Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?
Sexta-feira, Outubro 29, 2004
Em Busca de um Norte
Esses dias me disseram que eu deveria ser menos alucinado, que eu deveria definir um norte em minha existência, pois eu andava muito desnorteado nesses últimos todos os anos de minha vida.
Pensei profundamente nessa questão e cheguei à conclusão de que talvez encontrar um norte não fosse tão má idéia. Pode ser até uma não tão boa idéia, o que semanticamente dá na mesma.
Pus-me então imediatamente em busca de uma bússola. Encontraria meu norte nem que tivesse que percorrer todos os pontos cardeais e colaterais, nem que tivesse que subir na montanha mais alta ou descer ao mais profundo dos abismos. Sinceramente, eu esperava encontrar minha bússola em algum estabelecimento próximo de minha casa, de preferência bem próximo, pois já era tarde e eu não queria perder meu programa favorito, "O incrível mundo do vácuo absoluto" (1) .
Para a minha infelicidade, eu não sabia por onde começar, então, a princípio, não comecei, coisa que pouco depois tratei de não continuar (2). Perguntei então a várias pessoas que passavam na rua onde eu poderia comprar uma bússola. A absoluta maioria nem sequer parou, alguns pararam, olharam-me com cara de "louco" e foram embora sem responder à minha questão.
Ficou-me evidente que a maioria das pessoas não nutre grande afeição pela educação e pela cortesia, mas não deixei que tal carência de valores sociais me impedisse de atingir meu orientado objetivo.
Muito tempo depois consegui obter uma resposta de uma educada velhinha, que não perdeu a oportunidade de me contar suas histórias de quando foi bandeirante em sua juventude. Ouvi. Afinal, o que eram duas horas e quarenta e sete minutos para quem não teve um norte em toda a sua vida?
Como já era quase meia-noite, resolvi ir para casa dormir. Pela manhã sairia novamente em busca de minha bússola. Lamentei mesmo foi ter perdido "O incrível mundo do vácuo absoluto".
Pela manhã saí em direção ao sul, eu acho (3), em busca do meu norte. Havia recebido da encantadora velhinha a informação de que poderia encontrar minha bússola em qualquer tabacaria de qualquer shopping center.
Tal informação me deixou bastante admirado pois quem, eu me perguntei, quem poderia imaginar que se vende outras coisas a não ser tabaco, nas tabacarias? Eu imaginaria! - Eu me auto-respondi a mim mesmo de forma clara e definitiva - Pois de outra forma, somente venderiam drogas nas drogarias, bombons nas bombonières e tintas nas tinturarias.
Achei plausível. Dirigi-me ao primeiro shopping center que encontrei e à primeira tabacaria que lá dentro descobri. Havia finalmente encontrado o esconderijo das bússolas. Após a euforia inicial (4), novamente a descrença e desânimo se abateram em minha mente. Em cima de uma estante de vidro, em meio a dezenas de outros objetos em busca de um dono, havia uma dúzia de bússolas, desde as pequenas e tímidas, até as grandes e cheias de penduricalhos.
Entretanto, o que me desiludiu foi o fato de que cada uma apontava para uma direção diferente. Não havia entre aquelas bússolas sequer duas que concordassem em seus instintos magnéticos.
Pobres bússolas, nem mesmo elas tinham um norte. Lamentável.
Lembrei-me então de uma das histórias da velha bandeirante, na qual ela havia se perdido em uma floresta lá nos Estados Unidos em um desses encontros internacionais de bandeirantes. Disse-me ela que descobriu o caminho de volta simplesmente vendo onde os musgos cresciam, eles se acumulam sempre no lado norte das árvores. Pelo menos por lá, já que por aqui parece-me que há musgos por todos os lados das árvores, o que me faz crer que nem nossos musgos têm seu norte.
A desolação sobreveio. Sentei-me em um banco da praça e fiquei ali, olhando para o chão, sentindo pena de mim mesmo e me torturando com pensamentos de baixa auto-estima por ter falhado em minha tão importante missão.
Não aguentei mais a pressão e gritei:
- Macacos me mordam, pelas barbas do profetas e por todas as outras interjeições de espanto e indignação, onde raios fica o norte?????????
Nisso, um mendigo que estava deitado no banco ao lado, olhou para mim e com uma cara de quem falava a coisa mais óbvia do mundo disse:
- Como? Você não sabe? Nunca viu um livro de geografia? Todo mundo sabe que o norte é para cima!
Olhei para cima e "tóim", caí em mim. Procurei a resposta em todos os lugares e ela estava ali, do meu lado, toda esfarrapada em cima de um banco de praça. Meu norte era o céu, as nuvens, a luz do dia, enfim, a liberdade de olhar para outro lugar que não fosse o chão. Simplesmente o que eu já sabia e havia esquecido quando disseram que não era bom o suficiente. Esqueci meu norte enquanto tentava encontrar o norte dos outros.
Voltei para a casa, olhando para as nuvens pintadas de pôr-do-sol e assisti, mais feliz do que nunca, a sete episódios consecutivos de "O incrível mundo do vácuo absoluto".
Lição da história (lição sim, pois quem sou eu para ficar aqui ensinando moral para os outros): Nunca subestime a sabedoria que há em uma máquina de refrigerantes quando ela lhe diz: "Insira a cédula com a face para cima".
(1) Aparentemente ninguém mais, além de mim, conhece esse programa, o que me faz presumir que ele é somente uma alucinação fruto de minha imaginação. Pensando bem, ele pode também ser somente uma imaginação fruto de minha alucinação. Mas o que realmente interessa é que é muito bom e começa religiosamente lá pelas vinte e uma horas em ponto, mais ou menos.
(2) Tratei de não continuar a não começar, ou seja, descontinuar o não-começamento daquilo que eu deveria deixar de descomeçar.
(3) Digo "eu acho", porque se tivesse certeza de que era o sul, saberia com igual certeza onde ficava o norte, do outro lado, como qualquer criança da quarta série do ensino fundamental muito bem sabe (e como eu viria a descobrir muitos anos após a quarta série do ensino fundamental). Restaria somenta a dúvida de onde ficava o leste e o oeste, mas parece que esses pontos cardeais não se comparam ao norte quando se fala em promover a felicidade humana na Terra.
(4) Coisa que tratei de controlar devidamente com a minha medicação.
postado por: EDMUND BONAPARTE 6:30 PM
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Terça-feira, Outubro 26, 2004
Pequena Peça de Lógica Impura
Medo de avião
É medo de voar
Medo de voar
É medo de altura
Medo de altura
É medo de cair
Medo de cair
É medo de se machucar
Medo de se machucar
É medo de sofrer
Se quem ama sofre
Quem tem medo de amar
Tem medo de avião.
postado por: EDMUND BONAPARTE 8:35 PM
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Diretamente de nosso departamento de mitos paupérrimos e de alegorias miseráveis:
"FÁBULAS ALUCINADAS"
O Mendigo e a Madame
Certo dia, uma madame daquelas bem finas, com direito a nariz empinado e um gatinho sem pêlo à tiracolo, passeava nas belas ruas nos arredores de sua mansão. Um mendigo que por ali mendigava (normalmente mendigar é a principal ocupação de um bom mendigo), ao ver a chique senhora passeando, arriscou pedir-lhe um dinheiro, já que quem não arrisca não petisca e quem não chora não mama:
- Pô favor, sinhora! Tem uma esmolinha prá dá pra mim? Não como tem três dias!
A madame, como se ouvisse um absurdo, disse:
- Oh, céus! Meu jovem, há três dias não come? Pois trate de comer o quanto antes! Um homem adulto precisa de pelo menos duas mil calorias por dia e certamente esse seu jejum não lhe fará bem! - E foi saindo como se grande bem tivesse feito.
-Peraí, sinhora! Não vai me dá nada, não?- Indagou o mendicante indivíduo.
- Obviamente que não, meu jovem! Deves antes de tudo tomar um belo banho, colocar uma roupa limpa e decente e procurar um emprego. Onde já se viu, ficar deitado aí no chão, no meio da rua, revirando o lixo, não tens vergonha?
- Vergonha eu tenho, o que eu não tenho é dinheiro, madame. - Respondeu o mendigo.
- E como é que vais ter, se ficas aí o dia inteiro? Precisas é de mais ânimo, mais entusiasmo. Vamos, diga para si mesmo: "Eu sou feliz, a vida é bela e vou alcançar tudo o que desejo". Repita isso sempre que se sentir abatido ou sem esperanças. Aconselho porque realmente funciona comigo. É ma-ra-vi-lho-so. Tenha um bom dia. - E foi tomando o seu caminho novamente.
- Peraí, peraí, peraí! Só me diz uma coisa, por que a sinhora acha que eu tô aqui na rua, revirando o lixo? Por um acaso acha que eu gosto? - Interpelou, sarcasticamente.
-Pois bem, meu jovem, já que me perguntas, devo dizer que sim. Conheço bem hippies como você. Brigam com a família, ficam por aí fumando cocaína e cheirando maconha, depois acabam na rua, chafurdando no lixo e roubando a paz de espírito de nós, honestos cidadãos. Por isso te digo que é melhor você deixar essa vida. Vá ler alguns livros de auto-ajuda, existem alguns ma-ra-vi-lho-sos, e vá colocar essa tua cabecinha em ordem.
- Por um acauso a sinhora não qué mi ajudá mi dando uns trocado pra quentinha? - Tentou, já desesperançoso, o mendigo.
- Certamente que não, meu jovem. "Nunca dê o peixe, ensine a pescar!"- Exclamou a madame, com pose de infinita sabedoria.
- Mi ensina a pescá intão, sinhora! - Vociferou o indigente.
- Isso é só uma metáfora, meu jovem, é só uma metáfora. E mesmo que não fosse, sou vegetariana e apóio o Green Peace. Jamais faria mal a um inocente ser da natureza. Ademais, devo ir, pois sou aguardada em uma festa beneficente no "Lions".
O mendigo, sem palavras, somente pôde observar a madame que ia embora dizendo:
- E veja se te emendas, meu jovem, veja se te emendas!
Moral: É mais fácil enfiar um camelo pelo furo de uma agulha do que convencer um abonado a abrir a mão.
postado por: EDMUND BONAPARTE 12:10 AM
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Sexta-feira, Outubro 22, 2004
O Perigo
O perigo, em linhas gerais, é um sujeito muito misterioso. De certa forma ele é bem misterioso em linhas específicas também.
Ele sempre está onde ninguém espera que esteja. Pode-se dizer que ele é um grande intrometido, um penetra desordeiro, um terrorista disfarçado de criancinha.
É bem verdade que o perigo muitas vezes está onde todo mundo espera que esteja, e ainda assim existem aqueles que vão lá dar uma encarada nele e, de vez em quando, quebrar a cara.
Esses lugares, onde o perigo costuma trabalhar sem disfarce, freqüentemente estão bem sinalizados com uma plaquinha medonha, quase sempre com o desenho de uma caveira e com uma frase ameaçadora do tipo "RISCO DE MORTE".
Porém, aos mais desavisados, o perigo ainda tenta abocanhar colocando placas de "RISCO DE VIDA" nos lugares onde trabalha, fazendo com que indivíduos sedentos por mais vida (e com essa crise toda quem resistiria se arriscar a ganhar um pouco mais de vida?) acabem por encontrar a morte, o que é o fim da picada (mesmo que a morte não seja por picada).
Sabendo dessas coisas e temendo aquelas outras tantas que minha ignorância eficientemente abrange, passei a estudar o perigo na tentativa de evitar o perigo de encontrar o perigo.
Infelizmente ele parece estar em todos os lugares. Esses dias, enquanto caminhava, ouvi alguém dizer "é aí que mora o perigo!". A conversa não era comigo e somente ouvi aquela frase no ar, mas não perdi tempo e tratei logo de anotar corretamente o endereço do perigo e de traçar uma rota mais segura.
Como já ouvi muitas pessoas dizendo a mesma frase em diversos lugares, acredito que o perigo seja, antes de tudo, muito rico, já que parece ter residências espalhadas por esse mundo afora.
Entretanto, apesar de todo o perigo, cheguei à conclusão de que o melhor a se fazer é não pensar muito no perigo, só o suficiente para não esbarrar nele, pois caso se pense demais, de forma obsessiva ou maníaca compulsiva, corre-se o risco de se enlouquecer abrupta e absolutamente. E isso, por si só, já é um grande perigo.
postado por: EDMUND BONAPARTE 7:30 PM
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