Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Sábado, Novembro 29, 2003
Circulando
Hoje, ao olhar meu guarda-roupa, meu criado-mudo e suas ridículas bolinhas amarelas, pus-me a pensar na essência dessa psicodélica realidade que minha amada namorada trouxe à luz alguns posts abaixo.
Por muitos anos julguei que os tais círculos fossem nada mais do que alguma alucinação persistente, um resíduo circunscrito em minha circunflexa sanidade, levando-se em conta que uma boa razão para suas existências jamais me foi revelada e que também jamais os vi desaparecer após ingerir minha dose diária de antialucinógenos.
Mais tarde, pesquisando melhor o assunto junto aos meus pais (os reais proporcionadores de tão incomum mobiliário), descobri que tal peça pertencia à família Bonaparte há algumas gerações, sendo que o tão alucinado desenho em sua antiga estrutura tinha por objetivo (e aqui digo "tinha" porque me é impensável que o tenha alcançado) proporcionar uma alegria visual à criança que o possuísse em seu quarto.
Sim, o supracitado guarda-roupa e suas inacreditáveis manifestações circulóides não eram mais do que um incentivo criativo voltado à mente infanto-juvenil.
Mas os anos passam (sim, eles sempre passam) e os indivíduos, sob o peso desses ciclos, vêem amadurecer suas necessidades. Hoje um móvel infanto-juvenil com suas bolinhas amarelas me é sofrível. Portanto, necessito encontrar urgentemente um substituto juveno-varonil, ou ainda mesmo um varono-senil (caso eu deseje que o meu novo móvel possua uma vida útil mais elevada) para minha amarelada incompatibilidade mobílio-temporal.
Sei que encontrarei algo mais apropriado. Creio até que já o tenha encontrado. Procurei na internet e, em um site bem comercial, achei o móvel que poderá fazer o necessário upgrade em meu anacrônico dormitório. Encontrei um conjunto que, ao invés das ridículas bolinhas amarelas, possui belos paralelogramos verde-limão.
Espero que Josephine goste.
Mas devo confessar que espero muito mais que minha querida namorada não seja somente uma alucinação de minha enlouquecida mente. Mas se o for, certamente é a mais maravilhosa alucinação com que um lunático poderia alucinar, e decididamente meus antialucinógenos não mais tomarei.
Só espero que isso não encha de bolinhas amarelas o restante de meus móveis.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:57 AM
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Sábado, Novembro 15, 2003
Sofrimento Coletivo
Hoje, sempre quando vejo ou entro em um ônibus, não posso deixar de me lembrar de como pode ser desagradável você estar em um deles no dia errado e na hora errada.
Certa vez, entrei em um ônibus de uma linha reconhecidamente (mas não por mim, até aquele momento) freqüentada por imensas massas humanas que, em seus irrefreáveis desejos por retornar aos seus lares, estão dispostas a qualquer coisa por um lugar ao sol (ou longe do sol, se o ônibus for daqueles com janelas minúsculas ou se o dia estiver nublado).
Entrei, desavisado, crendo que tal itinerário era tão somente mais um comum itinerário, com um comum número de usuários, em um comum dia, nas comuns ruas de minha comum cidade.
Minha surpresa foi bastante incomum. No começo as coisas estavam boas (quase tudo é assim no começo), mas, à medida que os pontos de embarque foram se sucedendo, o povo, em sua sequidão por um transporte, foi se acumulando em extraordinário número no interior do extra-ordinário ônibus (era um daqueles bastante antigos e que não proporcionava o mínimo de conforto).
A cada indivíduo que, espantosamente, conseguia entrar na estufada carroceria do coletivo, ouvia-se um gemido de dor de alguém mais à frente e que estaria sofrendo as conseqüências da onda de pressão resultante.
O motorista, senhor visivelmente embrutecido pelos anos de sofrimento, parecia nutrir um certo prazer mórbido quando parava em um novo ponto de embarque. Os gritos desesperados de "Não pára! Não pára!", que a massa comprimida desprendia, pareciam soar como um sádico incentivo ao enlouquecido condutor.
Quando tudo parecia perdido e a esperança era mercadoria rara, uma senhora de uns cento e dez quilos, obcecada com a idéia de entrar no transporte coletivo, não enxergava a real impossibilidade física de sua obsessão. Tentou uma vez. Falhou. Tentou uma segunda vez, e agora com um pouco mais de força. Falhou novamente, mas dessa vez pude ouvir um grito de desespero de alguém próximo e que certamente teve alguma parte de seu corpo esmagada na tentativa.
Sua obstinação só não era maior que a indescritível aflição na qual a nação dentro daquele ônibus já estava afundada. A obesa senhora deu então alguns passos para trás e, num furioso impulso, atirou-se contra o maciço paredão humano a sua frente.
Nesse momento, mesmo que atordoado com o impacto, pude ouvir a lataria ranger como os rugidos de cem leões esfomeados, e escutei alguns dos rebites serem disparados como tiros de um trinta e oito. Um senhor de cerca de setenta anos que sentava mais a frente, foi ejetado pela janela, por conta de uma lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Homem de sorte. Havia conseguido sair dali.
Quando, segundos mais tarde, minha tontura passou, não pude acreditar na situação em que estávamos. Cri que tudo fosse somente mais uma alucinação. Tentei pegar meus antialucinógenos, mas não consegui me mover. Somente meu olho direito, prensado contra a janela, é que possuía algum grau de liberdade.
Com esse olho vi passar o ponto onde queria descer, mas nem liguei para isso. Havia coisas mais importantes com o que se preocupar. Nossas vidas.
Um muito magro senhor, tão obstinado em descer como a tal senhora em subir, foi, com uma fúria admirável, rastejando como uma aranha pelo teto, pressionado pelas cabeças dos seus afligidos semelhantes até alcançar a porta. Tentativa inútil. O ônibus havia se tornado um bloco compacto e o motorista não podia abrir mais a porta, por mais que desejasse.
Nossa única esperança era uma oficina mecânica e um maçarico.
O motorista, agora também assustado com a obra de suas mãos, resolveu ignorar o seu itinerário e procurar ajuda profissional para nosso denso problema.
Seguimos cautelosamente rumo à garagem da companhia. No caminho, quase caímos em um arroio, quando o motorista usou a bengala de um velhinho para fazer a mudança da marcha e pisou no rosto de um passageiro quando tentou acionar o freio.
Uma voz, muito debilitada, manifestou uma idéia que poderia nos dar mais algum tempo de vida. Disse ela:
- É óbvio que não podemos respirar todos ao mesmo tempo. Vamos nos organizar e utilizar o ar que nos resta com sabedoria. Vamos nos dividir em três grupos, os que estão à direita, os que estão à esquerda e os que estão debaixo dos bancos. Um grupo respira de cada vez. Vamos lá! Os da direita... agora os da esquerda... agora os que estão debaixo dos bancos...
Parece que, em matéria de oxigenação, não adiantou em muita coisa, mas ao menos desviou um pouco a nossa atenção do suplício pelo qual passávamos.
Quando enfim chegamos à garagem, respiramos, um grupo de cada vez, aliviados. Pude então finalmente desmaiar sabendo que sairia de lá, de algum jeito. Os mecânicos logo trataram de desparafusar a carroceria e retirar os sobreviventes de dentro do veículo. Ambulâncias já aguardavam no portão a essa altura.
Quando recobrei os sentidos, dois dias mais tarde, estava deitado em uma maca de um hospital superlotado. Ainda tinha uma gravata amarrada no meu pé direito, uma meia na cabeça e algumas moedas na boca. Mas o importante é que, apesar do horror daquela viagem, eu ainda estava vivo e havia saído sem maiores traumas psicológicos.
Eu acho.
postado por: EDMUND BONAPARTE 11:27 AM
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Quinta-feira, Novembro 13, 2003
Contos Do Carunchinho
Algumas atitudes deixam-me profundamente entristecido, principalmente quando se referem às histórias infantis mal relatadas.
Quem nunca se surpreendeu ao saber que, ao final da história, a chapeuzinho vermelho e sua vovozinha são retiradas do ventre de um terrível lobo mau que, ao enganá-las, devorou-lhes até os espartilhos sem, no entanto, retirar-lhes a vida.
Inexeqüível! Seguramente o terrível lobo mau não passava de um desconhecido parente europeu da jibóia, e ainda assim um parente bastante molenga, já que não quebrou todos os ossos dos corpos das lendárias criaturas antes de devorá-las por inteiro. E tudo isso sem levar em consideração que o tal lenhador deveria tê-las resgatado imediatamente após o mitológico banquete, sob pena de somente encontrar corpos sufocados e semidigeridos.
Mas isso não é o pior. O que dizer de porquinhos construindo casas de palha, madeira e alvenaria? Quem nunca se sentiu completamente inútil ao vestir simples luvas e constatar que tais peças tornavam qualquer tentativa de manusear algum objeto mais complexo um verdadeiro teste de habilidade motora? Agora tente imaginar-se construindo uma casa possuindo cascos em vez de mãos.
Alguém poderia dizer que tal dificuldade explicaria o porquê de o mero sopro de um lobo ser capaz de derrubá-las por completo. Mas não se deve esquecer que, como em muitas histórias européias, o lobo sempre serviu de bode expiatório para as desventuras dos povos aquela região. Sendo assim, creio que os tais porquinhos não passavam de macacos treinados na arte da construção civil e que o famigerado lobo soprador era não mais do que uma escapista metáfora a uma certa tempestade que, com seu demolidor sopro, destruiu as delicadas moradias.
Mas e o que falar então da Branca de Neve e dos sete anões? Acredito firmemente que tal garota era somente uma moça revoltada com os maus tratos de sua madrasta, que deveria ser uma bruxa de tão ruim, e que se entregou ao alcoolismo como uma fuga para sua dura realidade. Os sete anões nada mais eram do que alucinações oriundas de sua constante e profunda embriaguez.
Certo dia, mergulhada em abissal pileque de licor de maçã, a tal moça, que só era branca daquele jeito devido aos maus tratos que o álcool aplicava ao seu frágil corpo, entrou em coma alcoólico no meio da floresta. De tão debilitada que andava, qualquer um diria que estava completamente morta, como, de fato, foi o boato que circulou e que acabou vingando.
Quanto ao tal príncipe, nada mais era ele do que um camponês que passava por ali e que se dispôs a auxiliar a ébria mulher. Quando ela por fim acordou, ainda bêbada como um gambá, certamente viu o esfarrapado campônio como se fosse um belo e audaz príncipe.
Mas quem acha que isso é tudo, seguramente se apavoraria com a história da Alice no país das maravilhas...
Mas deixa isso pra outro dia, pois ainda não tomei meus antialucinógenos e já estou vendo fadinhas por aqui.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:42 PM
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