Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Quarta-feira, Julho 21, 2004
Conversa Para Boi Dormir

Hibernei, é bem verdade. Não imaginei que algo assim poderia acontecer comigo, mas, após terminar de ler o último post de minha amada namorada Josephine, estranhamente comecei a perder as forças, os olhos começaram a ficar pesados, tudo me parecia lento, sem forma e vazio, e a vontade de encontrar um lugarzinho macio e quentinho começou a tomar proporções cósmicas em minha mente.
Para ser totalmente sincero, era só nisso que eu conseguia pensar, em dormir. Saí então para procurar o perfeito abrigo para o meu psicosomatizado corpo.
Tentei, primeiramente, a minha cama, visto ser o local mais próximo e de fácil acesso. Infelizmente uma obra de construção de um edifício que se instaurou no terreno vizinho ao meu, e o enlouquecedor barulho dela proveniente, impossibilitou de forma espantosa qualquer tentativa mais empreendedora de entrar em meu tão ansiado estado de letargia.
É óbvio que ali eu não poderia continuar. Minha única chance era sair pelo mundo à procura de meu berço esplêndido. Comecei pela quadra de minha casa, mas não havia coisa alguma por aqui que se parecesse minimamente com um agradável leito hibernístico.
Não desisti, pois um lunático jamais desiste. Exceto quando cansa de tentar.
Mas eu não estava cansado. Na realidade, eu estava cansado. Estava mais do que cansado, estava exausto. E se não encontrasse logo um lugar onde repousar certamente desfaleceria desfalecerantemente onde quer que fosse, o que seria bastante constrangedor, se eu estivesse consciente para perceber. Minha obsessão por hibernar estava me tirando o sono.
Por fim, pouco antes de perder a consciência, encontrei em uma fábrica de móveis o elemento que supriu de forma admirável a minha inercial necessidade.
Enfiei-me dentro de um enorme armário, o qual forrei previamente com alguns edredons que encontrei no local. Tomei emprestado também um ortopédico travesseiro, para que minha hibernação não viesse a prejudicar minhas costas. E dormi.
Acordei na Bolívia, mais precisamente em uma loja de La Paz, quando um casal que fazia compras me tirou do profundo torpor ao iniciar uma desmesurada gritaria.
Devo admitir que eu deveria ter tomado mais cuidado ao escolher o armário onde enfiar meu alucinado corpo, visto que o interior de móveis para exportação realmente não é o melhor lugar para hibernar.
Mas apesar de estar em La Paz, decidi não perder a paz e encontrar meu caminho de volta. Resolvi arranjar um trabalho temporário para suprir minha carência monetária, coisa que foi relativamente fácil. Bastou pegar uns pacotes estranhos de um pessoal bastante nervoso e levá-los para outro pessoal igualmente bastante nervoso que rapidamente adquiri o dinheiro para minha passagem de volta.
Quanto ao povo nervoso, aconselhei-os a não mais andarem armados, visto que arma é indubitavelmente um perigo para o próximo e para si mesmo, e que eles seriam muito mais felizes sem todas aquelas metralhadoras, rifles e escopetas.
Deixei-os então e retornei para Porto Alegre o mais rápido possível. E posso agora falar com conhecimento de causa que, mesmo sem entrar em maiores teorias, hibernar cansa demais.
E boa noite.
postado por: EDMUND BONAPARTE 6:24 PM
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Quarta-feira, Julho 14, 2004
Considerações Expositivas Semiconclusivas E Potencialmente Evasivas

Eu, seguindo a definição de um "blog diário", deveria postar aqui hoje, perfazendo um alucinado revezamento de posts com minha amada namorada Josephine. A bem da verdade, eu deveria ter postado ontem, coisa que somente engorda mais a minha não magra ficha corrida de ausências não premeditadas.
Tais acontecimentos lamentáveis só não me surpreendem profundamente por não serem nenhuma surpresa pra mim.
É claro que, se eu for extremamente rigoroso, constatarei que algumas ausências foram, de fato, premeditadas, mas então corro e recorro(1) ao artigo vinte e um, parágrafo cinco, do Manual Internacional Do Lunático Nato, que diz:
"Fica proibido a qualquer lunático, em qualquer grau de lunaticidade, autoproclamar-se culpado por crimes de ausências premeditadas, salvo se isso lhe encher de satisfação e profundo regozijo".
Como realmente não gosto de não deixar de não vir aqui e de não escrever nada, nunca e jamais, posso dizer que tal parágrafo, habitante em tal artigo, me cai como uma luva e me dá uma mãozinha.
Agora, sem realmente querer mudar de assunto, mas impulsionado por uma dúvida terrível, tenho que dizer que não entendo essa expressão "me cai como uma luva". Todas as luvas nos caem como uma luva?
Eu, particularmente, já passei por várias situações em que luvas não me caíram como uma luva. Algumas nem caíram, ficando presas em meus dedos já de início.
Pode-se dizer que esse é o jeito que as luvas caem, às vezes folgadas, outras vezes nem entrando e de vez em quando, e por pura sorte, encaixando como acho que todas as luvas gostariam de se encaixar.
Com certeza é muito triste ser uma luva que não se enquadra na vida, vivendo humilhada, de crista baixa ou mesmo deprimida e escondida dentro de uma gaveta com cheiro de mofo. Dessas pode-se realmente entender quando dizem que sentem um vazio interior.
As minhas luvas eu trato com profundo respeito, usando-as quando necessário e tentando fazê-las entender que nem sempre é possível utilizá-las e que no verão é melhor que elas hibernem, digo, invernem, no porta-luvas do automóvel, pois é lá ou na gaveta, não tem meio termo, e dos males o melhor(2).
Falando em porta-luvas, parece-me muito interessante que tal espaço tenha esse nome, já que é muito raro ver alguém guardando luvas no porta-luvas. Normalmente costumam guardar a frente removível do CD-Player, coisa que qualquer aprendiz de gatuno já está careca de saber, só perdendo para a opção de guardar debaixo do banco.
Portanto, depois dessa magnífica e totalmente elucidante explicação de porque não postei ontem e hoje, posto hoje, reduzindo em cinqüenta por cento a minha culpa.
Vou ficando por aqui, pois chove e os raios abundam. E se um raio cair em meu computador certamente não me cairá como uma luva.
(1) Recorro no verbo recorrer naquele sentido de "solicitar auxílio de", e não no de correr novamente, mesmo porque estou muito cansado hoje para sair correndo e recorrendo por aí.
(2) Digo o melhor porque nem sempre o menor mal é o melhor e muitas vezes o pior vem disfarçado de menor, como numa versão deturpada da máxima que diz que os melhores perfumes estão nos menores frascos.
postado por: EDMUND BONAPARTE 9:32 PM
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Domingo, Julho 11, 2004
Esqueço, portanto acho que existo

Olhar para trás é um exercício precioso. Não digo somente no sentido literal, como quando suspeitamos que algum meliante nos seca com olhos predatórios. Refiro-me a um sentido menos rigoroso, como olhar para os anos passados.
Naturalmente que olhar para tais períodos deve ser feito com um objetivo certo, pois somente recordar, sem nenhuma intenção maior do que somente recordar, pode ser bastante pernicioso, principalmente quando tendências melancólicas mais profundas habitam o indivíduo rememoriante.
O grande segredo que existe nesse expediente é, então, a comparação. Sim, recordar não para se entorpecer com os momentos de triunfo ou se descabelar com o que de ruim se viveu, mas para simples e puramente pesar os dias de hoje com os de ontem e, se o resultado for negativo na escala de contínua melhoria, buscar detectar onde foi perdida a correta trilha, onde nos separamos de nosso devido destino, e tentar novamente levar nossos passos ao correto rumo, por onde todas as alegrias e as mais profundas e duradouras emoções possam novamente fluir por nossos atrofiados sentidos e onde todas as luzes dos eternos astros repousantes em nossa celeste abóbada venham nos mergulhar em um banho mágico de euforia e glória, num contínuo e inebriante pulsar de cores e sensações.
Sim, tudo com bastante lirismo mesmo, porque se não é para se buscar viver com lirismo então que nem se perca tempo, que se vá trabalhar por um dólar ao dia em uma fábrica de quinquilharias na China.
Recordo-me de um presidente brasileiro, não sei se o Figueiredo, o Sarney ou alguma outra entidade das sombras (a verdade é que a ordem das pragas não altera o impacto ambiental), que disse, em seu derradeiro momento de gerência governamental, que nós sentiríamos saudades de sua pessoa (aqui ponho a palavra "pessoa", já que procuro sempre dar esse mínimo status a qualquer ser humano, mesmo que ele faça de tudo o que é possível para desmerecê-lo). Obviamente que ri do que me pareceu somente uma presidencial demência.
Profética demência.
O estado geral das coisas realmente piorou em muitos sentidos, principalmente para quem sentiu. Para quem não sentiu provavelmente não piorou, ou, se piorou, não foi o suficiente para sentir, o que, de certa forma, foi de brutal insensibilidade, visto que a maioria sentiu. Ou não.
Mas é esse labirinto de lembranças e profecias óbvias (visto serem os profetas os próprios promovedores das desgraças da coletividade) que deveria nos servir de fundamento para futuras escolhas, tanto no nível pessoal quanto no coletivo, para que o nosso coletivo não fique muito pessoal e para que o pessoal não bagunce o nosso coletivo.
Mas de lembrança, coletivo e pessoal eu só sei que o coletivo de lembrança não está em minha memória, que a lembrança do pessoal é muito coletiva e que a memória coletiva é sempre muito pessoal. Portanto façam o favor de esquecer tudo o que eu escrevi aqui, caso não seja um pedido muito pessoal querer que essas lembranças coletivas saiam de suas memórias.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:28 AM
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Quinta-feira, Julho 08, 2004
Diretamente Do Nosso Departamento De Mitos Medonhos E Alegorias Esteticamente Prejudicadas:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
O Patinho Horrendo
Nasceu então o patinho. E todas as aves aquáticas palmípedes lamelirrostras da região (pertencentes na maioria à família dos Anatídeos, especialmente as de grande porte) foram visitar a jovem mamãe e seu mais novo rebento, na intenção de perfazer todas aquelas manifestações culturais relativas aos acontecimentos memoráveis que todas as aves educadas e sedentas por bons conceitos na sociedade devem conhecer profundamente e exercitar com maestria (mesmo quando por motivos fúteis e a contragosto).
Mas o que ninguém esperava era encontrar, em vez de um belo e delicado patinho recém nascido do ovo, um estranho, desengonçado, desajustado, incongruente e desproporcional (entre muitas outras qualidades medonhas) ser que lhes ofuscava a vista e fazia seus estômagos borbulharem em clorídrica acidez.
O silêncio foi constrangedor por intermináveis segundos.
- Que patinho horrendo! - Cochichou Dona Patanha no ouvido de sua amiga de fofocas, Dona Gancilda.
Falando como louca (coisa que era lhe bastante fácil, visto ser realmente louca) igualmente cochichou:
- De fato, amiga Patanha, mas lembre-se de que se há males que vem para o bem, há males que vêm para o mal. E se é mesmo assim, há coisas boas que vem para o bem, e, por pura lógica aristotélica, há coisas boas que vêm para o mal. E isso me parece muito mau... muito mau... muito mau... muito mau.
E assim, muito mal recebido, foi o pobre patinho horrendo. Obviamente não foi agredido, sobretudo nos torturantes momentos daquela desalentadora apresentação, onde todos simularam, com grandiosa alegria, intensa simpatia pela nova cria que se unia à comunidade dos animais, mas não houve um único dia na vida do malfadado patinho em que não sentiu a profunda rejeição em absolutamente tudo o que fazia ou dizia.
Seus primeiros dias de vida se mostraram um desafio às suas habilidades naturais. O patinho horrendo, cujo nome de batismo seria Felix Patrasco, caso tivessem tido coragem de batizá-lo, possuía uma voz tão dissonante, disforme, pouco acústica, enervante, agônica e molesta, que seus estrídulos eram ouvidos a muitos e muitos trotes de distância. Mais ou menos a distância mínima que todos queriam manter dele. E nesse estado psicológico lamentável vivia Félix nesse mundo.
Era de costume em seus solitários dias ver sua mãe e seus irmãos nadando no lago. Sempre se sentia compelido a juntar-se a eles. Obviamente jamais levava aquele impulso a cabo, visto não saber nadar. Sim, Felix Patrasco não sabia nadar. Muito pior até, Félix Patrasco não possuía a menor idéia de como nadar. Olhava para os demais seres no lago e assombrava-se com tais demonstrações de flutuabilidade e com a sua aparente incompetência natatória.
Sua vida tornava-se cada dia mais angustiante. Não suportava mais aqueles olhares irônicos, os cochichos debochados dos demais patinhos e todos aqueles requintes de crueldade com que a sociedade patal costuma tratar os indivíduos que estão fora do padrão socialmente aceito.
Irou-se.
Depenou-se metaforicamente de inconformismo e, em sua encrudelecida mente, indignou-se furiosamente com aquela situação patológica:
- Patota de cretinos! - resmungou - Eles me pagam! Hei de ser o melhor pato que já nadou nessa porcaria de lago!
E nesse propósito, enlouquecido de asco, atirou-se na água a patinhar.
Afundou como uma pedra...com extrema dificuldade ergue a cabeça para fora da água; olhos arregalados, bico aberto de pavor, submerge novamente...calma no lago...algumas ondas e somente as patas são visíveis para fora, patas frenéticas...outro mergulho...segundos de silêncio...esguichos de água, asas batendo em visceral desespero, um corpo se contorce, cabeça, asas, pés e tronco se revezam em infernal balé, como se rolassem ribanceira abaixo e por fim afundam...
Todos vendo a dantesca cena exclamam assustados:
- Santo Donald! O patinho se afogou!!!
O reverente silêncio se instaurou entre os bichos, mesmo entre os que o detestavam, que eram a absoluta maioria. Agora não era mais hora de denegrir a imagem do feioso pato. Agora não, nesse momento a solidariedade era a melhor reação, e então gritavam:
- Pobre patinho! Que coisa terrível aconteceu com nosso amigo!
Nesse momento, com um último fôlego, o horrendo patinho põe o biquinho para fora d'água e grita:
- QUERO MAIS É QUE VOCÊS VIREM PATÊ, SEU BANDO DE...blug...glub...
E afunda.
Moral: Filhotinhos de urubu não sabem nadar.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:47 PM
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Segunda-feira, Julho 05, 2004
Alucinações de uma noite de inverno...(Porque certamente não foi nenhum Sonho de uma Noite de Verão)

Hoje eu consegui reservar um certo tempo para ouvir música. Tempo esse, devo acrescentar, que me é muito precioso, mas que minhas alucinações e não-alucinações diárias (ainda não aprendi a diferenciá-las corretamente) muitas vezes me obrigam a gastar de outra forma.
Entre as músicas que escutei (escuto de tudo o que é audível e que não me agrave os problemas psicológicos) estava uma daquelas chamadas de clássicas. A quinta sinfonia de Beethoven.
Coincidentemente ou não (realmente espero que não), foi Beethoven quem compôs a quinta sinfonia de Beethoven. Fascinante isso. Acredito que ele tenha dado esse nome à sua obra após ter completado a quarta sinfonia, já que a sua lamentável surdez com certeza não seria suficiente para fazê-lo esquecer de como contar os números em seqüência.
Muitas vezes perguntei-me o que teria acontecido se Mozart a tivesse composto primeiro. Teria a família de Beethoven entrado com um processo por apropriação indébita ou plágio? Teria sua descendência entrado em uma terrível disputa jurídica a ponto de fazer com que tal melodia fosse esquecida por décadas?
Obviamente, o fato de Mozart ser oitenta anos mais velho complicaria as coisas para o lado do Beethoven. Mas isso é uma coisa que eu desisti de pensar, pois somente eles poderiam responder a essas perguntas, coisa que infelizmente é impossível, já que esses compositores se decompuseram há muito tempo.
Mas, em verdade, o que eu mais agradeço é o fato desses clássicos compositores clássicos não terem conhecido, pensado, ambicionado, almejado e muito menos sonhado em compor músicas sertanejas, pagode, rap entre outras. Não que eu as abomine, pelo contrário, respeito profundamente todos os estilos musicais, mesmo aqueles que nem ao menos parecem enquadrar-se nessa categoria, assim como respeito profundamente aqueles seres que conseguem ouví-los por horas e, ainda assim, não sair pelas ruas rasgando dinheiro ou ingerindo matéria fecal.
O fato é que tentei imaginar o velho Beethoven ao lado de duas jovens e insossas dançarinas de pagode (poderiam ser as Beethovetes), tentando cantar algumas dessas músicas com letras pobres até a medula, e sempre errando o compasso, já que provavelmente continuaria surdo (para sua mais profunda sorte então).
Apavorei-me.
Tentei não mais imaginar essa realidade alternativa (terrível realidade por sinal), mas foi quando então me veio à mente a imagem de Mozart formando dupla com Vivaldi, ambos com botas de couro, cinturões com fivelas imensas, enfim, vestidos no melhor estilo western, tocando violão e cantando uma versão sertaneja da "Flauta Mágica", com vozes tão estridentes e irritantes que cheguei a alegrar-me por estarem mortos e enterrados.
Contudo, devido ao horror que eu presenciava em minha imaginação, meu cérebro, já não suportando mais a tortura, entrava em choque, e meu fim parecia inevitável. Nessa hora Josephine entrou e encontrou-me caído no chão, debatendo-me em antimusical tormento. Apavorada, trouxe-me à realidade da única forma possível, desmanchando o primeiro objeto que encontrou pela frente em minha cabeça para que eu saísse de meu profundo estado de catatonia.
Pena que o único objeto ao alcance era uma impressora, que por sinal já estava fora da garantia.
Mas agora estou bem.
Nada como ouvir vinte e oito vezes seguidas o hino da proclamação da república para me botar nos eixos.
postado por: EDMUND BONAPARTE 8:41 PM
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