Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Sexta-feira, Agosto 29, 2003
Diretamente de nosso departamento de mitos mágicos e alegorias fantásticas:
"Fábulas Alucinadas"
O Assombro De Cubomáh
Em um tempo há muito esquecido, havia uma terra chamada Thampasdebô. Os habitantes de Thampasdebô, os thampasdeboeiros, eram pessoas simples e trabalhadoras. Viviam suas vidas somente em função da sobrevivência naquela região hostil.
Thampasdebô realmente não era um lugar muito propício à vida tranqüila. Pelo contrário. Não havia estação das secas em que o povo não sofria com a falta d'água, e não havia estação das chuvas em que o povo não temesse ver seus lares debaixo d'água. Mas ainda assim eram felizes.
No fim de um certo dia, quando todos já voltavam para suas casas, algo surpreendente aconteceu naquela olvidada terra. No alto do mais alto monte de Thampasdebô, o monte Cubomáh, surgiu um enorme objeto multicolorido. O estranho artefato possuia seis faces idênticas, cada uma dividida em nove quadrados, totalizando cinquenta e quatro quadrados, que se dividiam entre as cores branca, amarela, vermelha, azul, verde e laranja.
Os thampasdeboeiros jamais haviam visto algo assim. Em suas sossegadas existências nada conheciam senão aquilo que a natureza lhes fornecia. Mas o tal objeto lhes pareceria completamente natural, caso não lhes parecesse completamente artificial.
De tão assombrados que ficaram, os thampasdeboeiros resolveram chamar a estranha aparição no topo do monte Cubomáh de "Assombro de Cubomáh", que na língua nativa se escreveria "Cubomáh-Gicô", caso eles soubessem escrever.
Kioparthah, o ancião e chefe da cidade, foi logo ver do que se tratava o assombro. Subiu o monte e aproximou-se cautelosamente do Cubomáh-Gicô. Explorou a superfície do objeto com todo o cuidado que só um ancião sabe ter. Demoradamente analisou cada centímetro quadrado da aparição, e convenceu-se então de que não havia perigo.
A essa altura, toda a população de Thampasdebô já se acotovelava em volta do ancião e do Cubomáh-Gicô. E quando todos falavam e se entreolhavam, assombrados com o que viam, eis que do Cubomáh-Gicô soou uma forte voz, que disse:
- AQUELE BRAVO QUE OUSAR MANEJAR-ME E COM INTELIGÊNCIA DECIFRAR-ME, RECEBERÁ, EM TROCA DE UMA PROMESSA, AQUILO QUE SEU CORAÇÃO ALMEJA.
Dito isso, o Cubomáh-Gicô encolheu até o tamanho de uma pedra, e ali ficou.
Refeitos do susto, ergueram-se do solo, aqueles que nele haviam se jogado, desceram das árvores, aqueles que nelas haviam escalado e foram para casa limpar-se, aqueles cujas funções fisiológicas eram mais frouxas.
O ancião, de tão velho, nem esboçou reação e ali, estático, permaneceu.
Com uma calma monástica, curvou-se e agarrou o Cubomáh-Gicô. Em sua sabedoria, logo percebeu, ao observar as seis cores que pintavam o assombro, que a solução do mistério seria manusear as faces móveis do Cubomáh-Gicô de forma a colocar, em cada face, quadrados de apenas uma cor.
Kioparthah então ficou horas estudando o Cubomáh-Gicô, sentado ali no topo do monte. Todos da cidade ainda permaneciam ao seu lado, olhando o velho, com suas mãos trêmulas e endurecidas, esforçando-se por resolver o enigma. E assim ficaram por toda a madrugada, mas a ninguém o sono abateu, tampouco as horas de espera a ninguém aborreceu. Pouco de interessante acontecia naquela cidade, e quando acontecia, certamente ninguém gostaria de ficar de fora.
E com os primeiros raios da manhã chegou o entendimento ao velho chefe. Ele levantou seus braços e, radiante, gritou: "Eureka!". (parece que bem mais tarde um tal de Arquimedes o teria imitado em seu brado, mas isso já é outra história)
Todos olharam maravilhados a perfeita simetria do Cubomáh-Gicô, com cada uma de suas faces em uma só cor. E nesse mesmo instante o assombro disse:
- FAÇA O SEU PEDIDO!
Kioparthah não tinha dúvidas do que queria, e prontamente disse:
- Oh! Maravilhoso assombro. Meus ossos doem sob o peso dos anos que tenho por companhia. Minhas pernas já não me levam com segurança aonde quero ir, minhas mãos já não mais têm a força para fazer o trabalho dignificante e meus olhos já não enxergam mais o que de bonito há para ser visto. Oh! Cubomáh-Gicô. Transforma-me novamente no jovem que um dia eu fui. Esse é meu pedido.
E o assombro respondeu:
- EM TROCA DE UMA PROMESSA, CONCEDEREI SEU PEDIDO. SERÁ JOVEM NOVAMENTE, MAS SE DA SUA JUVENTUDE DESFRUTAR SOMENTE O QUE FOR SÁBIO E APROPRIADO. ACEITA MEUS TERMOS?
Kioparthah, alisando sua enorme e branca barba, pensou:
- Certamente parece bem realizável tal promessa. Não pretendo fazer nada de louco, tampouco me atirar no mundo como nos anos de minha juventude. A idade me foi grande professora e pretendo seguir minha vida como faço há décadas. Somente rejuvenescer não irá modificar-me a ponto de me levar a fazer algo néscio ou inapropriado. Sim, aceitarei tal proposta.
O velho dirigiu seu mais solene olhar ao Cubomáh-Gicô e disse:
- Sim, grande assombro! Aceito sua proposta. Transforma-me no jovem que um dia eu fui.
Mal terminara de pronunciar tais palavras e a juventude residia em seu corpo novamente. Kioparthah sentiu-se tão cheio de vigor e força que não conseguia se conter parado no topo daquele monte.
Saiu dali correndo como um cabrito ensandecido. Pulava e saltava por sobre cercas e muros como se fugisse de um enxame de abelhas. Tudo parecia possível ao novo Kioparthah.
Transbordando de euforia, subiu no enorme carvalho do centro da cidade e começou a saltar nos galhos como uma macaca no cio.
Mas o carvalho já era velho e seus galhos eram frágeis. Kioparthah despencou da antiga árvore e por pouco não quebrou o pescoço. Nesse momento, estranhas nuvens cobriram o céu e um indescritível raio, como se formado pela junção de outros mil raios, desceu ao chão sobre a cabeça de Kioparthah, transformando-o em um punhado de cinzas.
Cubomáh-Gicô havia cobrado o preço das tolas macaquices de Kioparthah.
Daquele dia em diante todos passaram a chamar a vingança do Cubomáh-Gicô de "Raio Kioparthah", em memória de seu falecido chefe.
E ninguém mais, por muito tempo, tentou novamente decifrar o enigma do assombro.
Mas a carne é fraca, e as dificuldades às vezes fazem com que as pessoas esqueçam-se dos perigos e armadilhas e, apesar de tudo, arrisquem suas vidas por uma solução mais fácil.
E foi isso que um cidadão chamado Maquemuleque fez. Um dia, enlouquecido pela paixão não correspondida que sentia por Podichequixim, a filha caçula de Podichequinaum, o açougueiro, Maquemuleque subiu o malfadado monte e enfrentou o terrível Cubomáh-Gicô.
Logo se pôs a resolver o enigma, coisa que lhe custou muitos dias, visto que Maquemuleque nunca havia sido muito bom com enigmas. Quando for fim o resolveu, imediatamente pediu:
- Senhor Cubomáh-Gicô! Quero casar-me com Podichequixim. Faça com que ela aceite meu pedido!
E o Cubomáh-Gicô disse:
- EM TROCA DE UMA PROMESSA, CONCEDEREI SEU PEDIDO. VOCÊ CASARÁ COM PODICHEQUIXIM SE A CADA QUATRO MESES SE ABSTIVER DE ALGO EM SUA VIDA. ACEITA MEUS TERMOS?
Maquemuleque, não vendo como continuaria a viver sem Podichequixim, aceitou sem pestanejar. E de saída absteve-se da cãnah, a aguardente da região. Coisa que achou até bom, já que sempre ficava com dor de cabeça no dia seguinte.
Saiu correndo dali e foi para a casa de Podichequixim pedir-lhe a mão em casamento. Podichequixim disse que xim.. digo... que sim. E casaram-se na outra semana.
Todos na cidade ficaram apavorados quando souberam que Maquemuleque havia feito um acordo com o Cubomáh-Gicô. A imagem de Kioparthah sendo pulverizado ainda estava fresca na cabeça da população, e todos lhe perguntavam o que ele havia pedido e se não temia o terrível "Raio Kioparthah".
- O meu pedido é segredo, e não temo raio algum, pois a promessa que fiz é fácil de ser cumprida. E além do mais, o que ganhei em troca supera qualquer coisa que eu venha a perder.
Ainda temerosos, mas incentivados pelo aparente sucesso de Maquemuleque, alguns passaram também a decifrar o enigma do Cubomáh-Gicô, na tentativa de facilitarem suas vidas.
Ihbrhahim, o agiota, pediu fortuna. O Cubomáh-Gicô então pediu que todo os dias ele fizesse uma doação para alguém necessitado. Em cinco meses Ihbrhahim estava reduzido a pó.
Sôscia Lhayt, a esposa do novo chefe da cidade, pediu prestígio. O Cubomáh-Gicô pediu-lhe em troca uma demonstração de humildade em cada dia de sua vida. Em três dias somente pó restava dela.
Mhãoo Bobhah, o mulherengo, pediu para se tornar irresistível. Em troca, o Cubomáh-Gicô pediu-lhe que sempre fosse fiel com quem o cercasse. Dois dias depois o vento levava suas cinzas.
Pahlumhaluf, o político, pediu poder. O Cubomáh-Gicô pediu-lhe então que somente pensamentos honestos encontrassem abrigo em sua mente. Foi instantaneamente pulverizado.
O povo ficou absolutamente aterrorizado com os poderes do Cubomáh-Gicô. Iosoyme Droso, o novo líder da cidade, convocou a população para uma reunião e, da janela da casa do governo, disse a todos:
- Certamente, meus amigos, essa entidade nos foi enviada pelas forças do mal para destruir os habitantes de Thampasdebô. Nossos mais dignos cidadãos estão sendo desintegrados por essa bestial criatura que se assenta no monte Cubomáh. Temos que acabar com essa ameaça. Pelo bem de nossa cidade e de nosso futuro.
E foi o que fizeram. Subiram o morro e, armados com foices, facões e tochas, reduziram o Cubomáh-Gicô a fragmentos calcinados. Seguramente ele não mais ameaçaria ninguém com seus terríveis Rios Kioparthah. Ao menos foi o que pensaram.
Mas a verdade era mais dura do que o esperado. Mesmo com a destruição do Cubomáh-Gicô, aqueles que haviam recebido seus pedidos ainda vivam presos às suas promessas. Aos poucos, todos foram sendo vaporizados pelo horrível raio.
Após alguns meses, somente Maquemuleque parecia ainda suportar a terrível promessa que o Cubomáh-Gicô lhe havia imposto.
No entanto, sua vida particular não ia bem. Podichequixim não passava um dia sem se perguntar porque havia casado com Maquemuleque, já que não gostava dele. Certamente isso era obra do Cubomáh-Gicô, pensava ela. Maquemuleque havia pedido ao Cubomáh-Gicô para se casar com Podichequixim, mas se esquecera dos sentimentos dela.
Suas vidas estavam virando um verdadeiro inferno quando, ao final de outros quatro meses, Maquemuleque resolveu abster-se de Podichequixim e separar-se. Coisa que agradou a ambos.
Agora novamente eram livres para seguir seus caminhos. Mas para Maquemuleque ainda restava sua promessa, e ela anunciava tornar-se pesada com o passar do tempo.
Quatro meses mais tarde, Maquemuleque absteve-se da makonhah, o cigarro local. Novamente achou bom, pois seus pulmões já não eram mais os mesmos e a tosse já o estava incomodando.
Mas os anos foram passando e cada vez tornava-se mais difícil abster-se de algo em sua vida. Já havia largado muitos de seus hábitos, o que era extremamente duro, visto que sua vida simples não era recheada de muitas superfluidades. Já dormia no chão, pois se absteve de sua cama, usava roupas remendadas, pois se absteve de comprar roupas novas, não mais comia nada agradável, pois se absteve de qualquer manjar saboroso.
Sua vida se tornava mais penosa a cada ciclo. Alguns anos mais tarde, Maquemuleque já morava em uma caverna e andava nu pelas matas, pois se havia abstido de sua casa, seus pertences e até mesmo de suas roupas. Tudo o que possuía ele havia vendido e o dinheiro guardado em um lugar secreto. Não era pouco o que tinha, já que em sua vida de abstinências quase nada gastava. Além de tudo, havia herdado uma considerável fortuna de um parente seu que falecera, coisa que não lhe ajudou em nada, pois havia abstido-se de gastar seu dinheiro há muito tempo.
Já vivia aquela vida há quinze anos, e morava nas matas havia mais de cinco. Já estava para fechar mais um ciclo de quatro meses e Maquemuleque não sabia mais do que se abster. Sua última abstinência havia sido a de comer carne assada, passando a devorar cru tudo o que caçava. Pensou então que poderia abster-se da carne e comer somente raízes e insetos.
Ali, naquela situação, Maquemuleque ficou parado, com o olhar fixo no nada. Ficou vários minutos naquele estado de catatonia até que, de repente, largou tudo e saiu da mata.
Voltou para a cidade, pegou um grosso pedaço de madeira e o usou como alavanca para mover uma grande pedra que havia na praça da cidade. Depois passou a cavar até achar um saco onde havia guardado toda a fortuna que sua promessa lhe havia negado usufruir.
Nessa hora, todos da cidade já sabiam da estranha volta de Maquemuleque. Já era de conhecimento geral os termos de sua promessa, e todos receavam pelo pior, caso Maquemuleque resolvesse fazer algo com seu dinheiro.
E ele fez. Comprou roupas novas, uma casa nova e passou a viver nababescamente, como se nunca houvesse conhecido o Cubomáh-Gicô e seus termos. Gastava seu dinheiro em noitadas homéricas (e isso bem antes de Homero ter nascido), e a nenhum prazer virava seu rosto. Regava suas noites com cãnah e esfumaçava sua vista com makonhah.
Os habitantes de Thampasdebô estavam boquiabertos. Cubomáh-Gicô jamais havia poupado um só de seus desafiantes e a todos havia consumido com o Raio Kioparthah, mas a Maquemuleque ele parecia ser benevolente.
Quando lhe perguntavam como aquilo era possível Maquemuleque simplesmente dizia: "Vamos falar de coisas boas hoje. Chega de falar do Cubomáh-Gicô e de seus acordos".
E Maquemuleque viveu então mais vinte e oitos anos em uma farra interminável de regalias e prazeres.
Quando já estava velho e sentindo que o fim se aproximava, Maquemuleque cedeu às interrogações de seus amigos e, enfim, confessou como se manteve vivo todos aqueles anos:
- Simplesmente abstive-me de me abster, meus amigos. Abstive-me de me abster. E agora com licença, porque a noite é uma criança e eu quero vê-la crescer.
MORAL: Antes de assinar um contrato, sempre leia as letras miúdas.
postado por: EDMUND BONAPARTE 8:19 AM
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Terça-feira, Agosto 26, 2003
Nota Totalmente Incompreensível De Uma Ausência Totalmente Inexplicável
Fiquei ausente, mas não sem antes deixar de ter sido. Liberei as correntes de minha inconsciência e num furioso ímpeto, cantei pra não dizer que não falei de flores. E acabei falando muito. Sim, de flores. Flor-de-Lis, de farinha, de lótus, da idade, da pele. Flor da juventude.
Mas a juventude leva tempo pra ser falada e entendida, e quando se entende é porque sua primavera já se foi. E vai sem deixar endereço nem telefone. Vai como se vão as flores.
Deixei recados presos na geladeira, mas de tantos que eram, minha geladeira é que ficou presa em meus recados. Um recado pra quem as tem: A luz da geladeira realmente apaga quando se fecha a porta!
E quando uma porta se fecha, sempre acaba por se abrir uma janela. Resta saber onde ficam as janelas das geladeiras.
As da alma ficam nos olhos, e sempre olho pra essas janelas como quem procurasse pela alma. Mas nem sempre há luz lá dentro. Talvez se devesse tentar abrir alguma porta. Eu não sei.
Mas sei que saí por aí pra encontrar algo que não pode ser encontrado por aí. Saí e já voltei, pois o bom filho à casa torna. E se entorna o caldo, ao menos não transtorna o que de outra forma seria um transtorno.
Giro nesse mundo como quem gira em um torno, e nesse torno me transformo. A cada volta uma revolução e minha forma mais parecida com o plano que escolhi, mesmo sem tê-lo feito.
Mas as escolhas são assim, conscientes e inconscientes. Se não escolhemos, escolhemos por deixar de escolher, e nossa escolha é feita da mesma forma.
Mas se escolho, escolho por colher os frutos de minha escolha, se um dia ela der frutos. Se não os der, não deu. E se não deu, fica a Deus dará, e iremos nos queixar pro bispo.
E que assim seja. Mas se não for, ao menos se forceja.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:17 AM
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Sábado, Agosto 16, 2003

Se Eu Fosse Um Camelo
Se eu fosse um camelo provavelmente viveria em um deserto. "Provavelmente" eu digo, pois existem muitos camelos que vivem em zoológicos e circos espalhados pelo mundo.
No entanto, se eu realmente me visse na situação de ser um camelo, gostaria de sê-lo em um deserto (se é para me tornar um camelo, que seja como manda o figurino). E nesse deserto, passaria meus dias a transportar as cargas que meus senhores firmemente amarrariam em meu lombo. Talvez trabalhasse transportando sal de alguma mina, talvez levasse mantimentos para alguma aldeia perdida em meio ao escaldante areal. Contudo, o mais provável é que eu fizesse parte de alguma caravana de mercadores mouros.
Eu seria um camelo calmo. Teria segurança de minhas habilidades físicas e de minha resistência às intempéries. Beberia muita água e em minhas corcovas guardaria muita gordura para suportar os rigores das jornadas.
Mostraria, a todos que de mim se aproximassem, sempre a mesma cara de bobo que todo o camelo muito bem sabe fazer. Mas se alguém viesse, e minha paz insistentemente perturbasse, certamente, como lembrança, uma cuspadara levaria. E cuspir também é algo que todo o camelo sabe fazer muito bem.
Levaria uma vida simples e despojada. Dormiria ao relento e contemplaria as estrelas até que o sono me abatesse. E bem cedo, quando todos ainda estivessem dormindo, eu acordaria e, confortavelmente acomodado na areia, admiraria o nascer do sol no deserto.
Seria dócil, mas muito nervoso eu ficaria se porventura me chamassem de dromedário. Não teria nada contra eles, mas faria valer minhas duas corcovas e meu pescoço comprido. Já me bastaria ter de suportá-los, cheios de si, nas equivocadas gravuras das carteiras de cigarro "Camel".
Mas tais questões não ocupariam muito de minha limitada mente, tampouco meu parco raciocínio sobre esses temas trabalharia. Dedicaria meu tempo ao estudo das trilhas, à economia de energia e ao equilíbrio de minhas cargas.
Enfim, eu seria um simples e despercebido ruminante do deserto. O que não seria nada ruim, se fosse bom.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:43 PM
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Segunda-feira, Agosto 11, 2003
Edmund, O Relapso
Tornei-me um relapso, um habitante contumaz das terras da negligência, um errante viajante das trilhas da mandriíce.
Perdido entre minhas tarefas reais e imaginárias, isolei meu ser de minhas atividades prazerosas neste mundo virtual. Isso bem pode ser dito desses últimos dias, quando de muito descuido foi vitimado esse blog. Nem mesmo essa gripe que me pegou (certamente não fui eu que a peguei) explicaria tamanha indolência.
Entretanto, meus instintos edificadores impulsionam-me para o retorno às minhas rotinas. E mesmo com os sintomas de uma gripe que nenhum analgésico conseguiria frear, retorno.
Nessas horas é que se vê como os lenços de papel ocupam um lugar de destaque entre as coisas mais preciosas que um ser humano pode possuir. Não fosse por eles, eu estaria nesse exato momento assoando meu irredutível nariz com papéis impróprios para tão encharcante função, coisa que muito provavelmente transformaria a abertura de minhas narinas e meu lábio superior em estruturas horrendamente irritadas e tomadas por feridas oriundas do efeito lixa de tais elementos fibrosos.
Nem gosto de imaginar que fim teria meu dispositivo cheirador se eu recorresse aos lenços de tecido que, antes de serem sedosos e agradáveis ao tato, são mais abrasivos que uma pedra a amolar. Isso certamente deixaria meu rosto de tal forma destruído que as pessoas viriam e me perguntariam quem teria sido o meliante a me surrar.
Pensando bem, não vejo como sustentar uma situação dessa utilizando lenços de tecido. Mesmo que fossem feitos da mais fina seda, teriam que ser lavados. E lavá-los seguramente não seria uma tarefa das mais agradáveis, principalmente para os de estômago fraco. Imagine a delicada estrutura permeada pelo mais repugnante muco que só uma pútrida e irascível gripe poderia fabricar.
Certamente esse lenço seria muito abominável e o lixo seria um lugar de onde muitos se lembrariam antes de lavá-lo. Assim sendo, o lenço de papel tornou-se um grande aliado de nossas caras e de nossos estômagos, firmando-se como um dos principais agentes da felicidade do convalescente moderno.
Macacos me mordam! Esse texto começou com preguiça e acabou banhado em muco. Hoje realmente é um daqueles dias escatológicos para se limpar da memória.
E por falar em limpar, deixe-me procurar meus lenços que a coisa está ficando preta por aqui...
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:51 PM
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Sexta-feira, Agosto 08, 2003
Palavras Voam
Muitas vezes me pergunto por que usamos algumas palavras tão estranhas pra dizer o que pensamos. "Entretanto" é uma delas. Por que usamos "entretanto" entre tanta diversidade?
"Entretanto" é usado com o mesmo sentido que "todavia". Todavia, "entretanto" não é de uso em toda a via. E se "todavia" é o mesmo que "entrementes", somente entre mentes eruditas é que "entrementes" encontra abrigo. Felizmente.
Se desejarmos uma maior compreensão de nossos semelhantes, poderemos usar, em vez de "entrementes", um singelo "contudo", com tudo o que se tem direito. Alguns usam, para se sentirem mais confortáveis em tanto desconforto, um "no entanto". No entanto, um simples "porém" pode ser abraçado. Mas o porquê de não utilizamos somente o "porém" é que é o grande "porém" da questão.
Contudo, alguns encontram maior sonoridade ao ouvir um "não obstante", não obstante a estranheza. Apesar disso, normalmente um "apesar disso" encontra um bom lugar pra existir em nossos textos.
Entretanto, como todas as palavras me parecem atraentes, utilizo-as sem ater-me a nenhum porém. Todavia, se a frase, nesse entrementes, exigir-me uma conjunção mais carismática e, apesar disso, eu utilizar um mero "mas", ainda assim fixarei minha mente no que desejo dizer, não obstante alguma perda na facúndia.
E veja que perder algo na facúndia pode ser terrível em determinadas situações, principalmente quando não se tem a mínima idéia do que facúndia significa.
postado por: EDMUND BONAPARTE 11:49 PM
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Quarta-feira, Agosto 06, 2003
Surra De Bits
Impressionante como alguns sistemas operacionais muitas vezes se tornam totalmente não operacionais. Ontem meu Windows rebelou-se e voltou sua fúria deletiva contra esse humilde e pacato usuário.
Ele travou, e congelado permaneceu até que uma medida reiniciativa eu tomasse. Tomei-a, e num rompante de rebeldia tecnológica, voltou a travar. Dessa vez, abusadamente, mostrou aquela careta azul de deboche, repleta de códigos indecifráveis para um ignorante usuário doméstico. Creio que essa é a forma dos computadores nos mostrarem a língua.
Não perdi tempo com tamanho desacato. Tornei a reiniciar o computatório dispositivo. Meu sistema, em um flagrante abuso de minha paciência, começou a travar, mas dessa vez aos pouquinhos. Encontrava algum problema em cada programa que estava aberto e dizia que somente duas opções me restavam: fechar ou ignorar.
Mergulhado em minha ignorância, ignorava. Mas, em uma atitude de descarado escárnio, era ele quem me ignorava toda vez que ali eu clicava. Era, por assim dizer, compelido a fechar um programa atrás do outro até que me restasse somente uma área de trabalho cheia de ícones inúteis.
Percebi então o que se passava. Antigo e cheio de manias, meu sistema operacional já não queria mais nada com nada. Queria descansar, queria suas tão merecidas férias depois de anos de uso. Havia mais de dois anos que ele havia sido instalado e que ele permanecia operando continuamente, sempre inchando a cada novo programa acrescentado. Apesar de ser um software sua vida não era nada "soft".
Tinha que fazer algo para que sua influência desestabilizadora não alcançasse meu hardware e o lançasse novamente em seus problemas existenciais. Já havia sido uma batalha e tanto demovê-lo de continuar sua última greve.
Então, imediatamente recuperei os discos de instalação do sistema operacional em questão e fiz o que deveria há muito ter feito, mas que as forças contrárias (preguiça, desânimo, cansaço, etc.) me impediam eficazmente.
Reinstalei-o, e na agilidade de um sistema enxuto, escrevo essas palavras.
Pobre sistema antigo. Espero que seus bits encontrem o descanso que tanto almejavam e que sua memória viva para sempre naqueles que o amavam.
Mas falando em memória, eu acho que um pouco mais de memória nessa máquina não seria em nada desagradável. Mas é melhor que eu vá tirando isso da memória. Afinal, da última vez que eu interferi nesse duro hardware, muito me incomodei.
Vou então seguir aqueles dois sábios provérbios: "Em pássaro que está ganhando não se voa" e "Mais vale um time na mão do que dois mexendo".
Ou mais ou menos isso.
postado por: EDMUND BONAPARTE 2:51 PM
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Segunda-feira, Agosto 04, 2003
Reconectando
Meu corpo andava anestesiado. Ficava ali, imóvel, nas sombras, como um zumbi em coma profundo. Minha mente (é sempre ela), absorta em intensa aspiração, havia abandonado a matéria. E por tempos, que para mim pareciam infinitos, foi o que ela fez.
Deixou minha amortecida casca orgânica e vagou livremente pelo mundo das coisas que não se pode entender nem tocar. Demorou-se por terras distantes. Viajou pelo passado e prendeu-se tenazmente nas promessas das coisas futuras. Ela queria estar em qualquer lugar, menos aqui e no presente. Não queria mais voltar.
Meu corpo, infatigável guerreiro das causas realísticas, buscando o livramento de seu paralisante suspense, puxou sua mente de volta e, com a energia necessária para que as coisas retornassem a um rumo conhecido, esmerou-se por lhe mostrar a realidade das situações presentes e em convencê-la a limitar sua ação ao mundo tangível. Quis fazê-la ver que seu lugar era ali, junto dele, pois um corpo sem mente é tão inútil e desesperante quanto uma mente sem corpo. Precisavam trabalhar em conjunto novamente. Ela, distante e sonhadora, lutou até a exaustão e então, combalida, cedeu. E não havia escolha, era uma questão de sobrevivência.
Agora, novamente reunidos, corpo e mente estão tentando entender melhor um ao outro. Por muito tempo ficaram em flagrante litígio e o entendimento com certeza tomará outra parcela de tempo para se estabelecer novamente. Mas eles vão levando suas existências, crendo que o futuro é imprevisível e repleto de surpresas, algumas boas e outras ruins, mas que não é prudente buscá-lo com louca ânsia, já que isso somente torna ácido aquilo que chamamos de presente. E o presente é a única propriedade que os mortais verdadeiramente possuem.
Sigo então com meus dias, acreditando que as atitudes que tomei foram para o meu bem e para o bem daqueles de quem muito gosto, mesmo que algumas de minhas ações tenham parecido ilógicas e dolorosamente amargas. Continuo dando os meus passos - não tão largos como dantes - com a mente aberta e com o coração limpo, esperando que as coisas que o futuro reserva - e ele sempre nos reserva algo - sejam boas. Mas se elas tiverem que ser ruins, ao menos que trabalhem para um fim melhor.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:01 PM
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Domingo, Agosto 03, 2003
A Certeza
A certeza é, com certeza, algo que ninguém tem muita certeza. Quem diz que tem, freqüentemente se equivoca, pois ela é grande demais para que a abracemos completamente.
O que dizer então das certezas absolutas? Equívocos absolutos são suas mais freqüentes realizações. Quem as possui, julga, pois a certeza absoluta lhe dá essa prerrogativa. Quem julga, normalmente condena, pois o julgamento também lhe dá esse direito. E quem condena, geralmente executa, pois a condenação lhe permite em igual regra.
As certezas absolutas vivem no mundo das perfeições, longe dos olhos e das mentes humanas. Elas exigem conhecimento absoluto de tudo e de todos, convivem somente com a onisciência e em nada se assemelham ao que pensamos e sentimos.
Somos fadados a andar no escuro por nossa existência. Possuímos o raciocínio, a intuição e talvez algumas outras faculdades mentais que nos ajudam em nossa constante e claudicante rotina de erros e acertos. Não nos foi dado o direito de saber o que será, nem entender a plenitude das coisas. A certeza absoluta está para nós como a Via Láctea está para um grão de areia.
Somos prisioneiros de nossa ignorância. Cegos andando em um gigantesco labirinto, onde a cada indivíduo foi dado o conhecimento de um ínfimo pedaço e nada mais. Regalamo-nos em nosso parco conhecimento, enquanto trucidamos a verdade com a arrogância, que sempre encontra, na falta de saber, sua nutrição.
Fomos criados para acreditar, achar, entender, supor, pensar, intuir e ter fé, mas jamais para estarmos certos de coisa alguma. Tudo o que fazemos é por obra de fé. Fé em Deus, em nós mesmos, nos objetos, nas idéias, no tudo, no nada ou em qualquer outra coisa que pensemos ou sintamos. Até o mais ateu dos ateus tem sua fé firmada na força de seus braços, na potencia de sua mente e na crença da inexistência de Deus. E cada um receberá de sua fé conforme o que ela pode lhe proporcionar.
Essa é a certeza que nos cabe conhecer. Sempre diminuta e relativa, pois ela existe somente em relação ao que conhecemos e entendemos. O resto é ignorância.
Mas pode ser que eu esteja completamente equivocado, pois não tenho certeza de nada disso que eu disse.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:20 PM
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Sábado, Agosto 02, 2003
Insistência
Estava eu escrevendo em meu computador quando a luz do sol, sempre alegre e convidativa, aproximou-se e disse:
- Edmund, venha me encontrar aqui fora. Saia da frente dessa fria máquina e venha sentir o meu calor. Não posso mais suportar a saudade de você.
Quem resiste a um chamado assim? Pois bem, resisti.
Então a brisa, suave e refrescante, entrou por minha janela e soprou em meu ouvido:
- Venha, Edmund. Aproveite aqui comigo esse dia maravilhoso. Apague essa máquina, levante-se e saia comigo hoje.
Fiquei sem palavras novamente, mas ainda assim resisti.
A essa altura, meu cabide, sempre sábio e equilibrado, não se conteve e comentou:
- Veja bem, Edmund, veja bem. Não quero ser, veja bem, o dono da verdade, meu caro, mas acho que você, veja bem, deveria sim, meu caro, sair com o sol e com a brisa. Veja bem, Edmund, elas não costumam convidar os viventes dessa forma, meu caro, e presumo, veja bem, que se você não for, meu caro, talvez nunca mais lhe convidem. E tenho dito.
Já estava no limite de minha resistência, mas ainda assim resisti.
Então, meu criado-mudo, que não é meu criado e que tampouco é mudo, não aguentando ficar de fora de tanto falatório, começou a torrar-me a paciencia com tamanha eficiência que para não cair em demência, implorei por clemência.
Dessa vez, não resisti.
E que dia lindo fez aqui.
postado por: EDMUND BONAPARTE 5:45 PM
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