Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Terça-feira, Maio 04, 2004
Diretamente do nosso Departamento de mitos gigantescos e alegorias incomensuráveis:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
Hernani, O Último Megalomaníaco
Segunda e Última Parte... Felizmente.
No hospital já haviam percebido que Hernani aumentara seu peso em dez por cento. Nessa taxa, concluíram, suas células iriam se romper em poucas semanas e Hernani simplesmente iria se desmanchar e escorrer ralo abaixo. Sem ter o que fazer, decidiram deixá-lo em observação e anotar cada estágio de sua degradação física, pois sem dúvida seu caso era raríssimo e não poderiam deixar de presenciar e registrar tamanha pereba em seus mínimos detalhes, como todo bom médico sadicamente sabe fazer.
Mas Hernani não estava muito contente com tão humilhante situação e, num descuido da segurança do hospital, fugiu pela noite em direção à reserva florestal, onde decidiu viver seus últimos dias.
Cansado com a correria e mais sedento do que nunca, deitou-se à margem do rio, com sua cabeça dentro da água, e bebeu, bebeu e bebeu, por horas a fio, até adormecer.
Pela manhã, quando Hernani finalmente acordou, percebeu que tudo à sua volta parecia muito menor. As árvores, que à noite pareciam imponentes e ameaçadoras, agora eram somente como pequenos pinheirinhos de natal.
O rio, antes largo e profundo, não mais passava de um simples córrego. Hernani havia aumentado várias vezes de tamanho. Suas células não explodiram, mas se dilataram e o transformaram em um ser colossal. Megalomaniacamente imenso.
Não se pode dizer que, ao se dar por conta de sua situação, não tenha Hernani ficado um tanto satisfeito. Mas sua alegria duraria pouco, pois novamente sua sede o atormentava e o forçava procurar novas fontes de água.
Seguiu então o rio e, com a concha de sua mão, foi bebendo suas águas até chegar na represa da cidade. Bebeu-a por completo, até que sobrasse somente a lama do fundo. Bebeu até um barquinho e meia dúzia de pescadores que trabalhavam por ali.
A essa altura, altura era o que não lhe faltava. Media já mais de trezentos metros.
Mas a sede de Hernani era grande, maior do que qualquer coisa que alguém já tenha visto ou ouvido falar. Em sua hídrica mente a água era seu obsessivo desejo e encontrá-la a qualquer custo, seu irredutível propósito. Hernani havia se tornado um monstro, daqueles de dar inveja a qualquer filme japonês.
Observou então que perto dali havia outro lago. Pôs-se a correr desenfreadamente, fazendo tremer a tudo e a todos em um raio de muitos quilômetros. Cidades inteiras chacoalhavam e ruíam ao ritmo de seu sísmico trote.
Quando por fim chegou ao lago, ajoelhou-se e, com a mão esquerda na margem sul, e com a mão direita na margem norte, mergulhou a cabeça nas barrosas águas e as sorveu como se tomasse uma sopa.
A essa altura, a notícia da monstruosa criatura e de seus calamitosos atos já circulava nas rádios e nas televisões do mundo todo. Mas pouco havia o que se pudesse fazer.
Forças aéreas de vários países se uniam na tentativa de abater a gigante entidade. Caças abarrotados de armas partiam em contra-ataque, mas Hernani nem dava por conta a presença deles. Tratava os pequeninos aparelhos como se fossem mosquitos e, aos tapas, os destruía às centenas.
Hernani atingia alturas estratosféricas.
Seguindo sua destrutiva rotina, já atravessava estados em poucos passos e em goles absorvia toda a água que enxergava, crescendo a uma taxa assustadora.
Hernani atingia proporções continentais.
Os povos, em desespero, jogavam nele todo o armamento que possuíam, mas nem suas bombas atômicas o abalavam. Ele as ignorava da mesma forma que se ignora uma pedrinha no sapato.
O mundo jamais havia presenciado tamanho terror. Nações eram pisoteadas e esmagadas como formigas. A humanidade agonizava sob os pés de um megalomaníaco.
Nesse ponto, Hernani já não mais encontrava água doce em estado líquido e, como uma criança, arrancou os andes do chão e comeu o cume de suas montanhas como se fossem sorvetes de creme. Fez o mesmo com todas as cordilheiras que encontrou e, quando acabaram, devorou o pólo-sul e o pólo-norte.
Hernani atingia proporções cósmicas.
Já não havia mais água doce para beber, e Hernani, transtornado e sem alternativas, bebeu os sete mares.
Entretanto, o sal dos mares somente o fez ficar com uma sede ainda maior e, em sua distorcida e enlouquecida razão, lembrou-se que um dia ouviu falar da água que havia de existir em uma cratera na Lua.
Não titubeou. Lançou-se em um salto na direção do brilhante satélite, mas nem ao menos chegou perto. A lua estava muito longe, mesmo para Hernani.
Todavia, seu salto lhe cobrou um alto preço. Sua indescritível massa, que já havia tirado a terra de seu eixo no momento do salto, agora lançava o restante da humanidade em direção ao sol, quando o apocalíptico impacto de seu corpo tirou o planeta de sua órbita.
Os vulcões que sobrevieram do deslocamento das placas tectônicas destruíam grande parte da superfície do malfadado planeta, como uma amostra do fim que lhe aguardava.
Hernani, ferido e caído na continental cratera que sua queda criou, e com sua consciência já não tão turvada, olhou para o vazio e, em derradeira rima, disse:
Nesse calor infernal,
E com o destino claramente selado,
Sobra-me um desejo visceral:
O que eu não daria por um drinque gelado!
Moral: Não importa ter o corpo desintegrado em uma fornalha estelar e ainda levar o resto da humanidade junto, desde que nunca se perca o senso de humor
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:36 PM
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Sábado, Maio 01, 2004
Diretamente do nosso Departamento de mitos gigantescos e alegorias incomensuráveis:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
Hernani, O Último Megalomaníaco
Hernani, megalomaníaco de nascença, sempre bebeu muita água, e tanta água bebia Hernani que todos os que o conheciam acreditavam existir algum tipo de rara doença a atacá-lo.
Aflito, mas sem perder o passo de majestade, resolveu por bem consultar um médico. E assim o fez, sem hora marcada, pois Hernani não acreditava nas horas e muito menos em marcá-las. Considerava-se uma criatura atemporal e, portanto, mereceria atenção diferenciada.
Ao chegar, a primeira coisa que fez foi beber toda a água mineral da secretária - criaturinha bisonha, mas muito dedicada - que, sem saber o que fazer, somente soltou um sorriso mais amarelo que seu desmilinguido corpo.
O senhor tem hora marcada? - Perguntou desajeitadamente a ainda mais desajeitada senhora.
Como ser complexo que sou,
De tal hora não preciso,
E falar-lhe mais não vou,
Pois meu complexo é de Narciso.
Hernani sempre falava em rimas, por mais irritante que isso fosse.
E ela então disse:
Mas senhor... Narciso?... De hora marcada Eu preciso!. - Disse a esquálida atendente, rimando por acidente.
Ao que Hernani respondeu:
Veja, criatura demente,
Em minha magistral perturbação,
Não ficarei eu aqui, doente,
Ouvindo sua reclamação.
A você, mulher sem nenhum encanto,
Digo, ainda com pouco rancor,
Saia agora desse seu canto,
E vá chamar-me o doutor!
Hernani era um indivíduo muito estúpido e arrogante, como todo o bom megalomaníaco deve ser.
O médico, Doutor Niquete, famoso por sua tolerância, ouvindo o barulho que vinha da sala de espera, e sem paciente para aquela hora, resolveu averiguar o que ali ocorria.
Bom dia, caro senhor! Em que posso ajudá-lo?
Sei que é médico de boa fama,
E o mal que me ataca não há quem ature,
Para que eu não fique de cama,
Quero que você me cure!
Pois bem, disse o doutor, venha para minha sala e me conte seu problema.
E ambos entraram, mas não antes que Hernani bebesse toda a água do bebedouro e a de uns vasinhos de flores que enfeitavam a sala.
Doutor Niquete emendou:
Vejo que tem muito sede, senhor...?
Não pronuncio meu nome à toa,
Mas como o senhor está a me tratar,
Tomarei essa curiosidade como boa,
E um insulto não a vou considerar.
Hernani, o poderoso, eu me chamo,
Senhor das coisas que vejo,
E as dádivas desse mundo eu amo,
Pois meu bem sempre desejo.
E esse mal que me atormenta,
Ao usurpar a paz que ambiciono,
Torna-se malévola ferramenta,
Que destrói minha fome e meu sono.
Uma sede, sem trégua, minha mente tortura,
E a faz vagar por caminho penoso,
O que peço é somente a soltura,
De tão vil desejo aquoso.
Impressionante! - Disse o bom médico - Precisamos fazer alguns exames. Vou interná-lo imediatamente e estou certo que descobriremos o que está acontecendo com você.
E por uma semana Hernani passou por todos os testes e exames imagináveis no hospital, e a uma conclusão terrível os médicos chegaram. Hernani sofria de Megalomaniosis Holocorpórea Gigantae grave, que, entre muitas consequências imprevisíveis, fazia com que todas células de seu corpo ficassem ávidas por água, por toda a água que pudessem absorver. Seu corpo era mais megalomaníaco que o próprio Hernani.
...Continua no próximo post....ou não...ou talvez...acho que sim...é...provavelmente sim...ou não...mas...eu acho que sim.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:15 PM
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