu encontro novamente. É incrivelmente desgastante manter a ficha criminal desses indivíduos alimentares em dia.
O que falar então dos carboidratos? Até pouco tempo eram verdadeiras monstruosidades alimentares e hoje já não são isso tudo o que dizem. Pode-se dizer até que se tornaram vitimas de preconceito.
Mas não são somente os alimentos que ficam nessa estressante indecisão. Posso citar os exercícios aeróbicos como outros elementos irresolutos. Eles eram a saída para o sedentarismo de nossa sociedade, e assim o foram por décadas. Hoje estão aí, destruindo articulações e lesionando musculaturas, quando não estão matando gente pelos gramados. É inacreditável como eles tendem a sofrer de tão violentas variações de humor. Parecem até políticos trocando de partido e de discurso a cada eleição.
E assim é com muitas coisas. Quando não se está bem informado, acaba-se por fazer quase tudo errado, somente acertando por sorte. Por isso, vou parar por aqui, pegar uns biscoitinhos de água-e-sal, uma xícara de café e saboreá-los ao som de uma boa música clássica enquanto posso, pois não sei mais por quanto tempo me serão tão amigáveis.
postado por: EDMUND BONAPARTE 4:45 PM
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Sexta-feira, Julho 04, 2003
Diretamente de nosso departamento de mitos nectários e alegorias melíferas:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
Zum-Zum, A Abelhinha Rebelde
Era uma vez uma abelhinha recém saída da maternidade das abelhinhas. Ela era forte, esbelta e inteligente, com certeza teria sido uma rainha, se o cargo não fosse preenchido através de eleição indireta (as abelhas não são lá muito democráticas).
Seu nome Era Zum, seu sobrenome Zum (é preciso cuidado para não confundi-los, pois o segundo pronuncia-se Zûum, com bastante zumbido). Zum-Zum era uma abelha como poucas abelhas podiam ser. Naquela colméia, era a única.
Sua mente viva e curiosa não se adaptava a toda aquela rigidez normativa. Seu espírito estava sempre acima das coisas rotineiras e sua mente sempre curiosa das coisas do mundo.
Entretanto, para sua aflição, mal saía de seu hexagonal berçário e já recebia, goela abaixo, as instruções de como ser uma abelha. Como e por onde andar, como se comunicar corretamente, como deixar as coisas limpas dentro da colméia, como encontrar as melhores flores, como transformar o néctar e o pólen em mel e geléia real, como tratar a rainha, sua mãe, e suas outras 424.186 irmãs, enfim, tudo que uma abelhinha deve saber para se tornar uma abelha de verdade.
E assim, encheram sua contestatória cabeça com mil regras, e nenhuma justificativa maior de que: "Sempre foi assim e assim é que deve ser!".
Zum-Zum, que era uma abelhinha muito meditabunda, não queria saber de seu servil destino e nem conseguia imaginar sua existência sendo gasta na massacrante tarefa de ir e vir, de flor em flor, dia após dia. Zum-Zum tinha alma de passarinho. Queria sair pelo mundo, comer quando tivesse fome, fazer aquilo que lhe trouxesse gratificação pessoal, queria ter o direito de um dia sentar em um galho de paineira e, por horas a fio, ficar lá, só olhando para o céu, contemplando o pôr-do-sol e vendo as estrelas trazerem a noite consigo.
Realizava suas tarefas quase sempre com a cara emburrada, entediada pela rotina. Quando tentava fazer algo diferente, como conversar com as flores, acabava por ouvir delas:
- Não seja abelhuda! Faça o que tem que fazer e não perca tempo. Ou você não sabe que o inverno já vem?
Mas Zum-Zum não desistia facilmente, e tentando sempre que tinha uma oportunidade, invariavelmente terminava por puxar conversa com algum bichinho da mata.
Um dia, quando voltava carregada de néctar para a colméia, encontrou, sentada à sombra de um pé de jacarandá, uma preguiçosa cigarra, que logo tratou de perguntar:
- Olá, apressada abelhinha, qual é o seu nome?
Cheia de curiosidade, disse:
- Olá, dona cigarra! Meu nome é Zum, Zum-Zum.
- Como você está, Zum-Zum-Zum? - perguntou então a cigarra.
- Não é Zum-Zum-Zum, dona cigarra, é Zum, Zum-Zum. Igual ao Bond, James Bond (Zum-Zum era fã do cinema americano, em especial dos filmes do 007).
- Pois bem, Zum-Zum, o que você acha de bebermos esse néctar que você leva enquanto toco uma música bem alegre com minha viola.
Fascinada pela cativante criatura, Zum-Zum sentou ao seu lado e ficou por horas, bebendo e cantando.
Tão alegre era aquela vida e tão divertido era aquele tempo, que Zum-Zum decidiu nunca mais retornar à sua colméia. Viveria livre, colheria somente o néctar que precisasse para subsistir e passaria sua existência a cantar e viajar.
E a abelhinha e a cigarra formaram a mais bela dupla de cantores que já houve naquela mata. E assim viveram por muito tempo.
Mas um dia o verão foi embora, e levou com ele todas as flores. Não mais havia o que comer em todo o bosque. A cigarra e abelhinha já não tinham vontade de cantar, sentiam muita fome e só pensavam em uma forma de acabar com ela.
Zum-Zum lembrou que na colméia havia muito mel guardado para o inverno. Engoliria seu orgulho, passaria lá e certamente conseguiria um pouco dele. Todavia, devido à intensa convivência com a cigarra, Zum-Zum perdera o odor da colméia de seu corpo. As abelhas que guardavam a entrada simplesmente não a reconheceram e atacaram a enfraquecida abelhinha, quase a matando.
Zum-Zum fugiu apavorada, e, esfomeada, foi contar as más novas à sua igualmente faminta amiga. Estavam já desesperadas, quando a cigarra lembrou de algo:
- Amiga abelhinha, vamos ter com a formiga! Sei que muita comida ela tem, pois a vi trabalhar o verão todo!
Mas a formiga, que era bastante vingativa, ouvindo os clamores da cigarra e da abelhinha, disse:
- Pois bem, enquanto vocês cantavam e se divertiam, eu trabalhava feito uma condenada. E pior, eu ainda era obrigada a ouvir as gozações da cigarra todos os dias. Vocês plantaram somente ventos, agora comam sua tempestade! - E com violência bateu a porta na cara da cigarra e da abelhinha, que morreram de fome e de frio poucos dias depois.
Moral: Se você for uma abelha rebelde, jamais se enfie na fábula da formiga e da cigarra.
postado por: EDMUND BONAPARTE 4:57 PM
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Quinta-feira, Julho 03, 2003

O Retorno
Ah! O tempo! ...O tempo! ...O tempo!
Eu falei isso somente uma vez, ...uma vez, ...uma vez, mas é que hoje tem um eco muito forte por aqui, ...por aqui, ...por aqui.
O que eu queria dizer do tempo é que felizmente choveu hoje, ...veu hoje, ...veu hoje, o que me deixou muito contente, ...contente, ...contente, pois permitiu-me reagrupar minhas moléculas e retornar ao meu sólido e constante estado de lunática inconstância, ...stância, ...stância. Acordei-me atirado, no pátio de um ferro-velho, sobre uma Variante 73 cor de laranja, ...laranja, ...laranja. Havia estatelado-me ridiculamente sobre o capô e levantei-me com dor generalizada, ...lizada, ...lizada.
Cobri-me com um pedaço de lona que encontrei pelas imediações, ...diações, ...diações, e, como um profeta das sucatas, ...sucatas, ...sucatas, saí de meu ferruginoso ambiente em direção ao meu lar, ... meu lar, ...meu lar.
Envolto em meu manto de grife, ...de grife, ...de grife, (Vinilona é grife?) adentrei em um veículo do transporte coletivo de minha cidade, ...cidade, ...cidade. Passei por debaixo da roleta em caridosa manifestação do indivíduo cobrador, ...cobrador, ...cobrador.
Devido à natureza espessa da capa que me cobria, ...cobria, ...cobria, entravei-me ridiculamente no dispositivo de contagem de passageiros, ...sageiros, ...sageiros. Forcei a passagem e escorreguei para o outro lado, enquanto minha lona permaneceu estática, ...tática, ...tática.
Tudo nesse mundo é uma questão de ponto de vista, ...de vista, ...de vista. Estivesse eu em uma praia nudista e ninguém teria em mim reparado, ...parado, ...parado.
Puxei minha capa com força hercúlea, ...cúlea, ...cúlea. Desprendeu-se então de maneira estrambótica, ...bótica, ...botica, e caí no colo de uma dama neurótica, ...ótica, ...ótica.
Para minha felicidade ela compreendeu a situação, ...tuação, ...tuação. Não gritou, tampouco a polícia chamou, ...chamou, ...chamou. Enfim, parece que não se desgostou, ...gostou, ...gostou.
Naufragado em pudica vergonha, no ponto seguinte desci, ...desci, ...desci. Segui minha jornada para casa a pé, ...a pé, ...a pé.
Creio que pela aparência, recebi algumas esmolas pelo caminho, ...caminho, ...caminho. Fiz-me de louco (?) e aceitei-as, ...ceitei-as, ...ceitei-as, pois não tinha as chaves da porta e um chaveiro precisava pagar, ...pagar, ...pagar.
Por fim, ...por fim, ...por fim, em meu lar entrei e a ordem restabeleci, ...beleci, ...beleci. Só devo dizer que estou intrigado com esse eco, ...esse eco, ...esse eco. Macacos me mordam! ...Me mordam! ...Me mordam! De onde ele vem? ...Ele vem? ...Ele vem? Como é possível aqui em casa haver eco? ...Ver eco? ...Ver eco?
Bem, ...bem, ...bem, deixo esse enigma para amanhã quando eu estiver descansado, ...cansado, ...cansado. Minha aventura transmutada não foi de longa duração, ...duração, ...duração, mas certamente não é todo o dia que alguém retorna depois de ter sido suco, ...do suco, ...do suco, e apesar dessa queda das nuvens quase me ter quebrado o pescoço, ...pescoço, ...pescoço, tive sorte, pois só me restou de lembrança essa dor nanica na nuca, ...na nuca, ...na nuca.
P.S.:, ... P.S.:, ...P.S.: Grato estou pelas palavras em seus comentários, ...mentários, ...mentários. Certamente muito ajudou em meu restabelecimento, ...cimento, ...cimento. Obrigado caro amigo
Mow pela Lua animada, ...nimada, ...nimada. Apreciei grandemente e tratei logo de copiá-la em meu computador, ...vastador, ...vastador.
postado por: EDMUND BONAPARTE 1:57 PM
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Quarta-feira, Julho 02, 2003
Suco De Gente
Hoje virei suco.
Não sabia como me conter. Meu corpo esparramei para todos os lados e por todas as frestas penetrei. Em milhões de pedaços fui dividido e juntei-me novamente em aquosa solução.
Arrastei-me pela casa, aproveitando a gravidade, mas longe não consegui ir.
Concentrei-me, e num ato de pura atração, uni minhas moléculas. E quebrando as leis da física, como só o intenso desejo pode fazer, ergui-me.
Precisava escrever. Procurei meu computador e sentei em frente à sólida máquina. Passei a teclar com meus dedos de inacreditável transparência e simplicidade.
Mas a luz do sol não me foi amiga. Fez-me lentamente evaporar.
E aqui, com meus últimos gramas de diáfana matéria, olho para as nuvens onde até a próxima chuva irei habitar e deixo meu legado nesse ponto final.
postado por: EDMUND BONAPARTE 3:40 PM
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Terça-feira, Julho 01, 2003
Do Céu Ao Inferno
Sou fã incondicional de uma fruta que, no lugar onde habito, é denominada laranja do céu. Com certeza, essa espécie é conhecida por outras nomenclaturas, quem sabe até mais pertinentes, por esse mundo a fora, mas como meu conhecimento hortifrutigranjeiro é dos mais lamentáveis, usarei esse termo mesmo. Para os que estão em dúvida sobre qual vegetal estou referindo-me, explico que a laranja do céu é uma pequena laranja que foi abençoada pela natureza. Digo isso, pois ela é doce e não é acida, o que muito feliz me deixa.
Frutas ácidas normalmente arrebentam impiedosamente com minha mucosa bucal, como se eu mascasse uma caixa de pregos. Sempre apreciei grandemente as laranjas, os abacaxis, e toda essa turma azeda, mas seus ácidos comportamentos comprometiam nossa amizade. Por isso, encontrar tão singela laranja foi de celeste fortuna.
Ontem, mergulhado em frutívoro desejo, parti para devorar alguns representantes daquela espécie. Devo dizer que muito satisfeito fiquei, até que uma estranha força atirou-me no desespero.
Poucas horas após a ingestão das laranjas do céu, minha vida transformou-se em um inferno. Algo naquelas pequeninas frutas havia impedido o correto funcionamento de meu aparelho digestivo (que agora trocou de nome para aparelho digestório, porque eu não sei), fazendo-me atingir 8.7 graus na escala Edmund de sofrimento físico (dez graus equivalem a ser devorado vivo por formigas africanas assassinas).
Naturalmente, não é possível que tamanho terror tenha sido originado pelo simples fato de que eu tenha abocanhado uma dúzia de laranjas, juntamente com o simples fato de que eu tenha feito duzentos abdominais após isso, aliados ainda ao outro simples fato de que eu já havia feito trezentos polichinelos antes dos abdominais. Não podia crer que a causa fosse tão simples como as evidências pareciam sugerir. Cri que alguma substância tóxica havia sido, deliberadamente, introduzida em minhas laranjas, tirando-lhes suas habituais canduras e as transformando em pequenos monstrinhos indigestos.
Em certo momento de minha indescritível agonia, podia jurar, entre uma alucinação e outra, que um alien havia comodamente se instalado em minhas entranhas. Acreditava que a qualquer momento ele iria explosivamente perfurar meu abdômen e, correndo como todo alien sabe de nascença correr, esconder-se por entre meus móveis.
A certa altura do episódio, as perversas frutas em meu estômago, insatisfeitas em suas estáticas posições, passaram a exigir uma movimentação. A sensação era de tal forma aterrorizante que eu, se fosse um indivíduo arrogante e intratável, poderia dizer que possuía um rei dentro da barriga, e um daqueles bem grandes. Talvez até um Rei-Momo.
Permaneci naquele estado de miséria digestiva até que, num ato de quase automatismo, mostrei aos rebeldes vegetais que a porta é serventia da casa e os fiz sair por onde haviam entrado.
Aos poucos, após a saída desses arruaceiros, a paz foi retornando ao meu ser. Não nutrirei rancores pelas laranjas do céu que tão medonhamente maltrataram-me, nem pela sua espécie, mas devo admitir que nunca mais olharei para essas laranjas da mesma forma, tampouco acreditarei em suas celestiais autopromoções. Chega de propaganda enganosa!
P.S.: Gostaria de avisar que hoje, a convite do Shigue, comecei a alucinar, mesmo que esporadicamente, no
Patota's Place.
postado por: EDMUND BONAPARTE 2:50 PM
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